Três anúncios para “um filme”: Coringa e O parasita em (num) Bacurau[1]

December 18, 2019

 

 

Pergunta guia: juntar cinema e política é coisa de universitários/as? Sendo um universitário, falo por mim e, ainda, faço uma pergunta “acadêmica”: o cinema territorializa ou é reterritorializado por quem assiste? Dito de outra maneira: depois que sai do cinema, tu interpreta o filme do teu jeito ou tu é influenciado “secretamente” pelo diretor ou diretora do filme?

 

Conversa 1:

- Coringa... O que tu achou, Gabriel? – pergunta um amigo. - Eu amei. Assisti diversas vezes.

- No cinema?

- Só uma vez... [rs]

 

Conversa 2:

- Assisti “O Parasita”, hoje, no Museu da Fundação Joaquim Nabuco. – Comento com um grupo de universitários/as na frente de um bar, na ocasião do lançamento de um livro - O Corupira: mau encontro, tradução e dívida colonial - de um amigo e professor universitário chamado Alexandro Silva de Jesus.

- Cheio de “capital cultural”, hahaha – ironiza um amigo e prossegue – mas achasse o quê?

- Gostei. Tem uma viagem com o olfato que achei massa.

 

Conversa 3:

- Tô só esperando tuas críticas – comenta minha namorada, enquanto assistimos Bacurau. Após o final, ela pergunta - e aí?

- Oxe, gostei.

 

Contextualizando: há pelo menos dois meses, conheci Thiago Pinho, daqui do Soteroprosa, quando ele esteve em Recife para um evento acadêmico. Li seu livro (Descentrando a linguagem: Deleuze, Latour e a Terceira Revolução Copernicana na sociologia). Num bar que costumo apresentar para “estrangeiros”, na Praça do Sebo, no centro “do” Recife, conversávamos com um professor “daqui” e outras pessoas, todas acadêmicas. Surgiu um debate longo sobre Coringa e Bacurau. Eu me abstive, mas como universitário atualmente no doutorado em antropologia, fiquei “só observando”, como se meus e minhas colegas fossem uma “tribo urbana” com seus próprios hábitos, gostos e costumes – e eu, o observador estrangeiro a estudar-lhes. Ri bastante.

 

Em outra ocasião, a partir de um grupo de WhatsApp, um link para o filme Bacurau chegou até meu computador. Eu então o assisti (finalmente). Daí veio o comentário “to só esperando tua crítica”, enquanto o filme passava em uma TV na qual inseri um pendrive de 8gb com o filme armazenado.

 

Minha resposta, então, para Bacurau, foi: “gostei. Não entendo porque tanto estardalhaço e falatório”. Há alguns anos encontrei um texto e uma imagem de Jesus Cristo circulando pela internet em que ele “piscava” um olho e acenava de modo “descolado” com o indicador de uma das mãos, como se estivesse lhe contando uma “sacada”, “o pulo do gato”, esclarecendo-lhe sobre algum segredo. A frase era: “Jesus era um cara legal, o que fode é o fã-clube” (ou algo assim). Bom, se pudesse resumir meu sentimento sobre os filmes que “comento”, seria com essa frase. Desse modo, acho que respondi a pergunta inicial, mesmo que de modo um tanto evasivo: demonstrei estar cercado de acadêmicos/as, porém, não fiz a conexão cinema-política. Resultado: fazer a conexão é uma escolha. Eu prefiro só curtir. Daí gostar de assistir com minhas três filhas: Procurando Nemo, Vingadores: Ultimato, Como Treinar Seu Dragão, It: capítulo 2...

 

Agora preciso responder a questão dois. Aqui opto por fazer a relação “política-cinema”, mas utilizo a ideia de G. Deleuze e F. Guatari, sobre territorializar/desterritorializar. Mencionei anteriormente meu pendrive, minha TV, o Zap, o Museu da Fundação, o bar do Sebo, minha casa: foi tudo de propósito para chegar até aqui. Quando os três filmes foram exibidos no cinema, digamos que eles territorializaram os quadrinhos da DC, com O Coringa; o bang-bang de Bacurau; e duas famílias sulcoreanas em O parasita. Três ficções. Segundo: nas conversas 1, 2 e 3, estive com Thiago Pinho na Rua do Sebo; conversei com três colegas na rua do Museu na ocasião do lançamento de um livro; também conversei com minha namorada em minha casa, Olinda, sobre Bacurau. Resultado? Toda vez que alguém realiza uma interpretação sobre o filme, crítica ou não, e o associa à política (em geral), ao gosto estético etc., etc., estamos vinculando o que passou no cinema a um “território novo”. Daí a palavra: territorializar.

 

Retomemos um exemplo bastante “falado” no Brasil: Bacurau. Conforme conversa na Rua do Sebo (mas não somente), Bacurau era um filme “político” – “como não poderia ser? A questão de raça é escancarada (caçadores branco-estadunidenses, um casal brasileiro que se “acha branco” e que se torna motivo de piada para os e as estadunidenses; o resgate da ideia de cangaço nordestina – lembrando que na história do Cangaço, Lampião foi decapitado numa cidadezinha chamada Mossoró -, a partir de um museu, e de uma resistência aos estadunidenses que, por conseguinte, ‘demonstra’ a critica à visão preconceituosa de que nordestino é ‘besta, primitivo’... e por ai vai)”. Chegou-se a dizer que era um filme “contra Bolsonaro”... Ora, essa operação de retorritorialização do filme é tão ou mais criativa quanto a música Aquarela, “Com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...”.  A questão que é colocada como principal, contudo, é a relação entre causa e explicação “por trás do filme”: “você acha que a violência é política”, dizia um colega na Rua do Museu; “no fim, retoma a violência”, dizia uma professora, lamentando...

 

Retorritorializar o que foi transmitido no cinema, transportado por um link no WhatsApp, depois num pendrive e, finalmente, transmitido numa TV, é o mesmo que escolher uma linha de ação e por ela avançar. Por exemplo: se você está lendo este texto até aqui, por mais que uma pontinha de raiva e de decepção te acompanhe, isso significa que eu retorriterializei os três filmes, escolhendo uma alternativa diferente das que até agora tenho ouvido por aí (salvo exceções) e, finalmente, trouxe os filmes para que você, finalmente, decida se: 1) segue meus e minhas colegas acadêmicos/as que conectam o cinema com a política (retorritorializandos-os); 2) concorda comigo e, estabelecendo a indeterminação do público diante do filme, busca demonstrar que o cinema e a política não se reduzem um ao outro, nem nada, mas que podem ser sim resumidos um ao outro (infelizmente pensei aqui com a ideia de Irreduções, de Bruno Latour); ou 3) você percebe que perdeu seu tempo com tanta baboseira e compra ingressos para o próximo filme de Kleber Mendonça ou assiste ao próximo episódio de Cavaleiros dos Zodíaco na Netflix, porque dá uma saudade danada da infância quando você vê Seya (prefiro Ikkie, do contra) com a galera tocando o terror.

 

[1] Bacurau também é o nome de linhas de ônibus que circulam de madrugada em Recife-PE.

 

Fonte da imagem: https://br.freepik.com/fotos-gratis/um-passaro-empoleirar-se-em-outdoor-vazio-para-propaganda-contra-o-ceu-azul_3211197.htm                       

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