A série "A Sociedade" e o processo da maturidade

October 25, 2019

 

 

Após partirem para um campus universitário num comboio de ônibus escolares, cerca de 200 adolescentes retornam para a cidade de origem devido ao fechamento das estradas depois de uma forte tempestade. O que não esperavam, é que fossem encontrar o local totalmente deserto, sem qualquer habitante. Nem sinal dos seus pais ou professores. É assim, com esse mistério, que se inicia a série “A Sociedade”, em cartaz na Plataforma Netflix. A segunda temporada já foi anunciada para 2020.

 

A princípio, antes da partida, os moradores se deflagram com um forte odor na localidade, cuja origem é desconhecida. Ao regressarem, o cheiro desaparece e as vias ficam bloqueadas por uma densa floresta. Os sinais de wi-fi não funcionam e ninguém além do grupo atende ligações. Perdidos, os jovens começam a se organizarem posteriormente a uma onda de saques, depredações e tumultos generalizados. Alguns mais conscientes começam a tomar a frente de comandos e assim se inicia uma sequência de conflitos. De início, algum expectador mais atento pode suscitar ligações da série com a sociedade formada no clássico do terror “Colheita Maldita”, onde uma seita macabra congrega diversas crianças. Todavia, é só impressão.

 

O convívio forçado é estabelecido por políticas de segurança pública, limpeza urbana, controle alimentar, racionamentos diversos e lazer, tudo discutido em assembleias realizadas na igreja local. Porém, divergências e atritos ocorridos com frequência colocam a todo instante os tratos firmados em perigo. Em dado momento, a possibilidade de estarem metidos em um universo paralelo é até levantada, de forma bem rápida, com justificativas cientificas e tudo o mais. O UP mais uma vez se apresenta como provável, o que leva a crer que este assunto, de fato, é bastante sedutor no imaginário dos cineastas.

 

Como se trata de uma história envolvendo jovens em plena puberdade, a necessidade de uma maturidade precoce dos envolvidos é posta em xeque durante toda a trama. Nisso, aparecem temas discutidos em nossa sociedade: posse de armas, violência contra a mulher, homossexualidade, gravidez na adolescência... O ponto alto, no entanto, é sobre a formação da “corte” de justiça, para julgamentos de crimes. Quem tem a moral naquele lugar para sentenciar uma pessoa e transformá-la em criminosa? Talvez seja esse o principal mote para compreender como uma sociedade formada por efebos que eram totalmente dependentes dos pais possa ser possível.

 

Apesar da trama envolver personagens abaixo dos 18 anos, praticamente não há nenhum momento besteirol, típico da cinematografia norte-americana. Talvez, o fato de saber que o enredo não conta com elenco maior de idade possa afastar boa parte dos expectadores, sem paciência para se deparar com protagonistas bobões ao estilo “American Pie”. Felizmente, isso não ocorre. “A Sociedade” é sobre a necessidade de amadurecer, frente a uma sociedade com promessas de longevidade e que posterga a entrada na vida adulta. Cada vez mais, nos deparamos com pessoas que apresentam comportamentos juvenis em faixa etárias que deveriam dar exemplo de maturidade. Apesar da série ser boa, nunca a vi ser indicada em nenhuma lista presente em sites especializados.

 

No entanto, justamente por se tratar de uma trama de imaturos lutando pela sobrevivência, ela chame atenção para algumas circunstâncias bem atuais. Impossível assistir a série sem criar pontes e referências para nossa política bizarra. Enquanto na tela púberes se esforçam em se responsabilizar prematuramente na formação de instituições para fiscalizar e gerir atos comunitários, nossos congressistas – bem “adultos” – regridem mentalmente a idade escolar para protagonizar cizânias ginasianas em um determinado amontoado partidário. Troca de emojis “fofos”; xingamentos; memes medonhos; alusões anedóticas à sexualidade alheia; ameaças; chantagens aterrorizantes. Diante de um noticiário repleto de molecagens desse nível, refletimos que participar da comunidade expressa em “A Sociedade” é bem mais atrativo. Lá, pelo menos, a infantilidade está muito mais distante de vingar.

 

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