A CRISE DA ARTE (DO HUMANO) E A VOLTA AO SENSÍVEL

December 16, 2019

                                  Ilustração: Natalia Rizzo

 

 

A Arte: modos de expressões e experimentações humanas que atravessam os tempos.  As pinturas, as danças, as esculturas, as músicas, os teatros, as fotografias, os filmes, as literaturas, as performances. Tudo no plural, já que a Arte não é um conceito único, mas a fragmentação de vários conceitos que formam um todo. Dentro da Arte há várias artes. Assim como não existe uma definição única de humano não há uma definição única de Arte. Arte e humano são simbióticos. Arte em maiúsculo engloba arte em minúsculo, mas tudo se torna Arte.

 

Mudam-se os modos de viver, entretanto, a Arte continua nas suas multidisciplinaridades e nas suas diversas formas. Acompanha o humano porque é intrínseca a ele. Porém, devido aos novos modos de vida, a conjuntura da pressa cotidiana, não mais se observa o humano. Não mais se deleita diante de uma obra de arte, então a técnica engole o humano. A Arte agora tem sido utilizada como puro artificio de entretenimento e é vista como coisa, como algo menor, como arte. A Arte transforma-se em arte técnica, sem o prazer do viver artístico. A Arte então se desauratiza[1]. Apesar dessa perda da aura, a Arte continua tendo uma potência política para dissociar a arte como somente contemplação e impulsionar a reflexão. Entretanto, o que tem acontecido é o oposto disso, são produzidas artes de massas que atingem apenas o objetivo do entretimento, artes inócuas e iconográficas[2], as quais formam um humano alienado, zumbificado.  Ser que não se preocupa com o seu redor e talvez nem com ele mesmo. Os humanos, então, na pós modernidade, perdem a sua capacidade que os diferenciam dos outros seres, a de serem criadores. Passando a se comportarem como reprodutores, numa identidade que vem sendo construída desde a Revolução Industrial: o homem-massa que replica a arte de massa. Segundo Vázques[3]:

 

Esta pseudo-arte (a arte de massa) cumpre uma função ideológica bem definida: manter o homem-massa em sua condição de homem-massa, fazer com que se sinta em tal massificação como em seu próprio elemento e, por conseguinte, fechar as janelas que poderiam permitir-lhe vislumbrar um mundo verdadeiramente humano, e, com isso, a possibilidade de tomar consciência de sua alienação, bem como dos caminhos para destruí-la. (1978; p.286)

 

Devido a essa condição da arte de massa que dociliza os corpos, castrando, adestrando[4], criando uma concepção de mundo individualizada e industrializada, as pessoas têm se afastado do humano. Do corpóreo. Buscando o artificial, o inumano.  Isso está expresso não só na arte, mas nos modos de ser e estar no mundo. Em Sentido dos sentidos dos sentidos [5] de Duarte Jr. , em sua tese doutorado, de 2001, há uma questão importante sobre a artificialização dos corpos, no qual a massificação não está apenas modificando as artes, mas os modos de viver humano, interferindo, inclusive, corporalmente.

 

Estamos deixando de ser gente para ser máquina humana. Nos locomovemos na cidade com o puro objetivo de chegar a um lugar, sem apreciar a vista.  Consumimos fast foods que são comidas sintéticas para apenas atingir o objetivo de repor energias e continuar as tarefas do dia, tarefas que se repetem cotidianamente como se a vida em si fosse uma indústria a qual não há nada mais a esperar do que continuar reproduzindo o dia a dia para alimentar o capital, alimentar o desejo inventado em um momento da história para que alguém ganhe mais dinheiro, ficando mais rico, quando mais da metade da população continua pobre e continuará sendo proletariado (para aqueles que tem trabalho) a fim de sobreviver: comer e morar com o desejo de ascender. Mas que ascensão tão desigual é essa? Será que continuaremos sucumbindo nesta pós-modernidade?

 

A personagem de Chaplin, em Tempos Modernos, filme de 1936 [6], é uma alegoria do homem- máquina, sem identidade, sendo uma peça da máquina do capital. Se no século passado, há um pouco mais de oitenta anos, já se questionava esse vazio da existência para  a manutenção de um sistema, penso que talvez daqui a vinte anos [7] se não olharmos para trás e pensarmos que é possível ocupar espaços de seres produtores e não apenas reprodutores, se não pensarmos que conseguiremos construir uma nova existência e fazer da crise uma crase[8], um ponto de continuação para um parágrafo outro, nós, como seres humanos, cavaremos o nosso calvário de existência. Continuaremos sendo engrenagens, como a personagem de Chaplin, mas dessa vez paralisaremos em meio as outras estruturas, o que na verdade já está acontecendo: estamos nos paralisando, adoecendo e naturalizando o sofrimento em busca da estrada de tijolos amarelos a que não chegaremos. É preciso voltar ao nosso lar, como a Dorothy, em O Mágico de OZ; é preciso voltarmos a nós e nos sensibilizarmos para sairmos da crise da Arte do humano.

 

Ainda vivemos os mesmos problemas do começo do século XX nesse início de século XXI, talvez até piores porque nos especializamos tecnicamente. Estamos conectados globalmente, transitando entre culturas sem sair do lugar, então, por que ainda não construímos novas existências e ainda somos os nossos antepassados? Deveríamos refletir os problemas que já vivemos e transformar o mundo, olhar para a história e criar capítulos,  e não reproduzir os já existentes. Será que estamos cansados demais ou ficamos loucos, atônitos em nossos próprios umbigos? O que fazer para nos modificar?  Para manter a existência e conseguir alcançar uma felicidade outra, diferente desse conceito de felicidade que é vendido para nós nas propagandas e nas narrativas do capital?

As perguntas são retóricas e não há receita pronta em um mundo em que tudo se come já mastigado por outro. Fragmentado sem a consciência do todo. Não sabemos o que somos e talvez nem queiramos saber. Nem queiramos nos observar como humanos porque é a isso que a Arte nos convida.

 

Quando entramos numa sala de cinema, sentamos para apreciar os tiros e os flashes em quase uma programação robótica: temos que ser estimulados por esse tipo de êxtase. Mas, se o mundo se zumbificou , exigindo que a  arte nos tome a atenção com altas doses de adrenalina, que a temática não seja vazia também, não seja apenas a sequência de tiros e flashes. Que o diretor coloque os tiros para prender as massas, mas diga, simbolicamente, que a arma destrói o corpo humano e que não seria interessante que uma pessoa sacasse uma arma e matasse alguém no trânsito. Mostre os tiros. Mas com um fundo de criticidade. O diretor, nesse caso, deve ser político. O artista deve ser político. Mas, sem perder o estético. No caso, do diretor, deve trabalhar com os diversos ângulos, experimentar, utilizar a sobreposição, o zenital, os planos detalhes, não ficar apenas nos planos abertos e nos efeitos visuais, escolher as cores cuidadosamente. O artista deve ser estético.  Mas também criativo, como se esperaria do humano.

 

É possível, ainda que difícil, construir uma arte estética e política, a qual agrade as massas e também agrade ao público que se diz consumidor de uma arte culta. Este último, tão problemático quanto o primeiro, já que prega preconceitos e conceitos de arte, ditando arte melhor ou arte  pior, colocando-se em um pedestal de ser humano, tentando reduzir a Arte para um público e muitas vezes pregando a arte pela arte, desvalorizando o que não vem das camadas mais elitizadas[9]. É difícil, mas possível.  É possível criar uma obra de arte que consiga  abarcar todos esses aspectos de estética e política e atingir a um público que não consome produtos rotulados como de  arte, à exemplo dos filmes cult. Com essa reviravolta de estigmas, o filme se torna apenas filme, sem o subtítulo de arte, porque todo filme deveria ser filme de arte, mas não é, pois perdeu o seu valor estético e político, já que o público parou de exigir essas condições para a arte, se é que um dia exigiu [10].

 

Aqui quero exaltar o filme brasileiro, Bacurau (2019), como exemplo dessa junção de estética e política dentro de uma obra cinematográfica a quem agradou um público não apenas frequentador das sala de arte, inclusive sendo exibidos em circuito comercias. Óbvio que  a recepção positiva não foi unânime, e nem é essa minha leitura de filme como obra de arte, mas é fato que conseguiu atingir as massas e os públicos ditos eruditos, convocando os dois para estar diante das imagens[11]. Ainda que as opiniões fossem negativas, houve o consumo da produção audiovisual.

 

A estética e a política na Arte estão muito ligadas ao seu tempo, ao que se valoriza naquele contexto histórico e ao que é importante para os seres humanos daquela época. A crise do humano e a crise da Arte, o que poderíamos dizer que é a mesma coisa, uma vez que o humano é Arte, já estava sendo questionada por diversos pensadores e artistas no século passado. Talvez sempre foi questionada, entretanto acredito que com a reprodutibilidade técnica, isso tenha sido feito com mais afinco já que o acesso a Arte, principalmente com o advento da televisão, da rádio e mais recentemente da interconectividade da internet, se tornou mais acessível. Hoje tira-se fotos de quadros, de esculturas, de livros, gravam-se peças de teatros, balés, óperas, sem contar a gama de filmes que estão disponíveis, tudo isso é replicado para o mundo inteiro com apenas um clique. As galerias e os cinemas hoje estão nas nossas mãos. Entretanto, não olhamos para elas com afinco, com afetividade. Apenas rolamos as imagens e a vida continua. Nosso olhar é outro e deveria ser prática e partilha do sensível [12], olhando para as partes que compõem o todo. Olhando para o todo como uma composição de partes. Simbiose. Mas não só olhar. Sentir algo e não um vazio como se nenhuma mensagem nos fossem passadas. Como se a arte fosse ausência, a mesma que sentimos no mundo pós-moderno, líquido e poluído. No mundo que nossos antepassados criaram para nós e que continuamos a fazer, aqui trago uma citação de Ailton Krenak no livro Ideias para adiar o fim do mundo:

 

Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então pegam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. (2019, p.27)

 

Apesar de no texto Krenak falar da potência dos povos originários, penso que essa potência pode ser expandida para o humano. O humano que se recusa a integrar esse sistema zumbificador, ainda que esteja inserido nesse contexto de sociedade capitalista. Um humano que quer fruir, se desvencilhar das amarras normativa e da docilização, do adestramento. O humo que assume sua identidade de humano e exercer a liberdade de ser. Assumindo as consequências de ser quem é, a qual entre muitas consequências quero exaltar a mais positiva, a saber: a de não desistir dos sonhos. Do sonho de uma humanidade melhor que só pode ser construída com a comunhão de individualidades.

 

A Arte como expressão de vida, como construção de identidades, como expressão de criatividade tem essa potência de máquina de sonhos. Pode engendrar novos saberes, novos viveres, novos pensamentos para um amanhã mais otimista, apesar do caos dos séculos a que estamos vivendo pelo menos desde a colonização e intensificado com a tecnização. Mas podemos fazer desses artifícios, desses meios técnicos, dessas mídias ópticas, de todos os aparatos tecnológicos um meio de sermos pangeia na nossa diversidade. O comum e o individual criando um novo mundo que não esteja fadado as distopias. E nesse caso, as distopias que podemos visitar através da Arte pode nos voltar ao presente para que façamos da Utopia realidade, porque a utopia é fertilidade, é poder.   

 

O que vivemos nesse começo de século já foi refletido milhares de vezes em outros momentos, e ainda estamos aqui e não sabemos para onde ir, nos repetindo, mas no fundo já temos um primeiro passo que é sair da zona de conforto do humano, porém abdicar e conhecer o novo é um exercício de abdicar de privilégios. Todo mundo quer estar bem o tempo todo. Mas esse bem é idealizado e não se reflete no coletivo, já que a sociedade patriarcal foi pautada nos indivíduos.

 

Precisamos antropofagiar saberes. Transcender o óbvio. Produzir e valorizar outras formas de expressões de arte e cultura. Transformar. Ser eu e ser nós. Ser eu e outro em ciranda, não é em quadrado. Refletir mais do que reflexivizar. Nessa maleabilidade de formas construir um novo ser sensível. Ser mais que um antropoceno. Constituir uma nova Arte humana[13].

 

 

 

Referências

 

[1] Expressão de Walter Benjamim no ensaio A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, publicado pela primeira vez em 1936, em que o autor diz que a arte perdeu sua autenticidade com o advento da reprodutibilidade técnica, o cinema e a fotografia, por exemplo. Entretanto, se antes o valor da obra era a sua da originalidade, na modernidade esse valor passa ser a sua função social.

 

[2] Aqui utilizo a iconografia na ideia de descrição de uma imagem sem discorrer seu valor estético.

 

[3] VÁZQUES, Adolfo Sánchez. As Idéias Estéticas de Marx. Rio De Janeiro: Paz e Terra, 1968.

 

[4]  Aqui converso com as reflexões de Duarte Junior em: DUARTE Jr. Por que arte-educação? . Campinas: Papirus, 1986. e

_______. Fundamentos estéticos da educação . Campinas: Papirus, 1988.

 

[5]  DUARTE Jr.Sentido dos sentido dos sentidos Curitiba- PR: criar Edições, 2001. Disponível em: <http://www.pbccarlosgomes.seed.pr.gov.br/redeescola/escolas/23/1870/696/arquivos/File/OSentidodosSentidos.pdf> Visualizado em: 24 Set. 2019.

 

[6] Mesmo ano em que Benjamim publicou pela primeira vez seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

 

[7] Quando o ensaio de Benjamim e o filme de Chaplin completarem cem anos.

 

[8]  Frase retirada da sessão A Crise dos Sentidos da tese de doutorado de Duarte Junior, quando o autor discorre sobre a concepção dos chineses para mostrar a crise como potência para mudança. Ver nota 4.

 

[9] Não explorei tanto esse segundo público porque ainda teria muito a se dizer e desviaríamos do foco de pensar a estética e a política no capitalismo e também de pensar sobre o paradigma nessa pós modernidade, algo que quero fazer mais adiante.

 

[10] Temos mania de achar que as coisas do passado eram melhores e isso nem sempre é verdade.

 

[11]  Aqui evoco o conceito de Georges Didi-Hurbemann em Cascas, no qual ele faz uma anlise minuciosa dos campos de concentração nazista  ao que tange suas  uma vez que o autor, o qual se debruça em estudar as imagens,  convida o leitor a pensar estar diante das imagens, esse estar tem um sentido de observar e refletir, não somente ver.

 

 [12] Livro de Jacques Rancière, publicado pela primeira vez em 2005 no Brasil, para pensar a arte e a política na contemporaneidade, aqui discuto com o capítulo: Da partilha do sensível e das relações que estabelece entre política e estética,  em que o autor diz que “A partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas.”( 2009; p.14) . O conceito aqui é caro para discutir a ideia na de fragmentação e junção do coletivo, do individual e do comum, do primeiro parágrafo.

 

[13] Texto produzido para a disciplina Arte e Educação, ministrada pela professora Rilmar Lopes, na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.

 

 

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