Espetáculo Omi Ayé – Um relato do processo criativo

January 21, 2020

 

 

 

 

Omi Ayé, expressão em yorubá que significa Águas da Terra, é um espetáculo de canto performático que integra além da música, teatro, dança e poesia. Segundo Marcelo Jardim (graduado em Canto pela Escola de Música da UFBA), fundador do Grupo Vocal Tangerina e coordenador da oficina de canto performático, “esse trabalho surge como uma homenagem às nossas águas, num momento em que essa questão se torna tão mais urgente diante do quadro de tantas agressões aos mares, mangues, lagos, rios e nascentes". 

 

Além do repertório musical surgiram histórias, textos, poesias e movimentos corporais a conduzirem o roteiro que traz inicialmente, de forma potente, a crítica aos descuidos da humanidade para a questão. Desde o lixo das cidades até o despejamento indevido de óleos em oceanos e praias comprometendo a vida do planeta.  Com a energia das divindades dos Orixás, o espetáculo segue focando na esperança e, na possível reversão dessa situação, por meio da preservação das nascentes até desaguarem no mar.

 

O espetáculo é resultado das oficinas de Canto Performático do Grupo Tangerina e traz canções e textos que representam a nossa relação com as águas.  Músicas de Dorival Caymmi, Dori Caymmi, Gilberto Gil e outros artistas como Saulo Fernandes, Paulo Araújo, Zeca Baleiro e outros são executadas com arranjos para coro e solos, intercaladas entre momentos de cenas e poesias.

 

O Grupo Tangerina nasceu em 2017 com a finalidade de pesquisar sonoridades, experimentos vocais, cênicos, performáticos e arranjos inusitados.  O grupo é composto por artistas que possuem as mais diversas formações no âmbito da dança, teatro, música, artes plásticas e produção cultural. Já apresentou o espetáculo Sementes explorando as sonoridades diversas de um repertório repleto de ícones do cancioneiro brasileiro.

 

As oficinas e o processo de criação do espetáculo Omi Ayé tiveram a duração de 4 meses com 9 horas semanais. Jardim reforça que “em um primeiro momento tivemos o mar e as músicas de Dorival Caymmi chegando com bastante força. Em seguida, esse 'mar' se estendeu a outros compositores e, mais adiante, também desaguou em rios e águas do planeta”. Sobre o processo criativo do grupo, Jardim ainda afirma: “eu nunca gosto de impor algum tema [...]  é o processo que vai trazendo a necessidade de fala e de expressão".

 

O canto performático propõe uma imersão na expansão dos sentidos, através de técnicas e uma estética que opta por um trabalho de expressão aberto ao oferecer instrumentos de exploração de formas e conteúdos, ritmos e cadências, espaços e vazios, potência vocal e silêncios.

 

A linguagem teatral se insere nas atividades do Tangerina a partir de jogos dramáticos, exercícios teatrais e improvisações, leitura e apresentação de textos e poesias para construção da cena performática do canto.  Os elementos da dança afro como movimentos de Oxum, Iansã e Yemanjá agregaram valor ao contexto do espetáculo com a elaboração de partituras coreográficas individuais e coletivas utilizando técnicas de improvisação. 

 

Jardim também assevera que “a linguagem da música, através do canto, dialoga com todas essas linguagens, somando e potencializando toda a expressão artística por meio da voz que também é corpo.

 

Parte II: Apresentação do resultado – Omi Ayé

 

A apresentação do Omi Ayé ocorreu no dia 04 de dezembro de 2019 no Teatro Sesi Rio Vermelho. Dividida em 21 cenas entre solos, coros e  textos, descrevo aqui apenas alguns momentos. A primeira cena fluiu bem. Todos de preto deitados no chão. Representávamos os seres das águas cobertos de óleo e alguns agonizando. Houve sincronia e harmonia dos espasmos [pelo menos do ponto de vista de onde eu estava eu pude sentir isso]. João Pedro Matos cantou É doce morrer no mar.  A cena de transição para a saída quando Matheus Frota canta O vento de Dorival Caymmi também fluiu.

 

Nanda Lisboa cantou Não me leve a mal de Saulo Fernandes. A presença cênica dela brilha e sua expressão corporal também fascina. Pauline Leite trouxe encanto e poesia ao cantar Na ribeira desse Rio, de Dori Caymmi, numa relação de reverência e respeito às águas dos rios. Já Lilian Carneiro mergulha em suas memórias de infância para falar de amor aos antepassados ao cantar Mãe Menininha de Caymmi. E Liz Cachoeira nos brindou com a canção Mamãe Oxum de Zeca Baleiro reiterando a força da energia das águas doces.

 

Na cena do duo com Marcelo (eu, solando no canto e ele, na expressão corporal), na música I Margem de Paulo Araújo e João Filho, eu me entreguei completamente. Interagi lindamente com a plateia e com Marcelo ao cantar contido, mas expressando minhas emoções e fazendo gestos sutis com as mãos. Houve aplausos em cena aberta. Que presente!

 

 Marcelo  interagiu com Fabiana Brito e essa ação enriqueceu a cena dela, pois ele criou uma relação entre eles justamente no momento em que ela cantava a Canção ao pescador de Délcio Tavares. O acaso nos brinda muitas vezes com esses momentos que, se estivermos atentos, acrescentam muito ao processo criativo.

 

Na cena de Géssica Lima cantando Água do Mar de Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, que por sinal cantou com muita emoção, passou um filme pela minha cabeça: muitas emoções ali presentes e eu desaguei literalmente em cena. A água que tenho por dentro achou caminho e desaguou no mar Omi Ayê.

 

A cena de Brenda Bocaccio na música Berimbau de Baden Powel e Vinícius de Moraes fluiu também. Nosso jogo na ciranda em volta dela teve ginga e energia e desenvoltura. A interação com Jean Pedro e Brenda foi intensa e sutil ao mesmo tempo. 

 

A música Canoeiro em termos de cena e expressão corporal fluiu e houve uma mudança, pois ensaiamos as transições e passagens entre os integrantes durante os ensaios, mas houve mudanças, pois não tivemos tempo suficiente para aprimorar a coreografia toda. E ficou bem melhor.

 

A cena de Dirceu Factum, Machado de Xangô com a música Eu vim da Bahia de Gilberto Gil foi tocante. Ele  quebrou a quarta parede ao convidar a todos para uma conversa com a sua presença forte e marcante.  O mesmo posso dizer do duo que ele faz com Giovana Dantas cantando Saudade da Bahia de Caymmi. O final do espetáculo foi alegre e descontraído. O teatro estava lotado e o público aplaudia calorosamente. 

 

Muito feliz por eu ter tido a coragem de superar desafios, por ter me entregado e ter aberto o meu coração ao mergulhar nessa aventura linda que foi o curso com o Tangerina Grupo Vocal. Agradeço ao mestre Marcelo Jardim, a Agnaldo Fonseca, aos músicos e a todos os integrantes do Tangerina por esse presente e espero sinceramente que o espetáculo volte muito em breve. 

 

 

 

Ficha técnica

    

Direção e roteiro: Marcelo Jardim

Assistência Cênica e Preparação corporal: Agnaldo Fonseca

Colaboradora na preparação Corporal: Sheila Cabral

Iluminação: Nando Zambia

Violão: Kleber Aguiar

Percussão: Silvio Cardoso

Elenco: Brenda Bocaccio, Dirceu Factum, Fabiana Brito, João Pedro Matos, Giovana Dantas, Nanda Lisboa, Lilian Carneiro, Liz Cachoeira, Matheus Frota, Pauline Leite, Ronaldo Magalhaes

Produção: Pauline Leite

Foto, vídeo e design gráfico: Deo Araújo

Contato: @tangerinagrupovocal

 

 

 

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