A complexidade das nossas relações HUMANAS

January 22, 2020

 

 

 

 

“Os jornais, as notícias, procedem por redundância, pelo fato de nos dizerem o que é ‘necessário’ pensar, reter, esperar, etc.”

- Deleuze e Guatarri, Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. P. 12.

 

Sempre que te perguntarem: “classe social ou gênero foi criado ou inventado?, você pode perguntar:” toda vez que você olha para algum lugar do passado, você não o retoma?”.

 

Retomar. Estamos sempre retomando nossas memórias, nosso passado e o passado “em si”. Se hoje criamos uma nova categoria analítica ou um novo conceito, poderemos “retomar” o passado mais uma vez, sob novos olhos. Prefiro, inclusive, chamar de uma nova percepção (é a isso que tenho me dedicado nos últimos meses e textos: estudar a formação da percepção e suas nuances).

             

 Trago alguns exemplos: o grande filósofo alemão, Hegel, odiado por Schopenhauer, retomou o que ele chamou de espírito do tempo para nos trazer, digamos, qual a lógica que se manifestava no tempo e, no final, na formação do Estado Moderno. Marx e Engels, seus rivais e sucessores, olharam de novo pro “passado” e dele extraíram algumas condições básicas de existências as quais eles chamaram de modos de produção e, a partir disso, chegaram à conclusão de que sempre existiu certo “conflito de classes”. A pergunta então seria: classes sociais existiam antes de Marx e Engels? Sim e não. Mas não importa. Não é isso que interessa. Como no provérbio chinês que diz que “o sábio aponta a lua, mas o idiota olha para o dedo que aponta”, devemos olhar para a lua, neste caso, para o que devemos realmente observar.

 

O que devemos observar não é a questão: “classes sociais existiam ou não?”, mas sim: “percebemos agora os conflitos anteriores de nossa história de outro modo e o que faremos com essa nova percepção?”. Eis o segredo. O mesmo aconteceu nos últimos anos quando começamos a pensar que quando europeus colonizadores partiram das “colônias” eles deixaram práticas e costumes que as pessoas ainda reproduzem e, por isso, precisamos “purificar” nossas práticas para extrair essa bactéria colonial de nossas mentes.

 

Não foi diferente com a categoria de gênero. Quando a historiadora Joan Scott disse “gênero, uma categoria útil de análise histórica”, aconteceu exatamente o mesmo que estou dizendo até aqui: retomamos o passado com uma nova percepção. Todavia, o que sempre quis dizer foi que essa percepção não existia no passado tal como existe hoje. Daí eu falar “gênero nem existia naquela época”. Não se trata, portanto, de existir agora e não antes significar que artificialidade é sinônimo de arbitrariedade. Não. Muito pelo contrário.

 

Tenho orgulho de dizer que assisti e, portanto, testemunhei a criação de um fato científico em laboratórios. O fato que presenciei resultou do teste de correlação entre muriçocas comuns, mosquitos da dengue e vírus Zika. O processo é totalmente artificial! Máquinas, armadilhas, substâncias químicas e corpos humanos se unem para construir o fato! Aqui não há problemas com artificialidade.

 

Nosso problema, em ciências humanas e sociais no Brasil, é misturar artificialidade com falsidade, pressupondo, no processo, a ideia de que as ciências de laboratório encontram a verdade em processos sem artificialidade, pois do contrário (se fossem artificiais), não existiria verdade, já que a verdade não poderia ser resultado da produção humana (por que nos incomodamos com nossas próprias produções?).

 

Caso PERCEBAMOS que existe uma ideia errada sobre artificialidade, poderemos aceitar (de boa) que estamos o tempo todo – artificialmente – retomando o passado ou produzindo novos fatos. Assim sendo, podemos, finalmente, PERCEBER que sim, estamos retomando o passado sob um novo conceito que, com certeza, não existia antes, mas que, finalmente, agora existe (por que podemos aceitar o carbono 14, o vírus Zika, cianobactérias de bilhões de anos como intensificadoras dos danos neurológicos do mesmo NOVO Zika, mas não podemos aceitar que ao falar em classes sociais, pós-colonialidade e gênero, que não estamos sendo artificiais? Estamos, pelo contrário, sendo mais rigorosos/as com nós mesmos ao nos darmos contas que, por exemplo, o chamado sexo biológico não era mais suficiente para PERCEBERMOS/ENTENDERMOS cientificamente a complexidade das nossas relações HUMANAS).

 

Fonte: https://pt.slideshare.net/BladeCardozo/carbono-14-36659775

 

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