O documentário Democracia em Vertigem reiterando a divisão de um país

 

No dia 19 de junho do corrente ano, estreou na plataforma Streaming Netflix o documentário “Democracia em Vertigem”, dirigido pela cineasta e atriz mineira Petra Costa. Narra diversos fatos ocorridos na política nacional, especialmente a cobertura de eventos temporais, principalmente os governos do PT, as manifestações de 2013 e os mais explícitos episódios de corrupção envolvendo figuras notórias que ocuparam ou ocupam o Parlamento e o comando do Executivo.

 

Me chamou atenção a repercussão que a película obteve e a celeuma que ela causou. Diversos influenciadores digitais deram palpite, assim como variados relatos de anônimos comentando sobre suas visões. A diretora não é uma artista tão conhecida e a propaganda até que não foi tão maciça. Porém, há cerca de uma semana não se fala em outro assunto em termos de lançamentos cinematográficos ou trabalhos jornalísticos. Foi bem elogiado pelos colunistas do New York Times, inclusive entrando em lista de favoritos. Sobre os comentários por aqui, muitos afirmaram ter se emocionado com a narrativa, enquanto outros acharam uma total panfletagem esquerdista.

 

Não considerei o longa uma propaganda da esquerda. A diretora simplesmente tinha acesso a figuras do meio político com viés mais progressista e revolucionário. Em tom um tanto monocórdico, a diretora conta uma versão dos fatos envolvendo elementos de sua família. Seu avô foi um dos fundadores da Construtora Andrade Gutierres – investigada pela Operação Lava Jato – fundada em 1948 e os membros da sua família pertenciam à elite econômica nacional naquele período. Seus pais, no entanto, enveredaram pela causa revolucionária, participando de grupos clandestinos que combateram o regime militar iniciado em 1964. Sua mãe chegou a ser presa. A autora idealiza o seu nascimento em 1983 em paralelo com a redemocratização do país após a queda da Ditadura Militar. E que por ser bem jovem, essa democracia passou e passa por oscilações até os dias atuais.

 

O documentário é farto e riquíssimo em registros de imagens. É fato que o acesso a quadros do PT acontece pela proximidade familiar com os integrantes do partido. Petra deixa claro que o histórico de seus parentes se entrelaça com esperanças, decepções, surpresas, reencontros e desencantos que ocorreram com brasileiros de várias gerações. Sua percepção, todavia, tem uma perspectiva! Nesse viés, não é justo cobrar da autora uma imparcialidade jornalística com uma abordagem “do outro lado”. O ponto de vista acompanha uma ótica pessoal. Está presente na concepção do longa e na voz dela.

 

Petra monta um panorama articulado apontando, via arquivos jornalísticos, que a partir das “jornadas de 2013” um fenômeno se manifestava e que proporcionou um cenário de divisão ideológica que perdura até hoje. Durante as eleições de 2014 esse racha foi se tornando cada vez mais evidente. A partir daí, ascensão e queda de atores políticos – como Aécio Neves e Michel Temer – dão o tom até a descrença no sistema político gerar a escalada de Jair Bolsonaro rumo ao poder. Daí a vertigem democrática, quando o advento do autoritarismo cria um ambiente de dúvidas e incertezas quanto à solidez da nossa democracia. Em nenhum momento fala-se em “crise”, um termo que se tornou por demais vulgar.

 

A explanação presente em “Democracia em Vertigem” dá pouca margem para uma análise isenta. Ela (me refiro à análise de conteúdo) sempre pende para uma passionalidade. Propositalmente ou não, a autora conseguiu com essa obra demonstrar a pouca reflexão que ocorre nos nossos dias. Tudo é observado com muita paixão e de maneira intuitiva, de acordo com as predileções políticas, ideológicas e políticas de cada um. E apesar da proximidade com os ex-presidentes Lula e Dilma – que ganharam amplo espaço na película – está presente o envolvimento que o Partido dos Trabalhadores perpetrou com o corrompido e viciado sistema político brasileiro, sem alterar suas estruturas. Ou seja, a perpetuação no poder via coligações suspeitas, desembocou na ojeriza ao partido e todo o imbróglio envolvendo a criminalização da política. É um trabalho bem interessante, embora seja um retrato possível, visto que sob olhares de uma jovem diretora. Talvez a mesma nem cogitasse que o longa jamais será visto como algo despretensioso.

 

 

 

 

 

 

 

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