ESCÂNDALO NO OSCAR 2020: “PARASITA” E A NOVA FORMA DE FAZER CINEMA... E CIÊNCIA!!

February 13, 2020

 

 

Diante do sucesso de um filme, envolvendo público e crítica ao mesmo tempo, além de artigos, ensaios e tanto barulho envolvido, uma pergunta surge quase que de forma automática: “O que faz uma obra de arte ser bem recebida?” Segundo o senso comum acadêmico, aquele tipo de análise previsível e muito sem graça, um filme é bem recebido quando critérios e expectativas circulam por aí, de preferência já instalados em seu corpo sem que você saiba, filtrando a sua percepção. Isso supostamente acontece quando, por exemplo, um diretor famoso faz parte do projeto, ou atores de peso participam dos papeis principais ou ainda quando grandes companhias se envolvem na produção. Em outras palavras, seu contato com a obra seria mediado por um tipo de estrutura que incorporaram em você, ao menos assim é o modo como contam a história nos cursos de Ciências Humanas. Se algo é belo, se carrega o selo estético dentro de si, pode então ser dissecado cientificamente, não importa se esse gesto pareça agressivo e muitas vezes cruel. Mas e quando não existe nenhuma expectativa ou qualquer tipo de estrutura de fundo? E quando uma obra de arte simplesmente aparece e contagia a todos de um jeito inesperado, quase como um meme que se espalha sem qualquer tipo de controle? Esse foi o caso da obra sul coreana “Parasita”, filme dirigido por Bong Joon-ho, e vencedor de quatro Oscars, dentre eles o de melhor filme e melhor direção.

 

Preciso lembrar que Bong competia com nada mais nada menos que Scorsese e Tarantino? Preciso lembrar também que “Parasita” é o primeiro filme estrangeiro a conseguir a maior premiação do Oscar? Diante de tanta novidade, e de um choque que ainda percorre meu corpo por inteiro, resta apenas o rosto surpreso da criança assustada, e nós somos a criança que presenciou o impresenciável, que sentiu o impossível.  Esse inominável, bem no sentido Becktiniano, poderia ser visto como o começo de uma nova era no cinema? Esse é o objetivo desse ensaio que você está prester a ler. Ao contrário de tudo o que já escrevi até hoje, esse texto pretende falar justamente daquilo que não pode ser nomeado... da beleza e da própria perfeição!!!

 

Já escrevi sobre “Parasita” há pouco tempo atrás, ainda no início desse ano. Tentei imaginar um pouco os seus contornos enquanto uma produção estética, enquanto uma obra de arte, muito além do seu óbvio compromisso social ou ecológico. Vários filmes tem um bom coração, vários querem passar uma mensagem importante, mas falham naquilo que há de mais decisivo: a performance cinematográfica, ou seja, a maneira como a arte é costurada e oferecida ao público, o que em termos mais específicos envolve uma costura perfeita de itens como edição, fotografia, trilha sonora, figurino, direção, além, claro, da performance dos próprios atores. Ao tentar trazer a ética como um elemento de uma obra, muitos acabam comprometendo a estética de fundo, reduzindo o seu potencial, principalmente no caso do cinema, quando temáticas sociais reduzem o enredo e transformam os personagens em carcaças previsíveis e sem qualquer traço criativo. Combinar estética e ética, sem que nenhum dos dois violente o outro,  é uma tarefa rara, sendo um esforço astronômico, mas de uma genialidade impecável. No ano passado percebemos isso em filmes como “Nós” de Jordan Peele ou “Infiltrado na Klan” de Spike Lee. “São filmes que trazem uma mensagem importante”? Claro... mas não só isso. Com “Parasita”, todos experimentaram algo assim. Esse filme é simplesmente perfeito... P-E-R-F-E-I-T-O, mas não pela sua ausência de falhas, ao contrário. Ele é uma obra de arte que não apenas carrega o seu movimento de produção, o modo como as cenas são construídas e editadas, como também abre uma lacuna no interior da própria linguagem cinematográfica, ao sugerir sempre algo novo, criativo. Ele é perfeito pela imperfeição, por ser um desvio, um marginal, ou seja, por ter quebrado as expectativas, por ter pressionado as fronteiras do cinema além do limite do previsível. No mundo dominado por Scorsese e Tarantino, num mundo de uma estética já definida, Bong é o imperfeito que deu certo, é a mancha que virou moda, é o defeito que se popularizou, sendo uma coisa rara não apenas no cinema, mas na vida em geral. Sem dúvida, Bong carrega várias influencias, inclusive de Scorsese e Tarantino, como ele mesmo sugeriu em um de seus discursos no Oscar, mas influencia não é destino, já que o discípulo sempre produz um excesso, uma mais valia, um tipo de transbordamento, digamos assim.

 

Da mesma forma que filmes como “Coringa”, a temática em si é apenas um detalhe, já que o brilhantismo mora no modo como essa mesma temática é trabalhada e criativamente sugerida, na própria performance da linguagem enquanto uma ferramenta elástica e incrível. A direção de "Parasita" é suave, ao mesmo tempo que genial, fugindo da pretensão dos diretores "artsy", ou seja, dos diretores que se preocupam o tempo todo em deixar suas digitais, em mostrar sua assinatura, o que gera normalmente filmes grosseiros, pretensiosos e confusos. O percurso da direção em "Parasita" se funde perfeitamente com tudo ao redor, seja a fotografia, a trilha sonora e até mesmo a arquitetura do espaço. Não podemos esquecer, claro, da edição, e o quanto ela é decisiva no modo como as ações fluem e interagem entre si, como acontece na cena do envenenamento da governanta. Não existe no filme insistência, exagero, mas apenas uma história contada de uma forma impressionante. A mensagem, mesmo carregando um tom político e social, foi oferecida de um jeito espontâneo, o que acaba sendo muito mais eficaz.

 

Sem dúvida, quando o assunto é arte cada um tem sua interpretação e seu pacotinho de valores, ideias e palavras, mas a estética atravessa tudo isso. Posso não conseguir nomear o que vejo diante de mim, posso não ter formação cinematográfica, muito menos acadêmica, mas ainda assim eu “compreendo” que existe "algo mais" ali, já que afeta todo o meu corpo, revelando uma forma rara de usar a linguagem. Pode soar um pouco kantiano essa conclusão, além de ser muito distante do nosso pós-modernismo de hoje, mas eu acredito que o belo é universal, principalmente quando envolve a linguagem e sua capacidade elástica de afetar corpos, mentes e povos. Existe uma certa forma de fundo que se mantém em tudo aquilo que chamamos de belo...um jeito de usar as palavras que chamaria aqui de performático, ao contrário do nosso uso sem graça no cotidiano. A arte nos faz lembrar que podemos mais, que nossa linguagem pode ter mais cor, som, ritmo e cheiro... que não precisa ser um pacote descritivo, como se fosse apenas um dedo indicador direcionado a algo lá fora. Bong é genial porque ele nos inspira a buscar o nosso próprio filme interno, divulgando ao mundo do modo mais incrível possível. 

 

“Parasita” não é sobre capitalismo, como acontece com milhares de outros filmes. “Parasita” não é sobre desigualdade social, como acontece com milhares de outros filmes. “Parasita” não é sobre a decadência da política ocidental nos tempos da modernidade tardia, como é possível ver em milhares de outras obras. Ao contrário, “Parasita” é sobre arte, sobre o seu núcleo mais incrível e espontâneo. Não tente reduzir a obra ao que lhe convém, porque caso contrário ela perde a graça, além de ser um gesto de extrema pretensão e mal gosto. Muitas vezes o sociólogo (filósofo) faz isso... joga um grande balde de água fria na experiencia alheia, quase como se tivesse ressentido da felicidade dos outros. O sociólogo observa com desprezo o sorriso de seu José no final do filme “Coringa”: “Esse seu sorriso é uma ilusão, seu José”, responde o sociólogo pretensioso. “Eu agora vou te explicar de onde ele veio e o que significa o que você acabou de assistir”. Segundo o que eu acredito, “Parasita” não é uma crítica sociológica ou filosófica do capitalismo, mas uma crítica à própria sociologia (filosofia), ao seu modo reducionista e ressentido de administrar experiências. “Parasita” nos lembra da importância dos instantes de silêncio, surpresa, mesmo que não venha acompanhado de conceitos, teorias ou toneladas de pedaços de interpretação.

 

REFERÊNCIA DA IMAGEM:

 

https://giphy.com/gifs/neonrated-parasite-bong-joon-ho-parasitemovie-Yo8JL6rSdOtjAJwvff

 

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