SER OU NÃO SER SUJEITO... EIS A QUESTÃO!!!


Parece óbvio que termos como “sujeito” descrevem algo no mundo, alguma coisa que posso facilmente apontar e representar, algo de íntimo, pessoal, mas não é tão simples assim. A palavra “sujeito”, como qualquer outra do nosso vocabulário, sempre passou por transformações ao longo da história, ganhando tonalidades mais fortes nos últimos tempos, como é possível perceber ao longo desse ensaio. Saímos de uma versão sombria, foucaultiana, onde o sujeito é uma resultante de relações de poder, presos numa malha rígida de linguagem, e chegamos até versões mais otimistas, onde o próprio processo de subjetivação guarda novas possibilidades e novas articulações políticas. O “sujeito” acaba sendo um reflexo perfeito de como a nossa linguagem não apenas transforma suas próprias fronteiras, como também arrasta consigo todo um conjunto de corpos, ao alterar suas expectativas.


Em seu livro “Édipo-Rei”, Sófocles apresenta o tão famoso Oráculo de Delfos, figura responsável pela frase mais impactante na história da filosofia, servindo hoje como uma referência até mesmo em debates sobre Coach e auto-ajuda: “conhece-te a ti mesmo”. Ao realizar um tipo de deslize hermenêutico, muitos entendem essa frase como um convite a um mergulho interior, um espaço de autoconhecimento, quase como numa consulta com um psicólogo. Essa interpretação anacrônica desconsidera um simples fato: a história; o quanto cada período carrega seu próprio arranjo de definições, a sua própria linguagem. Para um grego, um aristotélico, “conhece-te a ti mesmo” jamais seria uma caminhada em direção a um universo interior, algum espaço subjetivo, mas sim ao contrário. “Conhece-te a ti mesmo” nada mais é do que “saiba o teu lugar”, já que parte da ideia de que o universo é ordenado e evidente, cabendo ao indivíduo apenas descobrir o seu espaço, o seu nicho. O objetivo, portanto, não é uma caminhada rumo a uma caverna profunda chamada subjetividade. É preciso se adequar a um espaço já pronto, já dado, conselho não seguido por Édipo, ao tentar fugir da profecia de Delfos, assim como seu pai, Laio, tinha feito antes dele.


Com o nascer do século XVIII, repleto de um aroma revolucionário, as coisas começam a seguir um rumo diferente, liderado por um filósofo metódico, tímido, mas profundamente radical. Kant e seu giro copernicano, ao centralizar o papel do sujeito no núcleo do próprio conhecimento, consegue criar um novo campo de definições. Sujeito agora passa a ser a condição de possibilidade do próprio conhecimento, um tipo de a priori que nos acompanha a cada segundo, quase como uma máscara que não conseguimos tirar, não importa o que aconteça. Depois de Kant, Husserl, o pai da fenomenologia, continuou no mesmo ritmo, buscando o fundamento da consciência, segundo uma trilha transcendentalista, ou seja, a priori. Sem entrar em detalhes em cada uma dessas visões, o importante é destacar o quanto o termo “sujeito” não apenas começou a existir, como também foi sendo incorporado dentro de uma retórica naturalizante, universal, onde tudo gira em torno de suas fronteiras. Como é possível perceber, a ideia de que o sujeito é um processo histórico, passageiro, ainda é um sonho distante, nada mais do que um delírio empirista.


No século XIX, com a chamada quebra do paradigma cartesiano, responsável pelo aparecimento das ciências humanas e as teorias da suspeita, o “sujeito” perdeu sua base metafísica, a priori, ou seja, perdeu sua obviedade, não sendo mais uma simples referência epistemológica, condição para o saber filosófico, como acontece na fenomenologia da Husserl, no existencialismo de Sartre, ou mesmo com Kant, e seu sujeito transcendental. Sujeito, agora, ganha uma tonalidade mais histórica, passageira, trazendo uma série de traços de poder e manobras institucionais. A temporalidade, a história, começa a transbordar pelos cantos, não apenas revisando seus contornos, mas até mesmo implodindo toda sua estrutura. Em outras palavras, temos o início daquilo que muitos chamam de descentramento do “sujeito” ou de “processos de subjetivação”. O sujeito passa a ser um processo, um arranjo, ao invés de alguma essência ou alguma carcaça transcendental.