Obras clássicas: adaptáveis como Darwin

December 22, 2019

 

 

 

 

 

Os clássicos são obras que conseguem atravessar o tempo. Envelhecer bem. Continuar produzindo sentido na contemporaneidade. Ou ainda ser mais atuais do que as próprias produções do tempo futuro do objeto, ou seja, a obra consegue se atualizar, podendo ser igualada às produções da época em que está sendo revisitada. 

 

Rever à um clássico propõe a continuidade da vida desse e a reprodução de reflexões, tanto no sentido de refazê-lo quanto no de propagá-lo. Enfatizando o atemporal inerente ao clássico. O tempo é o elemento que caminha junto com a arte, assim como também representa a finitude humana. Contrariando a lógica da vida, o clássico pode ser infinito.

 

Algo que os clássicos conseguem driblar é a morte. Entretanto, não podem se esquivar da reinvenção, afinal é através dela que eles se mantêm vivos. Desse modo, os clássicos conseguem captar a própria essência humana, a de se reinventar. É preciso se adaptar para sobreviver, algo que já estava na teoria evolucionista de Darwin.

 

Podemos dizer que assim como a vida humana evolui, a arte também o faz através de sua adaptabilidade aos tempos. Só sobrevive aqueles que conseguem captar um universalismo humano, o qual dificilmente mudarão. Conflitos entre bem e mal se reinventam, assim como os temas da morte, da saudade, do amor, da existência, da sexualidade. Questões as quais atravessam os tempos independente de sua época. 

 

Sobre esses conflitos, desejos e medos do humano, é possível fazer uma analogia entre os deuses mitológicos e os super-heróis da contemporaneidade. Em geral, ambos possuem poderes sobrenaturais e estão dispostos a salvar os seres humanos. E se antes, a crença e a louvação a esses deuses eram representadas nos teatros gregos, hoje ela ocorre nas telonas das salas de cinema ao redor do mundo.

 

Nesse contexto, tanto personagens, quanto histórias são reformuladas pelos desejos dos seres humanos de criarem, reinventarem e sobreviverem. Os quais estão presentes em todos os momentos desde que a humanidade habita a terra. Criamos histórias como forma de explicar a vida, de refletirmos e enganarmos o tempo finito. Se não sobrevivemos ao menos as nossas histórias sobrevivem.

 

Diante disso, se faz importante tecer uma observação. Nem tudo que é antigo, é clássico. Obviamente que saber o que é um clássico propõe uma discussão muito ampla. Mas uma ideia rápida para distinguir o que é clássico do que é antigo, é se perguntado se o objeto consegue ser reinterpretando, mesmo com as mudanças tecnológicas e hábitos de vida. Questionar se ele ainda produz sentido ou se é marca de seu próprio tempo, portanto, refletir se a obra é clássica ou objeto histórico.

 

Tentando desenvolver essa ideia para que fique menos abstrata, imaginem um diário de uma mulher branca burguesa do século XVX[1], o qual relata a vida cotidiana de maneira descritiva, mas não produz reflexões sobre a existência. Seria esse um clássico por ser antigo?  

 

É um livro que marca o tempo em que ela vivia, sua linguagem, seu local de fala, apesar de serem discussões importantes para a atualidade, sendo plausíveis comparações com o estilo de vida de mulheres atuais. O livro em si pode não trazer essas discussões, mas ele pode ser discutido sob esse viés ou qualquer outro que o interpretante ache plausível. Mas se não tivéssemos a informação do tempo e nem informações sobre a dona do livro, será que poderíamos analisar o objeto da forma que foi proposta anteriormente? A obra extrapolaria a autoria?

 

Agora imaginem uma obra em que o personagem se transforma em um “animal monstruoso”[2] e, ao mesmo tempo se sente angustiado porque se não sair daquele estado ele não terá como trabalhar. Uma das temáticas do texto é o dilema entre relação de trabalho e existência humana. Isso pode ser reinterpretado na atualidade? De que forma? Preciso saber o autor?

 

O exemplo anterior é do livro “A metamorfose”, de Frank Kafka, escrito em 1912, originalmente de língua alemã. Logo, é possível dizer que essa obra como muitas outras compõem discussões como a existência humana. Poderíamos até reler, na atualidade, esse “animal monstruoso” como a produção de um sofrimento psíquico e assim desenvolver uma análise. Fato é que a obra clássica nos abre possibilidade para tais interpretações e não precisar estar necessariamente vinculada ao autor, nos remetendo ao texto de Roland Barthes: “ A morte do autor", de 1967.

 

Em resumo, é possível dizer que o teor de uma obra clássica é tão adaptável quanto a humanidade e a possibilidade de suas múltiplas interpretações. As reinvenções das obras é que podem fazer delas clássicos. Obviamente que não só o conteúdo, mas também o estilo compõe o pensar sobre os clássicos, algo que nos abre a outras possibilidades de leituras.

 

 

 

[1]  LEJEUNE, Philippe. Diários de garotas francesas no século XIX: constituição e transgressão de um gênero literário. Cadernos Pagu, Campinas, n. 8/9, 1997, p. 99-114. Disponível em: www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?down=51147. Acesso em: 22 dez. 2019.

 

[2] Traduzido frequentemente como inseto ou barata.

 

Fonte da imagem: Domínio Público/ozanuysal/iStock

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