O Presidente que torna a República uma horda primitiva

 

 

Na última terça, 16 de julho, o fascismo deu mais um passo em seu crescente ataque aos direitos humanos. Através de rede social, o presidente brasileiro anunciou a suspensão do edital do vestibular da Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), que previa 120 vagas para pessoas transgêneras e intersexuais. O Ministério da Educação (MEC) utilizou a Procuradoria-Geral da República (PGR), para contestar o edital da UNILAB, alegando ilegalidade: segundo o MEC, a UNILAB não teria demonstrado base jurídica consistente para legitimar a implementação do sistema de cotas.

 

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), em dados divulgados no ano de 2018 e da dissertação de mestrado de Pedro Sammarco Antunes – Travestis Envelhecem (2010) –, a expectativa de vida de pessoas transgêneras é 35 anos. Em média, são expulsas de casa aos 13 anos. Apenas 0,02% se encontra na universidade, enquanto 72% não possui Ensino Médio e 56% sequer completou o Ensino Fundamental. A consequência não poderia ser diferente: marginalizada, 90% da população trans sobrevive da profissão do sexo. Com relação às pessoas intersexuais, sua invisibilização é tamanha que dificulta o acesso à informações.

 

Se tais elementos não constituem base jurídica sólida, qualquer política afirmativa no Brasil torna-se irrealizável. Pessoas trans são violentadas no interior de uma sociedade centrada na tríplice aliança heterocisnormativa: pênis-homem-heterossexual. Sua existência é considerada abjeção, pois rasura as normas preestabelecidas.

 

A ação do governo brasileiro demonstra abertamente o que já era explícito desde as eleições do ano passado. Segmentos das elites, indignados com os avanços adquiridos por minorias sociais, apoiaram uma voz que lhes deu espaço para naturalizar o ódio contra qualquer conquista de quem, em 519 anos de história, teve apenas 13 anos de alguma representação expressiva. Com o apoio das mídias corporativas, moldaram a realidade, ludibriando os demais setores sociais para escolher um pai. Entretanto, distante de um pai amoroso e gentil, sempre pronto a ouvir as necessidades dos filhos, este senhor age como o pai da horda primitiva, descrito por Sigmund Freud (1856-1939), em sua obra Totem e Tabu (1913): zomba de todos, em um gozo desmedido, que ameaça os pilares da civilização. Utiliza as instituições como seus brinquedos, para perseguir corpos dissidentes.

 

À sociedade civil organizada, resta se levantar em repulsa à essa tirania. Do contrário, será aberto mais um precedente para perseguir outros corpos. E todos terminaremos nos versos de Intertexto, escrito por Bertolt Brecht (1898-1956): Agora estão me levando/Mas já é tarde/Como eu não me importei com ninguém/Ninguém se importa comigo.

 

Fonte da imagem: https://www.bol.uol.com.br/noticias/2019/07/16/bolsonaro-mec-intervem-e-universidade-anulara-vestibular-para-transexuais.htm

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