Epistemologia (s) e Antropologia (s): como agregar bactérias (cianobactérias) e vírus (Zika) ao social das C. Sociais

October 24, 2019

 

 

 Por Gabriel Brito

 

 

 

Cianobactérias são micro-organismos procariontes que podem habitar diferentes ambientes, terrestres ou aquáticos. Normalmente elas são encontradas em ambientes aquáticos e, aqui, é esse tipo, também conhecidos como “algas azuis” que nos interessa. O que devemos nos perguntar é quais são as ações desempenhadas por elas, entendidas como agentes plenos, não humanos atuantes (actantes).

 

Outros tipos de seres, parasitas, os vírus, são mais conhecidos pela população em geral (supomos). Nos anos de 2015 e 2016, uma epidemia de vírus Zika, inicialmente conhecida como “dengue fraca”, foi responsável pelo surgimento do que ficou conhecida como Síndrome Congênita de Zika, cuja síndrome que ficou mais conhecida foi a de microcefalia.

 

 Já os seres humanos, por sua vez, podiam ser compreendidos em relação ao contexto da epidemia de Zika: pessoas infectadas pelo vírus Zika, fetos contaminados por contaminação vertical (da gestante para o feto no período de gestação) e cientistas da área da Saúde, em geral, que pesquisavam os sintomas de tais doentes, desenvolvendo uma etologia que explicasse as causas da contaminação.

 

Até o ano de 2019, as cianobactérias não faziam parte dessa “rede”, dessas associações entre seres humanos e não humanos. Tratava-se apenas de um vírus (Zika) transportado de Uganda, isolado pela primeira vez em 1947; de cientistas; e de “doentes”. Porém, outras e outros cientistas, chamadas/os de cientistas “do social” ou apenas cientistas sociais, que começaram a pesquisar as dimensões “sociais” da epidemia de vírus Zika.

 

Quando cientistas sociais, em sua maioria da Antropologia, tendo pouquíssimas sociólogas e sociólogos pesquisando o assunto, no Nordeste do Brasil principalmente, iniciaram suas pesquisas, não fazia parte de seus objetivos investigativos o vírus Zika em si. Para elas e eles, bastava obter artigos de especialistas da Saúde para compreender quais características estavam associadas aos vírus.

 

O objetivo investigativo de cientistas sociais partia de um “recorte epistemológico”, a saber, compreender as chamadas “dimensões sociais” nas quais o vírus ocorria. Tão logo a microcefalia surgiu, antropólogas e antropólogos de diferentes partes do país – como Débora Diniz e Soraya Fleischer (UnB), Luísa Reis Castro (UFRJ/MIT), Russell Perry Scott e Ana Cláudia Rodrigues Silva (UFPE), entre outras/os -, aproximaram-se das famílias afetadas pela SCZ.

 

Passados dois anos de pesquisa, a área de Saúde não conseguia explicar porque as taxas de microcefalia no Nordeste eram maiores que em outras regiões. O mais comum era acusar a falta de saneamento ao número elevado de mosquitos e, por conseguinte, de vírus Zika; mas nada explicava a correlação entre Zika e Microcefalia com o Nordeste brasileiro.

 

Foi apenas no ano de 2019 que surgiu um novo ator (actante): as cianobactérias. Durante a década de 1990, no município de Caruaru (PE), cianotoxinas – toxinas produzidas por alguns gêneros de cianobactérias – foram responsáveis pelo contágio e óbito de dezenas de pessoas em uma clínica de hemodiálise. Depois disso, mas não apenas neste caso, ficou claro que as cianotoxinas causavam (também) danos neurológicos.

 

Munidos/as com essa “curiosidade” científica, pesquisadoras/es da UFRJ realizaram pesquisas correlacionando o vírus Zika e as cianobactérias. Os resultados apontaram para as hipóteses esperadas: as cianotoxinas intensificavam os danos neurológicos causados pelo vírus Zika. Finalmente chegamos à descoberta do motivo que levou ao aumento de casos de microcefalia no Nordeste brasileiro: correlação entre Zika e cianobactérias.

 

A correlação não se deu por dedução. Na verdade, o Nordeste brasileiro apresenta uma situação grave no tocante ao saneamento básico. Algo que não é novidade. Mesmo um Gilberto Freyre relatava no famoso “Sobrados e Mucambos”, ainda sobre o fim do século XIX e início do XX, a respeito das causas ambientais associadas, na época, à epidemia de cólera e, também, de febre amarela. Ambas controladas com o desenvolvimento da área da Saúde no Brasil.

 

Atualmente, as coisas parecem ainda longe de se resolverem. Todavia, se cianobactérias, vírus Zika e microcefalia já são pesquisados pelo campo da Saúde (recorte epistemológico); como a Antropologia, principalmente, pode partir de seu campo para contribuir na mitigação aos impactos destes seres não humanos sobre “a” sociedade?

 

Levantamos algumas hipóteses depois de uma fase exploratória de pesquisa iniciada no ano de 2019, cujo objetivo é investigar a contribuição das Ciências Sociais no combate e/ou mitigação aos impactos da epidemia de vírus Zika em Recife-PE. As hipóteses são as seguintes:

 

1) a contribuição antropológica consiste em produzir conhecimento sobre dimensões “sociais” e “culturais” atinentes à epidemia;

2) antropólogos/as contribuíram com a difusão e visibilidade de informações sobre a situação vivida por famílias afetadas por Zika em blogs;

3) contribuíram com a valorização das experiências das famílias afetadas, algo que não pode ocorrer com o campo da Saúde focado apenas nos laboratórios;

4) contribuíram com a difusão e compartilhamento dessas experiências por meio de audiovisuais difundidos com uso da internet/youtube;

5) finalmente, contribuíram com a produção de conhecimento antropológico (social) para espaços e suportes técnicos acadêmico-institucionais (periódicos, seminários, eventos acadêmicos em geral).

 

É a partir da junção das áreas – “colagem epistemológica” – que diferentes dimensões da epidemia de Zika puderam ser combatidas. Neste sentido, surge, todavia, um impasse epistemológico dentro da própria Antropologia (e também da Sociologia): se os chamados recortes epistemológicos têm sido responsáveis pelo combate e mitigação aos impactos da epidemia de Zika, por que deveríamos aposentar o “social” da sociologia clássica o substituindo pelo “novo” social, o chamado social associativo de Bruno Latour? Por conseguinte: por que deveríamos abandonar a cultura da Antropologia Clássica para a Ontologia da Antropologia pós Virada Ontológica? Bom, esse é um assunto para um próximo post.

 

* Programa de Pós-Graduação em Antropologia (UFPE).

 

Fonte da imagem:  Fonte: Atlas de cianobactérias e microalgas de águas continentais brasileiras, 2012.

 

 

 

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