COMO CONVERSAR COM UM REACIONÁRIO?

December 12, 2019

 

Nesse mundo de Fake News e pós-verdades, nessa atmosfera onde a certeza não é mais tão certa, onde qualquer coisa pode receber o selo da dúvida, tentamos retomar novamente o caminho do verdadeiro, como se ele fosse o mais importante e a garantia de uma ciência legítima. O critério epistemológico, aquele que divide o mundo entre verdade ou mentira, parece dominar as notícias, além dos corações e mentes de todos aqueles que buscam o caminho certo. Desde sempre tentamos responder perguntas epistemológicas (é verdadeiro ou falso?) ou até mesmo perguntas éticas (é certo ou errado?), mas parece que falta alguma coisa nessa história toda, algum detalhe perdido por aí. O objetivo desse ensaio é entender um pouco essa dimensão perdida e o quanto ela pode nos ajudar a reviver a ciência nesses tempos tão obscuros.

 

Seguindo a filosofia nietzschiana, ao entrar em um percurso radical, genealógico, existe algo muito além, muito mais nobre, do que a epistemologia, algo além de uma simples busca por fatos brutos. Esse critério é o estético, envolvendo a arte, o corpo e a relevância. Um argumento, por exemplo, pode ser verdadeiro, no sentido que descreve algo que existe lá fora (correspondência), mas, ainda assim, pode ser um argumento sem graça, sem vida e sem qualquer traço de relevância. Imagine que um homem de 40 anos, sem qualquer simpatia ou originalidade, descreve a você todas as características dos grãos de areia numa praia. Mesmo sendo verdadeiro, ainda assim, falta algo aqui. Imagine agora uma mulher, graduanda de ciências sociais, afirmando o quanto a Rede Globo é porca e manipuladora. Mais uma vez, mesmo sendo verdadeiro o argumento, ou carregando essa possibilidade, ainda assim, falta algo. Esse algo é o potencial estético (artístico) de um argumento, o que desemboca em sua relevância. Um argumento verdadeiro pode não ser relevante. Por outro lado, um argumento falso pode apresentar relevância, principalmente se tem um efeito positivo no mundo, talvez tranquilizando consciências e oferecendo sentido. Claro que o melhor cenário é o terceiro caminho, uma busca por um argumento tanto verdadeiro, quanto relevante, sendo esse o nosso objetivo nessas linhas.

 

Talvez investir no critério estético, ao invés do epistemológico, seja uma alternativa quando o assunto é a luta contra o relativismo exagerado dos reacionários, ao negarem até mesmo a existência de acontecimentos como a ditadura, a escravidão, o holocausto, etc. E se ao invés de usar um critério epistemológico, impondo proposições e fatos, o cientista destacasse o lado estético dos argumentos, criando pontos de encontro, formas atraentes de convencer e afetar? A religião, de alguma maneira, conhece isso muito bem. Quem já foi em algum espaço religioso, principalmente cerimônias cristãs (católicas ou evangélicas), percebe de uma forma evidente o papel da estética nos discursos, a capacidade que possuem de envolver, seduzir e afetar o ouvinte. Os sermões religiosos não são simples palestras que descrevem eventos bíblicos, ou valores que devem ser seguidos... nada disso!!! Eles são verdadeiras performances, uma série criativa e envolvente de palavras e corpos. Eles dominam a linguagem de uma maneira incrível, manipulando cada contorno, além de explorar todas as suas possibilidades.

 

Um terraplanista, um sujeito que acredita na Terra Plana, não apoia essa visão de mundo porque existem fatos e comprovações, mas justamente porque no seu universo religioso a “história da Terra Plana” é algo atraente, quase um pedaço de entretenimento. O padre (ou pastor) é performático, envolvente, criativo e, sem dúvida, didático. Ele imita personalidades, altera o tom de voz, carrega inflexões interessantes, metáforas criativas, além de apresentar uma performance vocal e corporal impecáveis. Eles são verdadeiros artistas, sem dúvida, ainda que muitas vezes não percebam essa característica. Por outro lado, aqueles que defendem a terra redonda, por mais que tenham razão, por mais que existam infinitos fatos ao seu favor, apenas oferecem uma narrativa sem graça, sem vida, descrevendo um universo vazio e sem qualquer elemento atraente. Ao acreditar que apenas descrevem coisas, os cientistas não se preocupam com a forma, com a retórica, com a capacidade de envolver, como se a estética (arte) fosse apenas um complemento desnecessário.

 

E se o grande desafio fosse justamente esse... fosse invadir o campo estético e dominar seus contornos, controlando suas estratégias e armas? Sem dúvida, o compromisso com os fatos é importante, sendo o critério epistemológico algo indispensável, mas isso não deve ser o essencial, já que as pessoas sempre precisam de mais. Elas não querem simples fatos, matéria bruta... elas querem narrativas, querem histórias relevantes, embora a ciência, inclusive as sociais, não entenderam bem isso. O nosso objetivo não é simplesmente esfregar na cara do outro a verdade do mundo, mas envolver e seduzir. Nesse sentido, as religiões acabam sendo muito mais inteligentes do que o universo acadêmico, já que conseguiram captar bem o que define a linguagem humana.

 

Como já tinha dito, um defensor da Terra Plana não é o que é por conta de fatos, mas justamente porque o terraplanismo é muito mais divertido e interessante. Quem não gosta de uma boa e velha teoria da conspiração? Eu sei que é difícil de acreditar, mas a ciência pode ser divertida também, mesmo preservando o compromisso com os fatos e o rigor metodológico. Carl Sagan é um exemplo desse tipo de cientista, de uma figura com um compromisso com o verdadeiro, mas, ao mesmo tempo, um excelente contador de histórias, um sujeito que envolve, seduz. A sua série de TV “Cosmos”, criada em 1980 pela emissora norte-americana PBS, não era apenas um reservatório de fatos e explicações chatas, muito menos foi um pretexto para esfregar na cara de alguém as verdades do mundo, mas algo estético, criativo, original.

 

Precisamos lutar contra o terraplanismo não com simples fatos, mas com algo relevante, envolvente, já que é esse o critério humano, como diria Nietzsche. Precisamos resgatar na ciência aquela energia de Carl Sagan, o que infelizmente não acontece hoje, pelo contrário. Palestras como as de Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris, e outros cientistas consagrados, são palestras chatas, sem graça, descrevendo um mundo sem vida, sem cor. Quem gostaria de viver em um mundo assim? Não existe, sequer, energia no tom de voz, sendo sempre linear, monótono e pouco original. Precisamos aprender com Carl Sagan o que de fato constitui a ciência, precisamos retomar o fascínio, a surpresa, a curiosidade que sempre fez parte do universo científico. Precisamos, portanto, não apenas de epistemologia, mas de estética. Precisamos não só de verdades, mas de fatos relevantes. Precisamos resgatar o lado divertido e criativo das ciencias biológicas, químicas, físicas ou humanas.  Por mais estranho que isso pareça, o reacionário pode ter algo de interessante a nos ensinar, no final das contas.

 

REFERÊNCIA DA IMAGEM:

 

https://medium.com/futuro-exponencial/entenda-de-uma-vez-por-todas-por-que-a-terra-n%C3%A3o-%C3%A9-plana-b8950a4d81a3

 

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