Calibã e Ariel no divã

November 6, 2019

 "Ariel and Caliban." pintura de William Bell Scott, 1865. Domínio público.

 

 

Em primeiro lugar, dedico esse modesto e despretensioso ensaio a Wanderley Guilherme dos Santos, que faleceu na última semana. Considerado como um dos pioneiros na institucionalização no Brasil da ciência política, em específico, e das ciências humanas, em geral, Wanderley Guilherme foi sem dúvidas um dos grandes responsáveis pelo amadurecimento do campo acadêmico universitário brasileiro. No entanto, ele também contribuiu de maneira vigorosa para o ensaísmo brasileiro, com textos que combinavam arguta percepção, rara erudição, mas sem abdicar de seu compromisso com o desenvolvimento político e social do país.

Como se não fosse o bastante, Wanderley Guilherme dos Santos é também um dos pioneiros em estudos da “imaginação social brasileira”, contribuindo para o que se chama hoje de pensamento social brasileiro e pensamento político brasileiro, sendo este último o campo em que atuo como pesquisador. Se o que escrever agora não poderá jamais estar à altura de seus escritos, que ao menos esteja presente o ethos da mente inquieta que ele ajudou a inculcar naqueles que pertencem à sua descendência acadêmica legítima. E por último, porém não menos importante, agradeço a Pierre Malbouisson pelos comentários. Espero ter feito jus à sua arguta leitura.

 

***

Em  precioso ensaio escrito no início do século passado intitulado Ariel, Juan Enrique Rodó – que dedica à obra “a la juventude de América” – trouxe à tona um tema que acompanharia – e ainda acompanha – por um bom tempo os debates políticos, culturais e acadêmicos: a relação freudiana – e mal resolvida – que a América latina possui com o mundo ocidental. Fazendo referência à bela comédia shakespereana chamada A Tempestade, identifica Calibã, ser de aparência horrenda e servo do mago Próspero, como alguém controlado pela satisfação material, no que seria uma representação estética do utilitarismo anglo-saxão, enquanto Ariel – igualmente servo de Próspero – seria um espírito representante do desinteresse pessoal, servindo de personificação da herança ibérica, esta conectada à tradição helênica, avessa ao já na época inexorável mundo dos interesses do capitalismo. A moderna divisão do trabalho e ética do mundo moderno, que segregam, antagonizam causariam aqui – segundo Rodó – um efeito cediço à nossa tradição de comunitas, onde a persona social teria ascendência sobre o individualismo racional do self. Assim, o Ariel surge como um manifesto em defesa da cultura latino-americana contra as tendências egoísticas que, se bem-sucedidas, lograriam em desorganizar a nossa civilização.

 

Lido em uma chave interpretativa antagônica e avessa à mesma cultura ibérica que Rodó tanto exaltava, a peça shakespereana pode adquirir uma outra hermenêutica: Calibã seria uma representação do cenário de completa miséria moral que tem a América Latina como moldura: no plano social, chefes de caudilhos¹ e seu espírito de clã – para lembrar do diagnóstico de um Oliveira Vianna –, onde a invertebração social teria nos levado à desagregação, miséria e violência, numa pintura que cabe muitíssimo bem a moldura sociológica descrita por João Guimarães Rosa, no magistral Grande Sertão: Veredas. No campo político – num diagnóstico semelhante ao que o publicista Tavares Bastos pensou para o país, mas que pode se estender ao resto da Ibéria de além-mar –, teríamos um formação de caráter autoritária e de feição asiática², como um manto sufocante que impediria a emancipação e autonomia social, onde o patrimonialismo³ é o “abre-te, Césamo” para entender a questão, onde só a personagem do General ancião de O Outono do Patricarca de Gabriel Garcia Marquéz emoldura tão bem o caráter despótico e totalmente antirrepublicano que circunscreveria a nossa moldura institucional. Nesse prisma, Calibã seríamos nós, selvagens e incapazes de uma cultura cívica moderna, sempre em descompasso de Calibã, o Ocidente do espírito capaz de optar pelo moderno ao invés do atraso; pela civilização em detrimento da barbárie e em suma, distinguir entre o bem e o mal. Acometidos de patologias sociais atávicas, só nos restaria romper com o passado ou estar condenados a observar Ariel sempre de cima para baixo. Com efeito, entre críticas e elogios à nossa herança cultural, seguimos nossa caminhada histórica.

 

Eis que nos últimos tempos, a América Latina se vê envolta em diversas manifestações e crises políticas, o que tem despertado o interesse analítico de políticos e acadêmicos sobre o tema. E para variar, as teses podem ser agrupadas em duas: para alguns, a ebulição por qual o nosso continente  significa a rearticulação do Foro de São Paulo – entidade que reúne diversas organizações da esquerda latino-americana – com o nefasto plano de subverter a ordem nacional e levar a cabo a revolução socialista continente afora, transformando os países da região em uma “união das repúblicas socialistas latino-americanas” de fancaria mambembe. Nessa visão, nossas bandeiras seriam todas elas vermelhas. Eis aí a alta intelectualidade dessa direita equestre que relincha pelas redes sociais e que ocupa ministérios e palácios em Brasília.

 

A segunda visão tem como prisma uma visão embolorada – mas que ainda é moda entre os delírios dos antigos revolucionários e os guerrilheiros de internet –, é que a agitação por qual passamos é reflexo infraestrutural da correlação entre classes sociais, onde a emergência e insurreição popular significa – a um só tempo, pasmem –, a luta contra o neoliberalismo e imperialismo, acirramento da inescapável contradição de classes, leito de rio por onde navegará o barco da revolução socialista, além de combate ao fascismo instalado no nosso país. Nessa interpretação datada, falta ainda combinar com os nossos “russos”, que, por enquanto, ainda não deram as caras nas ruas e assistem ao que acontece no país. Hasta la mediocridad mediocridad y el ridículo, siempre.

 

O que proponho aqui é antes de mais nada, um convite a uma reflexão. Não se trata de trazer alguma revelação messiânica, até porque, se profeta fosse, procuraria o deserto intelectual e de ideias  que vive esse país para pregar as boas novas. A recusa aos esquemas prontos e um convite a um olhar mais atento sobre o que está ocorrendo. Desde já, erguem-se contra mim dois adversários implacáveis: um é o tempo, que não me autoriza a análises profundas sobre o tema, já que eles ainda ocorrem e suas causas e consequências só poderão ser mensuradas após certo tempo de sedimentação histórica. Afinal, como nos lembra o filósofo alemão Hegel, a coruja de Minerva só alça voo ao entardecer. O segundo adversário é a própria realidade, complexa e multifacetada: tentar compreender a razão desses fenômenos em inteireza, apreendendo-os em suas particularidades, sem perder de vista a totalidade é uma tarefa de extrema dificuldade. Isso sem falar do que significa não perder de vista a relação dialética entre o particular e o local, ou seja, entre a nossa América e o resto do mundo. Atentos a isto, sigamos o bom combate.

 

Talvez o caso mais retumbante de todos seja o do Chile. Embora tenha começado por conta do aumento da tarifa do metrô, os protestos chilenos se avolumaram em tamanho e pauta, demonstrando que a insatisfação chilena iria além da majoração do transporte. Os milhões que foram e que continuam nas ruas – salvo um prenuncio de uma revolução – em sua própria diversidade, o que reflete o vigor da sociedade civil, não procuram simplesmente reverter o aumento – ato já feito pelo presidente Sebastian Piñera –, mas por em xeque a participação (no caso, quase ausência total) do Estado na oferta de serviços públicos, estes capturados pela lógica do mercado. Embora as consequências sejam incertas, parece que a “Meca do Estado mínimo” na América Latina parece ter ruído, se tornando um caminho a ser evitado. Ainda que tardiamente, o ultraliberalismo econômico herdado do regime autoritário de Pinochet deverá acertar as contas com a história.

 

Na Argentina, a vitória de Alberto Fernández contra o atual presidente Maurício Macri assinala o fim da curta e melancólica experiência liberal após anos de controle do peronismo. Sem conseguir conduzir as reformas que pretendia, Macri, que já tinha sido derrotado nas primárias, sucumbiu no segundo turno para Fernández, mesmo tendo acenado com algumas medidas mais populares. Com efeito, percebeu-se que a derrota, que tendia a ser acachapante, foi com uma margem menor do que se especulava, e o partido do atual presidente demonstrou capacidade de eleger uma bancada no congresso argentino que não garantirá maioria ao próximo governante, sem antes haver muito diálogo. Além disso, embora o pânico de que Cristina Kirchner (vice de Fernández) e todos os vícios populistas a que ela tão bem é chegada acabem tomando conta do novo governo, analistas apontam para o perfil moderado do novo presidente e, a julgar pela equipe que está sendo montada, é possível que nossos hermanos tenham a possibilidade de contar com um governo de esquerda que tenha aprendido com a experiência e esquecido o mau costume para trás.

 

No Uruguai, país comandado nos últimos tempos pela Frente Ampla (uma conjunção de partidos de centro-esquerda), o atual grupo no poder demonstra dificuldades em eleger seu candidato, Daniel Martínez. Embora esse país tenha apresentado melhora nos seus indicadores sociais nos últimos anos, as eleições tem sido marcadas por uma acirrada disputa onde o candidato conservador Luis Lacalle Pou apresenta chances reais de encerrar o ciclo da frente uruguaia. Motivo? Entre muitos motivos, está o de que nos últimos anos o Uruguai tem apresentado um aumento crescente na criminalidade, o que fez com que boa parte dos eleitores possa apostar suas fichas no candidato oposicionista. Até onde tenho conhecimento, Lacalle procura pautar sua campanha com críticas severas à gestão estatal e à violência, mas não insulta a inteligência alheia tentando convencer os uruguaios de que o país ruma ao socialismo, nem tampouco que a solução da violência é executar pessoas (sem referência a nenhum presidente, nem tampouco a nenhum governador do Rio de Janeiro. Longe de mim fazer algo do tipo). Mas o mundo é assim: alguns usam o cérebro, outros o intestino para falar. Cada um usa o que tiver mais a mão. Já em solo boliviano, nem mesmo o sucesso econômico do governo do Evo Morales, que conseguiu retirar milhões de pessoas da pobreza e mantém o país em crescimento estável, foi capaz de aplacar a revolta daqueles que não só foram contra às mudanças constitucionais que Evo Morales fez para poder concorrer a uma nova eleição, quanto foram as ruas protestar contra o suspeito resultado da última eleição. Já na terceira semana, cresce o número daqueles que querem a renúncia do presidente Evo.

 

Como disse anteriormente, embora esses movimentos tenham suas particularidades, no meu ponto de vista, é possível atar essas pontas soltas e interpretá-los pela ideia de movimento em direção ao Ocidente. Por Ocidente, entendo um conjunto de países que compartilham – em uns mais, em outros menos – a combinação de instituições político-jurídicas de feição liberal, com uma sociedade civil complexa e com vida própria, onde diversas instituições, entre elas o Estado, exercem também a função – no mínimo, necessária – de controle do processo caótico de acumulação capitalista, ou recorrendo a uma interessante metáfora, o Estado atua tentando por freios no verdadeiro carro de Jagrená que é o mercado capitalista.

 

Seja na combinação de aposta de uma esquerda moderada com fortalecimento do partido liberal na Argentina, seja com a aspiração chilena quase revolucionária de refundar as relações entre Estado e sociedade, seja a disputa uruguaia e os protestos na Bolívia pelo respeito às regras democráticas, estes eventos marcam o desejo dos cidadãos de cada país em reafirmar valores civilizatórios ocidentais, onde desenvolvimento econômico, garantia de serviços públicos, combate a problemas sociais e consolidação dos valores democráticos não sejam apenas ideias fora do lugar, sem nenhum tipo de materialidade concreta.
 

O que se extrai de tudo isso é a percepção mesma que Joaquim Nabuco teve de que “Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como o movimento da terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos.” Olhando o processo de desenvolvimento político e social da nuestra América, percebe-se que seguimos em marcha inabalável, embora nem sempre linear, rumo à “ocidentalização”, ou seja, a uma sincronização com os valores, costumes e instituições do lugar cultural e político a que pertence quase metade do globo terrestre.
 

Não se trata de dizer que nossa sina é seguir copiosamente os passos de países como Inglaterra, França, Alemanha, E.U.A ou mesmo Portugal e Espanha, estes últimos nossas matrizes civilizacionais. Não, não é isso. Se a revolução sem revolução foi a mola motriz que nos moveu ao longo desses quase 200 anos, nem mesmo percalços e zigue-zagues, como as experiências autoritárias e obscena desigualdade social que tanto nos marcaram de maneira inequívoca, nos autoriza a dizer que é de Calibã nossa verdadeira face. Longe de significarem antagonismos, são antes a representação da convivência de contrários e, sendo assim a forma como definimos nossa sorte, seríamos então Calibã e Ariel ao mesmo tempo; lados opostos convivendo de maneira coetânea. E por mais que nos pareça que o moderno chegue para todo mundo menos para nós e continue como uma ideia condenada a viver no mundo do desejo, talvez estejamos em movimento, mesmo sem a consciência disto. Mas aviso aos navegantes: se os remos não forem acionados, nenhum barco chega em seu porto. Falando em caminho, fico a afirmação de Fernando pessoa:

 

Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração - todas as doutrinas de regeneração - estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que coletivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. (...) O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.”

 

 

[1] Lideranças políticas ligadas a sectores tradicionais da sociedade, como o exército ou os latifundiários. Detentores de certo carisma, sua atuação política é um tipo de exercício do poder  avesso à democracia representativa.

 

[2] Segundo a interpretação da formação histórica e política da Ásia antiga, o Estado seria fortemente centralizado, controlando toda a sociedade, como Egito, China e Índia. Nessas antigas civilizações, quase tudo pertencia ao Estado, que era dono de servos e escravos.

 

[3] Conceito desenvolvido por Max Weber, onde o exercício do poder se caracteriza pela indistinção do público e o que é privado, onde geralmente grupos utilizam-se do poder do Estado para fazer valer os seus interesses particulares.

 

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