Remoto Controle

August 10, 2019

 

"O Sr. Divirta-se Com Segurança tinha medo de voar
Ele arrumou sua mala e beijou suas crianças se despedindo
Ele esperou toda sua maldita vida para pegar aquele voo
E quando o avião caiu, ele pensou:
"Bem, isso não é legal?!"
Isto não é irônico? ... você não acha?"


Esse é um trecho da canção Ironic de Alanis Morissete, mas poderia ser da vida de algum de nós, ansioso, que tentou se cercar de toda a segurança, prever, calcular, e evitou ao máximo se arriscar, para no fim das contas, ver que não tinha controle algum. 
É irônico mesmo e não precisa ser algo tão drástico assim, mas pequenas coisas no nosso cotidiano.


Quantas vezes você se pega tentando controlar as coisas? 
Inúmeras, imagino. Pra mim não é diferente. O ser humano gosta de estar nesse lugar de poder, de previsão, de absoluta certeza.
É difícil para nós ter que lidar com o incerto, o duvidoso. Nosso cérebro é programado para calcular, planejar, deixar tudo certo e arrumado, para que não haja falhas no percurso e tudo seja previsível. Ele quer colocar ordem no caos, mesmo que tenha que preencher as lacunas incorretamente.


Foi mal, meu companheiro de massa cinzenta, você já começou falhando daí, em pensar dessa forma. Vou te dar uma péssima notícia: Não há controle!
Sim, não se desespere. Vai ficar tudo bem. Mas você precisa aceitar que nem tudo vai sair como o planejado.

 

Infelizmente, uma das necessidades que mais move o ser humano é a de ter certeza.

A pessoa precisa estar certa do que vai fazer, em que terreno está pisando, do que vai acontecer, de que maneira deve agir. Tenta se cercar de informações à sua volta para ter convicção de como se comportarão todas as variáveis de cada situação pela qual vai passar. Um  milhão de pensamentos antecipatórios!
 

Querer ter certeza de tudo e cada vez mais reforçar esse tipo de pensamento rígido de previsão, pode provocar bastante estresse e talvez culminar em algum transtorno psicológico, como os de ansiedade, principalmente.


Um exemplo bem característico de tal atitude é o TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo. A pessoa que tem TOC, tenta a todo custo se livrar de pensamentos obsessivos que não param de atormentá-la. Para tanto, ela cria rituais e acredita que se cumpri-los à risca vai se libertar deles.
 

Por trás destes comportamentos, há uma grande necessidade de certeza: de que a porta está fechada, de que não vai se contaminar, de que algo terrível não vai acontecer, etc. Ao fazer os mesmos gestos repetitivos terá total controle da situação e vai alcançar o mesmo alívio que promoveu antes. São apenas crenças irracionais, mas que fazem do indivíduo refém das suas próprias ideias.


A ansiedade nada mais é do que uma grande angústia porque você não sabe o que virá pela frente. Então, para combatê-la, você quer ter o quê? Certezas. E quer saber o pior? Sua ansiedade só aumenta! Porque não consegue obtê-las.


Mais um exemplo que posso te citar é a Agorafobia, tão comum hoje em dia. O medo de sair sozinho, de aglomerações, de usar transportes públicos, de passar mal na rua e não conseguir ajuda. Tudo isso por que acredita que vai acontecer algo de ruim ao sair de casa e precisa enfrentar esse mundo incerto. Afinal, ele é assustador, perigoso, cheio de possibilidades.


Sim, é mesmo, mas isso não quer dizer que acontecerá o pior sempre, as coisas mais catastróficas. E está fora do seu controle, você não está no volante desse veículo. Ninguém está! Porém, nosso amigo cérebro continua acreditando que sim e te passa o tempo todo essa falsa mensagem.


Vou te dar uma outra notícia que não é muito agradável: Nós queremos controlar justamente o que é mais difícil de ser controlado - os eventos externos. O tempo, os outros, a vida!

 

Não pensamos: Bom, posso tentar controlar um pouco o que estou sentindo ou minhas escolhas, o que digo (que já são um tanto quanto complicadas, mas dependem mais de mim). Não, leitor, pensamos em modificar o que é mais remoto de se ter êxito.


O controle total é uma ilusão da nossa mente. Ela é a primeira a escapar dele. Nossos pensamentos são, em grande parte, automáticos. Não escolhemos no que pensamos. Eles podem ser esdrúxulos, bizarros, violentos, imorais e você não vai ter como impedi-los de virem à sua cabeça. Simplesmente eles vêm e ponto final.
O controle que podemos tentar ter é o de como lidar com esses pensamentos. Como você os recebe, se vai apegar à eles, se os deixa ir, se os contrapõe. Sobre isso sim, você pode ter domínio.


E como podemos lidar com esse medo da incerteza e consequente necessidade de controle? A resposta está na ação oposta. Tentar não controlar. Aceitar que há coisas que estão fora das nossas mãos e do nosso querer, da nossa idealização. Elas vão acontecer, independentemente do que você vislumbrou.
Procure perceber o que realmente depende de você, a exemplo do que falei dos pensamentos.

 

Planejamento é importante e necessário, muitas vezes na nossa vida, mas leve em conta o que te escapa.
Pra fechar, procure se aventurar na incerteza, ver seu lado bom. Como seria se soubéssemos tudo que irá acontecer conosco? Cada passado, milimetricamente traçado e seguro. Acredito que nossa vida não teria muita sabor, não é mesmo?


O incerto pode te levar por caminhos que não tinha imaginado e se tornar até melhor do que você desejava, uma grata surpresa. Se deixar levar pelo imprevisto pode ser bem divertido e saudável, em certos momentos.
Quando nos desapegamos da ilusão da total certeza e controle, a vida fica bem mais leve.

 

 

 

 

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