Bruno Latour de Thiago Pinho: comentários sobre o livro "Descentrando a Linguagem" - Parte II

November 6, 2019

 

Por Gabriel Brito [1] 

 

Em postagem anterior (O Bruno Latour de Thiago Pinho: comentários sobre o livro Descentrando a Linguagem), concentrei-me na coerência com que Thiago Pinho apresentava a contribuição de Bruno Latour para o pensamento hodierno. Minha crítica apontava para o “Latour de Pinho” ser mais coerente do que o próprio Latour. Agora outra crítica surge ao trabalho de Pinho. Neste caso, trata-se de dar mais atenção ao que significa pensar em seu argumento sobre autores/inovações e contextos. Isto é: Pinho argumenta, por exemplo, que Gabriel Tarde “nasceu” num momento que não estaria pronto para ele. Posteriormente nos diz que o “terreno” foi se sedimentando ao longo das revoluções copernicanas anteriores (1ª e 2ª) para que a terceira delas pudesse vir e, assim possibilitasse com que surgisse o gênio de Latour.

 

Num exercício análogo e, a princípio, corroborativo à abordagem de Pinho, poderíamos pensar em um filósofo considerado romântico, metafísico, pessimista e responsável por introduzir o budismo na filosofia alemã do século XIX, Arthur Schopenhauer. Para alguns ele antecipou não apenas o ilustre Nietzsche, tão importante para um Foucault e pensadores alinhados ao pensamento pós-estruturalista, mas também Freud. Schopenhauer criticava, em seu tempo, a excessiva confiança de Kant sobre o  entendimento humano, pois ele ignoraria o papel da experiência e, acrescentamos, das vontades sobre, sugerimos, a episteme. Em outras palavras, não era incomum a Schopenhaer a ideia de que existiria algo anterior ao processo de conhecer. Não podemos dizer que em Schopenhauer encontraríamos um “corpo sem órgãos” em sentido estrito, já que, como a maioria dos filósofos herdeiros da tradição grega, ele concebeu, especificamente em seu caso, a vontade como um transcendente que estruturaria a realidade. Assim, ele fecharia o horizonte, centrando o entendimento humano na possibilidade/interpretação por ele criada. Georg Simmel, por exemplo, conforme nos conta o sociólogo Jonatas Ferreira*, veria em Schopenhauer um vitalismo que resultava em uma escatologia negativa, cuja vontade nunca poderia suprimir uma “falta” incansável, o que sempre levaria ao sofrimento.

 

Ora, se apresentamos Schopenhauer como o fizemos, é para lembrar que não é “desconhecido o desconhecimento” de que ele foi um acadêmico mal sucedido e mal quisto por seus contemporâneos. Diz-se que ele era “mal falado” porque ele não apenas atacava o Estado e sua influência sobre o livre pensar filosófico (ver Sobre a filosofia universitária); mas também porque para ele, Hegel seria um “pau mandado” do Estado, um bajulador a serviço não da Razão, mas da moral do Estado. Hegel era o luminar de sua época, Schopenhauer, a treva.

 

Até aqui, continuamos segurando a mão de Pinho, e na medida em que ele nos mostrou a “história das ideias”, a história das revoluções copernicanas, estamos tentando olhar para outras trilhas, análogas, que confirmariam a hipótese (latente) de Pinho sobre contexto e texto, autor e época. Para sair da Filosofia e ir para a Sociologia, especificamente para o autor mencionado por Pinho, vejamos, brevemente, o que aconteceu com Tarde.

 

Um colaborador da Universidade de Roskilde, Dinamarca, Bjørn Thomassen**, diz que os motivos por trás da ascensão de Durkheim e a “queda” de Tarde, ocorreram por razões muito mais práticas: tratar-se-ia de questões institucionais e políticas referentes à consolidação da disciplina sociológica; ao mesmo tempo, tratava-se também de “carreiras e salários”. Essa possibilidade parece escapar ao argumento de Pinho, pois seu “contexto explicativo” é coerente demais... Sempre que existe coerência demais, devemos ter algumas reservas. Existe quem diga que Durkheim foi bem sucedido não por ser um “positivista”, inclusive porque ele, supostamente, não seria, estritamente falando, um positivista. Curiosamente, o próprio Durkheim chegou a considerar-si um pragmatista – apesar de William James reprovar essa aproximação com o pragmatismo por parte da sociologia do social de Durkheim; por outro lado, James era contemporâneo e admirador da obra de Tarde***. Destarte, Tarde não seria bem sucedido devido ao contexto das ideias predominantes de sua época – ao menos para Pinho.

 

 A “dama” da Antropologia britânica atual, Marilyn Strathern, ironizando o momento pós-moderno da década de 1980, foi conferencista na prestigiosa Palestras Frazer. Na ocasião, ela enfatizava a relação entre escrita e ontologia para pensar “Fora de contexto: as ficções persuasiva da antropologia” (título da palestra). Em suma, os argumentos de Strathern podem ser úteis para lançar uma questão a Pinho: sua escrita parece passear “livremente” por filósofos como Espinosa, Kant, Hegel e chegar até o século XX, com Deleuze e Latour (não somente). Mas em que medida sua escrita não apenas pode perder de vista os contextos que possibilitam certa forma de escrita, desautorizando outras formas, como também pode produzir uma “ficção persuasiva na sociologia” sem a consciência de tê-lo feito? A resposta para esta questão, sem dúvida, não é particular ao livro de Pinho, mas a qualquer “ficção persuasiva”.

 

Assumir uma perspectiva é sempre um posicionamento. Portanto, propor uma 3ª REC é, sem dúvida, tomar como pressuposto certa “corrente de ideias” e delas extrair um sentido que performa a realidade de tal ou qual modo. O que significa nos perguntar se Thiago Pinho realmente performa/produz um descentramento da linguagem conforme diz o título de seu livro. Isso é possível, afinal. E tomando de empréstimo o pensamento do próprio Pinho: quem saber se essa é realmente a época apropriada para tal revolução copernicana?

 

[1] Gabriel Brito – Programa de Pós-Graduação em Antropologia (UFPE)

 

* Cf. Jonatas Ferreira. 2000. DA VIDA AO TEMPO: Simmel e a construção da subjetividade no mundo moderno. RBCS Vol. 15 no 44.

 

** Cf. Bjørn Thomassen . 2012. Émile Durkheim between Gabriel Tarde and Arnold van Gennep: founding moments of sociology and anthropology. Social Anthropology/Anthropology Social. n. 20, v. 3. Cf. também: Gabriel Brito: No lago das ninfeias: por que determinados autores e autoras não estão entre os cânones da Sociologia? Blog: Ciências Sociais Hoje. Fonte: https://form-acaoblog.blogspot.com/2018/03/no-lago-das-ninfeias-por-que.html.

 

*** Cf. David Lapoujade. 2017. William James, A construção da experiência. São Paulo, n-1 Edições.

 

Fonte da imagem: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fwww.flaticon.com%2Fbr%2Ficone-gratis%2Fmarcadores-de-mapa_14894&psig=AOvVaw3pHiiXAURqpweuVLAoRZ8S&ust=1573041345785000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCKCIq_-B0-UCFQAAAAAdAAAAABAD

           

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