Análise de "A marcha das estações" do documentário Pina: as fronteiras na vídeo-dança

May 30, 2019

 

 

A vídeo-dança se constitui como um espaço híbrido onde estilos televisuais e cinemáticos atuam sobre o corpo que dança (Birringer, 2007, pg. 37)

 

 

 

O documentário Pina (2011), do diretor Win Wenders, é uma homenagem a coreógrafa e dançarina alemã, Pina Bausch. O filme aborda a vida e a carreira da artista e, em sua versão 3D faz o espectador viver uma experiência singular – sentir que está numa sala de teatro, ali, junto aos bailarinos, sentindo, sofrendo e experimentando estados emocionais tais como alegria, tristeza, liberdade, vida, morte e paixão. É impressionante como o diretor, fazendo uso da nova tecnologia cinematográfica, consegue criar uma realidade virtual em que a ambiência nos transporta e nos surpreende com sensações e sentimentos tão vívidos como se estivéssemos presentes nas cenas.

 

Desenvolveremos uma breve reflexão acerca dos experimentos de vídeo-dança presentes no documentário supracitado, a partir de um pequeno trecho do vídeo. Faremos uma abordagem sobre uma possível narrativa que se apresenta a partir da profusão das imagens. Observaremos a relação que se estabelece na zona de fronteira entre a dança e seu suporte tecnológico que nesse caso é o audiovisual.

 

No que concerne ao avanço tecnológico a favor das pesquisas em dança, Birringer afirma que:

 

Em tempos de multiplicidades tecnológicas abrangentes, o progresso inerente às pesquisas relacionadas ao campo da dança e as novas tecnologias têm crescido consideravelmente. Houve a produção de um número considerável de obras significativas que chamaram a atenção para a performance digital. A performance digital caracteriza-se por uma estrutura de interface e pode-se dizer que inclui todos os trabalhos de performance nos quais os processos computacionais são parte integrantes da composição e conteúdo, das técnicas estéticas, configurações interativas e formas de distribuição (Birringer, 2007, pg. 34).

 

 A dança é o filme, a coreografia traz momentos de êxtase: ritmos sincopados e movimentos corporais “dissonantes”; a leveza dos movimentos mostra a experiência da liberdade, do aprisionamento, da repetição e da inquietação da angústia humana moderna. Entremeado com a arte cênica captada por intermédio do audiovisual, o diretor coloca várias imagens dos bailarinos exprimindo sua gratidão, a dor da perda e a experiência de aprendizagem que tiveram com Pina Bausch.

 

 A seguir descreverei o trecho do vídeo* utilizado para esta análise intitulado de “Seasons march” ou “Marcha das estações” em tradução literal e refere-se a uma cena localizada numa área externa que nos remete a um deserto. A utilização do registro audiovisual em tomadas externas possibilita uma configuração de imagens que extrapolam os limites do quadro, as movimentações dos dançarinos que andam lentamente numa fila indiana que segue numa reta paralela às estacas de ferro fincadas no chão num cenário que é captado pelo quadro da tela. O espaço visado é um recorte extraído de um mundo que se estende para fora dos limites do quadro. O corpo persiste no espaço/tempo. Os dançarinos perfilados fazem pequenos movimentos com os braços, em uma constante marcha, que sugerem sensações relacionadas às estações do ano.

 

 São homens e mulheres vestidos de modo elegante com figurinos de cores vibrantes e alegres, uma extensão de seus semblantes levemente descontraídos com um sorriso estampado. E a relação da câmera com o corpo dos dançarinos no espaço, nos possibilita compor uma linha de raciocínio em que todos os elementos dispostos diante da câmera são signos que se complementam para criar a significação concreta de uma narrativa, pois ao constatar que há na cena um local: um deserto, uma fileira de estacas de ferro que nos remete a uma fronteira, um espaço liminar, um grupo de dançarinos que se movimentam entrando no quadro da direita em direção à esquerda da tela numa linha perpendicular disposta na imagem.

 

Ao cruzarem a imagem, paulatinamente o zoom da câmera se modifica (afastamento do ponto de vista) até percebermos que a imagem dos dançarinos era uma exibição numa sala de cinema. Há uma metalinguagem que se associa à ligação da dança e das tecnologias, no que concerne à transposição de linguagens.

 

Segundo Costa (2007), o uso da linguagem audiovisual parece se recolher para dar ênfase ao continuum espaço-temporal da performance dos bailarinos. Todo registro implica uma transposição de linguagem, mas qual o limiar em que essa transposição começa a aparecer como outra coisa? 

 

 O vídeo aparentemente nos sugere uma topografia inóspita, delimitada por grandes e pesadas placas a indicar uma fronteira. “Vê-se assim, com base em formas espaciais simples, cruzarem-se e combinarem-se temática individual e temática coletiva” (AUGÉ, 1994). Ao observarmos a composição audiovisual no desenvolvimento de sua execução identificamos a trilha sonora associada ao ruído natural do vento como um disparador da construção da narrativa. Respectivamente a profusão das imagens em movimento (produto fílmico) relacionando-se com os corpos que se deslocam, nos remetem à construção de um significado.

 

E nesse caso específico, relacionamos diretamente a fronteira exposta no vídeo, às fronteiras entre a dança e a tecnologia e o limiar entre a pura expressão corporal e a construção de uma dramaturgia. Vale registrar também que é possível inferir uma interpretação sobre a relação das fronteiras entre os países e a problemática dos conflitos políticos constantes por causa dos refugiados. A cena celebra o humano em congraçamento. Todos juntos comemorando em marcha as estações da vida. Como seria bom poder presenciarmos isso acontecendo ao invés de existir tanta separação e preconceito.

 

Retomamos a abordagem principal nesse texto ao afirmar que há uma intenção de se buscar no ponto de interseção da narrativa o encontro do humano com ele mesmo, pois diante das fronteiras físicas estabelecidas, há um fluxo energético nesse grupo de pessoas que se movimentam quase como um grande organismo vivo nos suscitando a sensação de realidade expandida.

 

As relações entre o corpo e a tecnologia produzem uma atuação mútua e colaborativa. Há um cruzamento. Um amplo espaço de intersecção entre ambos. Há uma reflexão a ser feita, pois o vídeo e a dança possuem suas características estéticas e técnicas muito peculiares. São linguagens diferentes que, no caso específico da vídeo-dança se fundem no intuito premente de constituir-se um diálogo interativo para a conformação de uma estrutura outra como modo de caracterizar uma identidade.   

            

O papel do corpo e os limites da presença física do dançarino no contexto da discussão sobre a incorporação tecnológica como mediação para a expressão artística em dança é de extrema importância.  Diante dos limites, seja da fronteira real plasmada na tela, seja da fronteira fictícia, a fusão promovida por ambas resulta na expressão de uma narrativa consubstanciada pelo encontro. Essa narrativa se constrói na profusão das imagens numa zona liminar entre a dança e a tecnologia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

AUGÉ, Marc. Não-Lugares – Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Trad. Maria Lúcia Pereira. Campinas, SP: PAPIRUS, 1994.

BIRRINGER, Johannes. Dança em Foco. Volume 2. Rio de Janeiro: Oi Futuro, 2007.

COSTA, Alexandre Veras. Kino-Coreografias – Entre o Vídeo e a Dança. In: Dança em Foco. V. 02, Rio de Janeiro: Oi Futuro, 2007.

 

Fonte da Imagem: https://kyung.com/post.php?id=31

 

*Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=XTGdeGY2YRU&list=PL86158E5F5FA49A04&index=5

 

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