Dante Mantovani: o Maestro do Duplo Click

December 10, 2019

 

 

 

“Maestro Dante Mantovani disse em redes sociais que ‘rock ativa a droga, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto’. Ele também acredita que a Terra é plana [1]”.

           

Num livro recentemente traduzido para o português, o filósofo e antropólogo Bruno Latour  leva adiante uma antropologia dos Modernos, projeto iniciado há quase 30 anos. Ao analisar diferentes “domínios” de nossa sociedade – como a Religião, a Linguagem, a Técnica, o Direito, a Metamorfose, a Ficção, entre outros – Latour fala de uma abordagem chamada de “Duplo Click”. Nesta modalidade de lidar com esses diferentes domínios, “pulamos” rapidamente de um canto a outro sem seguir suas articulações, suas cadeias de referência, seus modos de reprodução. Vejamos como nosso atual Maestro Dante Mantovani faz isso e, ao mesmo tempo, vamos aprender a utilizar essa antropologia inaugurada por Latour.

 

Primeiro notemos “que” assume a função de conjunção subordinativa causal: “(a) rock ativa a droga, (b) que (i) ativa o sexo, (c) que (2) ativa a indústria do aborto” (sem contar o Duplo Click entre satanismo e rock; ou sobre seu avanço histórico, uma revolução do século XXI que “supera” a descoberta do sistema heliocêntrico na Idade Média Européia). A preposição assume a função de articular as afirmativas a, b e c. desse modo, como no hiperlink que você acessa, por exemplo, no Wikipédia, ao clicar em rock (a) você é levado à droga; a droga (b) leva ao sexo; o sexo (c) leva a “indústria” do aborto. Não há aqui o que em ciência chamamos de dados empíricos; não há aqui em lógica o que chamamos de indução, mas sim uma dedução do tipo: A – o aborto existe por causa do sexo; B – o sexo é ativado pela droga; C – se o rock ativa a droga, então todo roqueiro aborto!

 

Resultado: agora façamos um Duplo Click inverso: Nosso Maestro disse gostar de Angra (Rock), se o Rock ativa a droga, então ele se droga; ora, se ele se droga, então ele deve fazer sexo; surpresa – então ele fez uma confissão: ele participa da indústria do aborto!

 

Nossa análise aplicou o Duplo Click que o próprio maestro criou a ele mesmo. O resultado foi sua confissão inconsciente (?). Todavia, enquanto sociólogo, não posso concordar com o que diz o Maestro: em primeiro lugar, o aborto é um tema que não deve ser tratado com leviandade, independente do posicionamento (a favor ou contra); segundo, o sexo não pode ser tratado com leviandade (ele está vivo porque alguém transou; e não cabe resumir o sexo a uma questão “moral”, como ocorreu na Idade Média Européia, quando a terra era plana); o rock, e outros estilos musicais, não podem ser tratados com leviandade (a definição do que é “belo”, do que é “arte”, do que é “cultura” são temas sérios demais e foram abordados em diversas áreas do conhecimento, da matemática às ciências humanas, como a antropologia, por exemplo); a droga, lícitas ou ilícitas, não podem ser tratadas com leviandade (a definição do que é “droga”, e a relação entre consumo e direitos individuais, é parte de um debate que envolve, por exemplo, a relação entre Direito e Democracia, livre-arbítrio e responsabilidade, redução de danos e conscientização, entre outros).

 

Nosso Maestro do Duplo Click, portanto, tem um problema muito sério com as liberdades individuais: condena o estilo musical que ele não considera música; condena o consumo de “drogas” independentemente de definir quais drogas, mais ainda, condena a liberdade alheia do consumo de drogas (mesmo as lícitas); condena o sexo (sem palavras); condena a indústria do aborto (qual indústria? Aquela localizada no coração do reino da clandestinidade?).

 

[1] Fonte: G1.com. https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/12/03/artistas-criticam-declaracoes-do-novo-presidente-da-funarte.ghtml

 

Imagem: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn%3AANd9GcTx7AFyHa-THXLtAJE9nEk9_1fdXlzZlgA4Fe_cDZ_mzDs9T9t9

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