• Carlos Henrique Cardoso

Encontro com Verdinha na delegacia: Como chegamos a esse ponto?


FONTE: Bem Noticias

O deputado Federal Otoni de Paula (PSC-RJ) protocolou uma notícia-crime contra a apresentadora Fátima Bernardes em virtude da apresentação da cantora Ludmila no programa “Encontro”, apresentado por Bernardes, da Rede Globo, no dia 23 de dezembro de 2019. Na ocasião, a artista carioca cantou a música “Verdinha”, que para o parlamentar, representa “apologia às drogas em horário inadequado”. Outras autoridades repudiam a letra da canção, afirmando estar contido “lobby para legalização da maconha” e “apologia a práticas de conduta criminosa” em horário matinal e impróprio. O ofício do deputado Otoni está registrado tanto na Polícia Federal, quanto na Procuradoria Geral da União.


Curioso, fui checar o clipe e a letra da referida composição. No vídeo, Ludmila fuma um cigarro suspeito numa estufa com uma enorme plantação...de alface. A letra diz “tô vendendo a grama da verdinha a um real” e em nenhum momento expressa a palavra “maconha”, além de manifestar a dureza da vida de quem passa dificuldades. A alusão à droga fica clara para entendidos, mas não é anunciada de forma explícita e deliberada. Ludmila se defende em uma postagem explicando que “milhões de brasileiros estão desempregados, sem moradia, poluição, educação miserável, e o maior problema é uma música que fala de alface”.


Ao ler a matéria e os motivos da queixa, reflito que muita música não deveria ser tocada nas manhãs televisivas. Forrós e sertanejos a todo momento abordam bebedeiras, porres, e ressacas – menções ao alcoolismo. Ir embora para um bar, “beber, cair, levantar”, nem pensar! Ninguém poderia cantar que um vizinho jogou uma semente no quintal e brotou “um tremendo matagal”; Gabriel o pensador não poderia acender seu “Cachimbo da Paz”; imagine “meus heróis morreram de overdose”; Zeca Pagodinho, coitado, jamais poderia cantar que “se quiser fumar eu fumo, se quiser beber, eu bebo”; será que Alexandre Pires já pôde cantar “me afogo num copo de cerveja” em um programa desses?; Roberto, O Rei, está proibido de afirmar que a brasa que ele vai mandar, “nem bombeiro pode apagar”. Quantas canções desse naipe “perigoso” já foram interpretadas em “horários impróprios”?


Discussões sobre conteúdo musical acontecem, mas dessa vez foi parar nas páginas policiais! O que isso quer dizer? Que as circunstâncias do nosso tempo permitem que a coisa chegue a esse ponto. Os agentes políticos premiados nas urnas possuem essa agenda de costumes na primeira linha de suas pautas. São esses barulhos e gritas que despertam o potencial eleitoral. O ambiente social é de caça às bruxas. Pode-se rasgar uma placa com o nome de um logradouro homenageando uma vereadora brutalmente assassinada para que todos os envolvidos sejam brindados com milhares de votos; tá valendo gastar mais de 150 mil reais com tratamento dentário pago com dinheiro público e ninguém tá nem aí; se declarar homofóbico ou “comedor de gente” em patrimônio público é algo mitológico. Se apresentar em um programa de TV cantando uma música temerária que atinja nossos cidadãozinhos de bem, aí já é demais!! Beijo gay em revista? O mundo vai acabar!!


Nem é preciso dizer que a arte interpreta, remete, reporta, e refere-se à crônicas do cotidiano através de personagens e ações que compõem experiências, vivências, dores, sofrimentos, alegrias, vontades, tristezas, e ousadias de cada um. Aliás, é preciso dizer sim, pois nossas reflexões coletivas estão um tanto abalroadas pelo “espírito do tempo”. Não é uma canção de alguns minutos na telinha que irão desvirtuar a vida de um jovem. Como disse Ludmila, é uma educação moribunda; é ver a avó morrer na emergência do hospital por falta de atendimento; é ver a mãe assassinada pelo companheiro por não aceitar o término da relação; é ver o amigo morto por dívidas; é ver o irmão ser revistado e espancado pela polícia; é ter que trabalhar desde cedo; é ver o futuro se esvaindo em um mercado de trabalho incerto. Dizer isso adianta o que? Um especial de Natal gerou judicialização, um ataque terrorista e um possível retorno de uma organização que estava em evidência a 80 anos atrás!! Que fase!


Até quando veremos as possibilidades de um cerceamento autoritário nos cercar ainda mais? Como disse, o clima político ainda privilegia quem quer atirar na cabecinha e congêneres. Enquanto isso, só nos resta escrever, repassar, discutir, debater, e ouvir nossas canções preferidas. “Vou apertar, mas não vou acender agora...”. Opa, é melhor parar. Daqui a pouco a PF bate a minha porta...


FONTE:

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/deputado-denuncia-fatima-bernardes-a-pf-por-apresentacao-de-ludmilla/


https://www.vagalume.com.br/ludmilla/verdinha.html



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