A nova roupa da Lava jato

August 4, 2019

 

 

 

 

No início do século XVIII, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen publicou um conto chamado A roupa nova do imperador, onde narra um evento no mínimo cômico em uma rica e próspera cidade. Como ser prolixo é quase uma falha atávica de minha parte, tentarei ser sucinto, então tenham paciência. Conta-se que um monarca bastante vaidoso recebeu a oferta de dois trapaceiros para coser uma roupa especial e digna de toda sua majestade.

Contudo, a principal característica dessa vestimenta era que só os mais inteligentes poderiam ver – e quem não a via, não o era. No entanto, tudo não passava de uma mentira, e os espertos “tecelões” na verdade fingiam estar costurando o tecido dia e noite. E cada funcionário enviado pelo rei para verificar o tecido, com medo de ser considerado um idiota, dizia que estava sendo feito a melhor roupa do mundo. Aqui interrompo a narrativa.

 

Bem, não foi por falta de aviso. A divulgação do site The Intercept trouxe à tona uma série de diálogos entre procuradores do Ministério Público Federal do Paraná, ninho onde nasceu a Lava jato, e o então juiz Sérgio Moro, da 13º vara federal, responsável por julgar os casos relativos a desvios da Petrobras. Sempre estive entre aqueles que desconfiaram dos procedimentos “peculiares” adotados na operação de combate à corrupção, principalmente nas prisões preventivas e conduções coercitivas, isso sem falar nos inexplicáveis e jamais investigados “vazamentos” de depoimentos dos delatores. Não se trata de ser benevolente com a corrupção, mas sim de seguir o ordenamento jurídico. Mas mesmo presumindo como as “salsichas” [1] eram feitas no escurinho da Lava jato, é de se embrulhar o estômago ao ler o conteúdo divulgado.

 

Não irei me concentrar nos diálogos em si, já que pessoas muito mais competentes fizeram isso com bastante propriedade. Minha questão se concentra na narrativa política em que se sustentam os “apóstolos” da Lava jato e sua aceitação por parte da sociedade brasileira. Que a relação promíscua entre o setor público e o privado deva ter toda a atenção e correção devida, isso ninguém duvida. No entanto, sob os auspícios de promover uma faxina moralizante, destruiu-se a classe política e no lugar da terra arrasada cresceu a erva daninha que hoje se exibe viçosa no Palácio do Planalto, com reais possibilidades – mas não menos ridículas – de sua muda brotar em terras norte-americanas.

 

Hoje, percebe-se que a homenagem que os lavajatistas prestam à moral não passa de um projeto político posto em prática por aqueles que deveriam ser os primeiros a zelar pela coisa pública, afinal, A Carta de 88 conferiu ao Ministério Público, bem como à justiça, importante papel na garantia dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos. Ora, essa narrativa que nada mais tem sido do que uma cegueira voluntária para que não encarássemos o fato de que a reforma e aprimoramento do nosso sistema político é nossa tarefa inalienável. Não é a primeira vez em nossa história que há a tentativa de elites tutelarem os rumos do país, em nome de uma pretensa incapacidade, decorrente de um pretenso amorfismo, da sociedade tomar para si os rumos da nação. Mas parece que nos faltou paciência histórica, não nos atentamos para o ritmo molecular - mas não menos constante em que as mudanças se processam, o mesmo que inspirou as elites que fundaram esse país - e embarcamos nessa vigarice travestida de combate à corrupção, no afã de nos livramos do que seria o grande mal do país. Não satisfeitos, os falsos profetas, por meio de ávidos arautos na imprensa, enlearam a sociedade com o mantra de que "falar mal da Lava jato é  ser a favor da corrupção". Ou seja, a cada crítica, os cruzados abrigam-se nesse muro até então intransponível.

 

E entorpecidos pelo discurso sedutor de colocar corruptos na cadeia, assistimos a divulgação de gravações ilegais da ex-presidente Dilma e a condenação – a meu ver, sem provas – do ex-presidente Lula, além da aplicação de medidas cautelares ao então senador Aécio Neves, não menos lamentável que a tentativa asquerosa e pistoleira de derrubar o ex-presidente Michel Temer, essas duas últimas com chancela de “torquemadas”[2] no Supremo Tribunal Federal. Conjugado a isso, vigora a interdição do debate público, onde o simples fato, por exemplo, de reconhecer ilegalidades contra membros do PT - qualquer partido que seja - se torna confissão escancarada de culto ao partido que assumiu com um claro discurso de ruptura com o passado, mas ressuscitou o Estado Novo varguista.

 

Não, reconhecer ilegalidades contra Lula e Dilma não me fazem pertencer à esquerda (lugar que nunca estive); mas se trata de perceber que não está em curso um plano “dazelite”, como querem alguns aferrados a dogmas da esquerda quadrúpede, nem tampouco de “defender bandido”, como berram os vocalizadores da direita equina. Se trata de defender que o procedimento legal deva ser aplicado a todos, até mesmo àqueles que infligem a lei.

Numa apressada comparação bíblica, Sérgio Moro foi o bezerro de ouro que boa parte da imprensa (e da sociedade) ergueu para si e aclamou como símbolo moral, nele depositando esperanças de um país melhor “carcomido por oligarcas corruptos". Não, Moro não foi o escolhido para nos levar ao paraíso, mas sim o falso profeta que ajudou nos empurrar para esse inferno institucional, onde em nome de falso ideais, o ordenamento jurídico é espicaçado à luz do dia.

 

Retomando à história do início do texto, quando o rei seguiu em cortejo pela cidade, acabou caindo em desgraça quando alguém teve coragem de gritar “o rei está nu!”. Assim se encontra a Lava jato. O manto tecido de retidão, seriedade e moralidade que ornavam Dallagnol, Moro e os demais foi rasgado pela força dos fatos; agora o que vemos apenas é cinismo, prepotência, arrogância e ambição, de gente que quer usar o Estado para seus interesses privados, ação típica do patrimonialismo que eles tanto se orgulham em combater.

 

Que os novos ídolos aprendam o custo de ter pés de barro e que derrubá-los seja o permanente ofício da instituições dessa república, que mesmo combalida, não se curvará a devaneios de tiranos.

 

 

Notas

 

[1] Na verdade, a frase “os cidadãos não poderiam dormir tranquilos, se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”, foi proferida pelo poeta americano John Godfrey Saxe (1816-1887)

 

[2] Tomás de Torquemada (1420-1498), frade dominicano espanhol que, nomeado como inquisidor pelo papa Inocêncio VIII, promoveu uma feroz caçada contra bígamos, agiotas, judeus, homossexuais, bruxas e hereges, cuja maioria tinha como destino a fogueira.

 

Fonte da imagem: https://m.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1749519-sergio-moro-e-exaltado-como-heroi-nacional-na-paulista.shtml

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