A solidão estampada na cor da pele

July 31, 2019

 

 

 

Por Dayane Tosta

 

 

Muito se fala sobre a solidão da mulher negra. Mas esse muito ainda é bem pouco quando se percebe a cruel realidade de abandono afetivo que vivem milhares de mulheres pretas que carregam na cor da pele o peso de não vivenciarem relacionamentos estáveis. A história de vida das meninas e mulheres negras é permeada desde muito cedo pela solidão, são seres condenados à rejeição - de forma velada ou não - por causa da cor da sua pele, do formato do seu nariz, do seu cabelo e de tantas outras características étnicas que fazem com que milhões de garotas odeiem a única casa que permanentemente irá abrigar as suas almas, isto é: o próprio corpo.

 

A tese de Ana Claudia Lemos Pacheco intitulada: “Branca p casar, mulata p F, negra p trabalhar”: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia[1], conclui que as escolhas afetivas tanto de homens negros e brancos relegam as mulheres negras à condição de pessoas solitárias, além disso, no Brasil, ainda segundo este estudo, as representações sociais das mulheres negras sempre estiveram ligadas ao “servilismo profissional e sexual”.

 

Não é à toa, que a realidade da solidão da mulher negra ora se apresenta por meio da hipersexualização e fetichismo do corpo dessas mulheres - como se este existisse única e exclusivamente para proporcionar prazer para os homens, em geral brancos - ora a autoestima delas é prejudicada pela total falta de representatividade na mídia. Torna-se cada vez mais urgente mostrarmos que a solidão de uma mulher que carrega no corpo os traços da “carne mais barata do mercado[2]” não é um mero acaso, é um dos resultados mais cruéis do racismo.

 

O fenômeno da solidão da mulher negra pode ser compreendido como uma condição imposta pela sociedade racista que elegeu o tipo europeu como padrão de beleza, num mundo de belezas tão diversas e diferentes. A sociedade, herdeira do colonialismo escravocrata, elegeu um único modelo como o belo perfeito, e isso aparece em campanhas publicitárias, novelas, filmes, revistas e em todos os meios de comunicação de massa, de modo a facilmente criar a representação social favorável ao protótipo eurocentrado de beleza.

 

E não é preciso pensar muito para concluir que a objetificação do corpo negro é um reflexo da sociedade escravocrata que submeteu seres humanos à condição de mercadorias. Em pleno século XXI, se faz necessário relembrar o óbvio: mulheres negras não são objetos sexuais. O óbvio também precisa ser dito e reiterado, sobretudo em tempos sombrios nos quais as pessoas fecham os olhos diante de diversos casos de racismo estampados nos jornais há cada nova manhã. Repetir o óbvio é um ato de desnudar a realidade cruel que se manifesta pelos discursos que trivializam a violência racial. Resistir é um meio de prevalecer na existência, perseverar, apesar da opressão racista de opor-se à tirania eurocentrada. É um modo de resguardar a nossa saúde mental em prol do cultivo do amor próprio.

 

[1] Disponível em: https://revistaforum.com.br/wp-content/uploads/2015/09/PachecoAnaClaudiaLemos.pdf?source=post_page---------------------------

 

[2] Referência à canção de Elza Soares A carne (2002).

 

Referências:

 

Fonte da imagem de Tereza de Benguela: : https://www.esquerdadiario.com.br/25-de-julho-Dia-Nacional-de-Tereza-de-Benguela-a-lider-do-Quilombo-de-Quaritere

 

https://medium.com/@winniebueno/uma-mulher-tantos-preterimentos-bd006553ac52

https://revistaforum.com.br/semanal/a-solidao-tem-cor/?source=post_page---------------------------

https://revistaforum.com.br/wp-content/uploads/2015/09/PachecoAnaClaudiaLemos.pdf?source=post_page---------------------------

 

 

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