O delírio da Secretaria de Cultura de Bolsonaro

January 27, 2020

 

 

 

 

“Há o interesse precípuo em promover o renascimento no cenário cultural e artístico, fortalecidos por princípios e valores da nossa civilização, onde a Pátria, a Família, a determinação e, em especial, a nossa profunda ligação com Deus, norteie o que nos propomos a realizar. Que o nosso trabalho tenha as virtudes da fé, da lealdade, da coragem e da luta contra o que degenera; e que estas virtudes sejam alcançadas ao território sagrado das obras de arte. Uma Cultura com obras que configurem toda a importância para a harmonia dos brasileiros com a sua terra e sua natureza, elevando a nação acima de interesses particulares”.[1] [2]

 

Há o interesse urgente de analisar o documento delirante acima, o e-mail supostamente enviado pelo ex-secretário adjunto da Cultura nacional, José Paulo Martins, no dia 14 de janeiro de 2020, aos órgãos subordinados à secretária do governo brasileiro. Ou seja, antes mesmo do vídeo nazista do ex-secretário Roberto Alvim. Além da cúpula do Ministério da Cidadania, ao qual a Secretaria de Cultura é ligada, também receberam as ordens os diretores da Funarte, Ancine, Iphan, Biblioteca Nacional, Fundação Palmares, Instituto Brasileiro de Museus, Fundação Palmares e Casa de Rui Barbosa.

 

Primeiro, chama atenção o termo “renascimento do cenário cultural e artístico”. Vamos lá. Cultura e arte, de modo geral, estão adormecidas ou exterminadas no país? Que renascimento exatamente é esse? O Brasil é, historicamente, uma sociedade com várias influências e um sincretismo cultural e artístico abundante. Criamos a Bossa Nova, o movimento tropicalista (que transcende a música), MPB, samba, forró, chorinho, as marchinhas carnavalescas (vejam a importância de Chiquinha Gonzaga). Inventamos o Cinema Novo, com destaque ao cineasta baiano Glauber Rocha. E nossos excelentes e premiados cineastas nacionais, Henrique Meirelles, José Padilha, Kleber Mendonça Filho, Walter Salles, Carlos Saldanha?  A nossa poesia, com Castro Alves, Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais é maravilhosa. Nossa literatura também é riquíssima, desde José de Alencar, passando por Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Todas essas influências históricas ressoam até hoje, e são referências mundo afora, dentro e fora da Academia. Do que temos que nos envergonhar? Nossos artistas foram apagados da História? Nada presta? Gostaria que alguém contra-argumentasse.

 

O ponto seguinte é mais longo: “fortalecidos por princípios e valores da nossa civilização, onde a Pátria, a Família, a determinação e, em especial, a nossa profunda ligação com Deus”. Neointegralismo ressuscitando Plínio Salgado! Pátria tem conotação a valores nacionais saudáveis? Tudo bem se não for o nacionalismo patológico anti - globalista. E família? Que família é essa? Não estamos organizados em famílias plurais? Ou se quer retomar e impor o tradicional tripé patriarcal: homem-mulher-filhos? Se for isso, é uma luta contra o Espírito do Tempo! É um pensamento nostálgico, um ressentimento decadente, uma insistência de olhar para trás e resgatar, através do braço estatal, um modelo de família idealizado. Observem que é um sinal muito evidente de autoritarismo. Sem meia conversa.

 

O mesmo vale aqui para a “ligação com Deus”. É preciso dizer que Deus é esse!? É o cristão? Existe só cristianismo no Brasil? Se eu for politeísta ou panteísta? Como fica? Ah, a maioria é cristão, diz o leitor. Mas, não esqueça, meu caro, que a nossa democracia é liberal, ou seja, o direito inalienável individual é a priori: liberdade de pensar e agir diferente - contestação pública, oposição, crítica. Constitucionalmente, o indivíduo é amparado: sua liberdade e integridade é um direito fundamental.

 

Se a liberdade individual não é preservada, qualquer ação autoritária, de governantes ou da maioria da sociedade - uma tirania quantitativa - é a regra. E se a regra é o poder do mais forte contra a minoria ou aos mais fracos, então voltamos ao um estado natural: o salva-se quem puder! Cada um por si! Anarquia! Barbárie!

 

Então quer dizer que arte e cultura devem ser produzidos a partir da crença em um Deus? É isso mesmo? Ateu, agnóstico, por exemplo, não podem mais fazer arte? No cinema, na música, na literatura? O Estado não vai apoiar a pluralidade artística? Só vai financiar ou criar políticas públicas somente a quem estiver conectada a arte sacra? Isto é obscurantismo, nobilíssimos! O Estado, sendo liberal e democrático, não deve ditar nada! Quando caminhamos nessa direção, estamos indo em direção ao Estado confessional , doutrinal ou totalitário.

 

Continuando. “Que o nosso trabalho tenha as virtudes da fé, da lealdade, da coragem e da luta contra o que degenera; e que estas virtudes sejam alcançados ao território sagrado das obras de arte”. O termo que aparece aqui também é “degeneração”. Degeneração de quê, cara pálida? Do território sagrado das obras de arte? Mas que sagrado?  Aparece novamente um ar áurico, cândido, idealista da obra de arte, perdida nos confins da história, e deturpada por seres humanos decaídos. Discurso tipicamente nazista de definhamento da civilização.

 

Existe a essência da arte? Ou várias visões sobre ela? Arte não pode ser subsumida a uma única concepção. Qualquer definição extrema sobre arte é tosca, cognitivamente medíocre.  Como disse Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.  Não existe nenhum consenso universal sobre uma suposta arte verdadeira. Esse furor de voltar a algum lugar do Éden, e resgatar uma gênese de uma arte sagrada é uma paranoia sem tamanho. Pensamento de quem não tolera diversidade e oposição. Abjeto! Uma mentalidade totalitária dentro do Estado. 

 

“Uma Cultura com obras que configurem toda a importância para a harmonia dos brasileiros com a sua terra e sua natureza, elevando a nação acima de interesses particulares”. Que cultura? Existe uma cultura brasileira? Ou existe várias expressões da cultura brasileira, além do sincretismo cultural? Essa coisa genérica, abstrata, é um delírio!

 

Voltamos também à questão do “interesse da nação”. Há algum bem ou interesse comum incontestável? Você aí sabe dizer? Eu não. Esse discurso de que existe um único interesse, pairando sobre mentes individuais, é papo furado. Palavras simplistas para mentes pequenas ou facilmente manipuláveis! Não existe esse interesse comum da nação dentro do que foi dito sobre Deus, família, obra de arte sagrada ou uníssona cultura.

 

Espero que o leitor atento possa ter percebido que esse e-mail que foi enviado a vários departamentos da Secretária do Governo Federal é indício da existência de uma ala do governo, de raiz provavelmente olavista, que deseja desconstruir, a todo custo, tudo que está aí. É o tipo revolucionário às avessas, reacionarismo mais rasteiro, caótico, autoritário. Se isso é sinal de um projeto de governo para a cultura, então precisamos estar totalmente alertas contra tendências fascistóides.

 

Como será a gestão da nova secretária, Regina Duarte?  Vai desinfectar o cheio podre no ar? Deixem seus comentários.

 

Até a próxima!

 

 

[1] https://theintercept.com/2020/01/17/cultura-ideias-do-nazismo-roberto-alvim/?comments=1&menu=1

 

[2] https://noticias.uol.com.br/colunas/reinaldo-azevedo/2020/01/21/anulacao-do-premio-racismo-de-alvim-e-o-sebastiao-de-regina-que-e-expedito.htm

 

Link da imagem: https://oglobo.globo.com/brasil/partido-de-bolsonaro-usa-lema-integralista-mas-se-aproxima-da-arena-da-ditadura-diz-sociologo-24079859

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