O carnaval: leitura para quem ama e odeia a festa

February 19, 2020

 

E vem chegando o carnaval! Daqui a poucos dias, a folia tomará conta das ruas. Enquanto uns aguardam ansiosos, outros bombardeiam a festa. Alguns pensadores e intelectuais não o veem com bons olhos. Comentam que é, na verdade, um celeiro para proliferação de viroses; uma junção de bêbados e mal intencionados que tumultuam, brigam e aproveitam para roubar, furtar, linchar e mandar muita gente arrebentada pro hospital (ou cemitério); e um palco de sujeira e cascatas de urina, causando uma fedentina miserável. Bem, contra fatos não há argumentos. Aumentam casos de doenças respiratórias sim – algumas delas graves, como meningites (além das sexualmente transmissíveis); brigas e confusões são comuns, lesões graves, fraturas, e até mortes ocorrem; e o lixão acumulado transforma avenidas em oceanos de entulho, latas e muito mijo; inclusive, tira a paz dos moradores das cercanias e impede que ambulâncias trafeguem e impeçam de socorrer alguém.

 

Mas esses transtornos seriam suficientes pra dar cabo no festejo e impedir legalmente a realização dela? Eu diria que não. É algo muito antigo, muitos estudiosos dão conta de suas origens lá no Império Romano, nas festas conhecidas como “Saturnalias”. O escritor e padre (isso mesmo: padre!) François Rabelais viveu no Século XVI e compreendeu a cultura popular reinante na Idade Média, descrevendo os excessos, piadas, e o comportamento grotescos dos brincantes - quando a Igreja Feudal influenciava as mentes - numa fuga momentânea e passageira das opressões cerimoniais. Com os exageros marcantes, a fartura dos banquetes, do comer e do beber até passar mal, era mote da festança. Séculos passaram, a festa se alastrou (pelo menos no mundo ocidental) e importantes cidades de Portugal, Itália, França, Angola e até os Estados Unidos (sobretudo Nova Orleans) festejam a folia. No Brasil, tudo se iniciou com o Entrudo, uma festa bastante criticada, tida como violenta, substituída pelo carnaval em fins do século XIX, quando o poder público tomou as rédeas de sua organização (em Salvador, a partir de 1884). A ligação com um passado longínquo é fundamental para entender a festividade.

 

Apesar dessa historicidade, em nossa vida contemporânea há um entendimento – não totalizante – de que é preciso dar um basta ao império de Momo. Há alguns anos (2010), muita gente teve orgasmos múltiplos (brincadeira, não foi pra tanto...) quando viralizou um vídeo onde a jornalista Raquel Sheherazade “descia a lenha” na famosa festança, falando que não era festa popular, que se transformou num grande negócio, somente pra ricos que curtem blocos e camarotes, com dinheiro publico custeando artistas, fazendo festa pra quem não tem o que comer, etc. Não diria que ela estivesse de todo equivocada, mas há incongruências. Primeiro, ela fala em “festa de rico” e no minuto seguinte, do gasto público para pagar artistas e tocar “para pobres”. Segundo, fala de abadás e camarotes para ricos, ou seja, ela pegou um tipo ideal de festa e homogeneizou, como se o país todo promovesse a mesma festividade, uma falácia sem tamanho, quando, na verdade, temos manifestações múltiplas por todo o país! Um bloquinho que sai ao meio dia de um domingo carnavalesco no Centro de Porto Velho, é carnaval!!! Sem abadá, sem camarote, sem milhares de ambulâncias aguardando o atendimento de bêbados e esmurrados. O vídeo é antigo, o carnaval baiano era referência, mas padronizar a festa e criticá-la através de um modelo, aí não! o que vemos é um crescimento espontâneo da festa em diversas cidades onde tradicionalmente não havia nada, como Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, e São Paulo. Cada qual quer aproveitar seus espaços para dinamizar a folia e colocar sua fantasia e brincar. Com o tempo, talvez, isso vá dissolvendo aos poucos a magnitude dos blocos fechados e grandes camarotes (será muito difícil cessar esses espaços por completo. Quem tem dinheiro sempre se afastou das massas, seja nos estádios de futebol, nas primeiras classes de trens e aviões, etc.). Quanto à contratação de artistas, isso ainda acontece, porém, o gasto público reduz o número de blocos, a segregação econômica, o aperto nas ruas, e os tumultos outrora provocados pelas cordas divisórias. Sem dizer que o maior número de mortos e feridos não ocorre nos circuitos, e sim nas estradas.

 

Além do carnaval, as ruas são utilizadas para protestos, manifestações, festas cívicas, marchas religiosas e identitárias, procissões, romarias, e afins. É a utilização do espaço público, da rua, como citou Roberto Da Matta, afirmando que é nesse local onde se expressa “domínios culturais institucionalizados”, despertando “emoções, reações, orações” e demais sentimentos. O que precisa é mitigar intempéries e conflitos, organizando cada vez mais a festa, estendendo a folia para avenidas com quarteirões, onde a maioria dos prédios tenham saídas para outro lado; organização policial ostensiva, ampliando o know how para lidar com multidões; e fechando os acessos para evitar aproximações de veículos indesejados. Enfim, não tem pra onde correr: a vontade de brincar o carnaval vem ganhando adeptos.

 

Muitos são fascinados pela folia, por vestir a fantasia, a máscara, e se comportar diferentemente de um cotidiano opressor, se atirando no sacolejo do corpo, som de frevo, marchinhas, dobrados, samba, axé, e o que mais aparecer, perfazendo uma miscelânia de gêneros com origens ibéricas, lusitanas e africanas. É uma ocasião para amenizar a intolerância a gays e mulheres, onde grupos minoritários descriminados se sentem mais livres (principalmente com a disseminação de campanhas ostensivas que ganham atenção, como o “não é não”, contra o assédio às mulheres). Exercitam a sensação moleque de beijar quem nunca viu na vida, pessoas fazem negócios com aluguéis de imóveis, fanfarras emolduram clássicos populares com seus metais. Cada local vê a importância do evento e suas vantagens.

 

E vai ser assim, mais uma vez. Quem ama a festa, se joga na folia. Quem odeia, incorpora o smurf Zangado e passa o período praguejando “eu odeio carnaval! Eu odeio trio elétrico! Eu odeio fantasia!”. No entanto, a grande maioria, acredito eu, é indiferente ou desinteressada (nesse grupo encontra-se, inclusive, ex-foliões), não julga quem curte a festa e aproveita o que o feriado do carnaval proporciona: ler um livro, colocar a série preferida em dia, ou viaja para o campo, para lugares históricos, ou para ilhas enfrentar longas filas de embarque, ficar numa casa com 30 pessoas, repleta de mosquitos, muito calor, cerveja quente, disputa de som veiculados em carros, e falta d’água (mais uma brincadeirinha, é carnaval!).

 

Para encerrar, quem ama, quem odeia, ou quem não tá nem aí, enfrenta na Quarta-Feira de Cinzas o retorno para os mesmos martírios e lamentos, emoldurados pela dificuldade diárias, afinal, a vida está longe de ser um carnaval.

 

FONTES:

 

- BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Tradução de Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008

 

 - DaMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997

 

- FRY, Peter. Identidade e Política na Cultura Brasileira. In: JOSÉ REIS, João. Escravidão e Invenção da Liberdade. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1988.

 

 - Comentário de Sheherazade (https://www.youtube.com/watch?v=oLmFQxsMbN4)

 

 

 

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