Censura à arte nua no Brasil dito "cristão"

February 26, 2020

 

 

 

 

Por Luiz Fernando Calaça*

 

 

Acabo de ler a matéria publicada ontem no site de O GLOBO, da colunista Selma Schimidt (ver matéria em: https://glo.bo/37OhMxh), que trata sobre a tentativa de censura à obra exposta no Centro Cultural Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, de Órion Lilla, intitulada "Todxs xs Santxs" renomeada para #eunaosoudespesa, obra de um artista militante LGBT e das causas de portadores de HIV/AIDS. 

A polêmica gira em torno do fato de a obra trazer um oratório católico contendo uma imagem andrógina e nua, de seios femininos e pênis masculino, mesclada à imagem de uma escultura de Maria, mãe de Jesus, ao lado da frase "Deus acima de tudo, gozando acima de todos".

Vamos refletir um pouco sobre essa obra e sobre o porquê de se tratar de mais uma tentativa de censura, no Brasil - dito país "cristão" - bolsonarista e crivelista.

A frase mais "chocante" e polêmica, "Deus acima de tudo gozando em cima de todos", parece mais uma crítica ao slogan de candidatura do atual presidente Bolsonaro - "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos" -, vinda de um "cristão" que prega o fim de financiamento público ao tratamento de auto custo, pelo SUS, dirigida aos portadores de HIV, afirmando que é "um custo que todos nós pagamos".

Que cristão é esse que não se preocupa com os doentes e prega a homofobia e a transfobia, e que ameaça descontinuar os tratamentos de uma população em situação de vulnerabilidade que, se interrompido o tratamento, pode vir a morrer se desenvolvido o quadro clínico de AIDS, que nada mais é do que a perda das defesas do corpo por uma infecção viral que leva à deficiência do sistema imunológico?!


A imagem de um corpo semi nu e semi vestido com roupas de santa, parte mulher, parte homem, parte escultura da Virgem Maria, não me parece uma crítica à santidade da mãe de Jesus, mas sim uma representação da dualidade sacro-profano do corpo nu e andrógino das travestis e transexuais, vítimas de preconceito, discriminação, exclusão, violência e morte. Não é Maria, mas uma imagem ambígua de mulher-homem, santa-e-puta(o), que se configura de forma fragmentada, tal como um "quebra-cabeças", nos corpos femininos-masculinos "trans".

A representação de uma cruz que traz as letras H-I-V em sua estrutura, mais uma vez remete à associação entre HIV e morte, condenação e sacrifício pelos pecados (o sexo) cometidos por gays e travestis.

Ao fundo, de cabeça para baixo, um casal gay se abraçando e acariciando, representando o amor e o sexo entre dois homens. Em volta deles, lantejoulas, que nos remetem ao brilho das fantasias de drag queens e travestis e daqueles que vivem a alegria festiva na noite, em boates, bares, guetos e inferninhos, locais onde se vive momentos de alegria contrastante à dura realidade de preconceito e exclusão. Vestes de brilho como pano de fundo da imagem sacra e profana.

Nas portas do oratório, um fundo brilhante de flores (órgão sexual das flores associado ao feminino) douradas e purpurinadas, que como as lantejoulas, nos remetem às roupas de artistas da noite, drag queens e travestis.  Cravejadas de símbolos: o coração (que remete a amor), pombas (a paz e ao masculino), serpentes (a serpente diabólica do pecado original, o masculino, ou representação do orixá andrógino Oxumaré, cuja dualidade de gênero está associada a travestis e transgêneros), pingentes com a imagem de Jesus e Maria (que nos remetem tanto à santidade quanto ao masculino e o feminino), o espelho (referência à beleza, à vaidade ou às orixás yabás Yemanjá e Oxun, divindades femininas protetoras africanas, deusas da maternidade e do amor), a coroa (que nos remete à "majestade", às divas, rainhas e reis), um machado (simbolo de masculinidade  associado a virilidade, trabalho e proteção ou ao orixá da justiça, Xangô), uma chave contendo um olho grego (elementos que remete a abertura e proteção). Todos esses são elementos simbólicos e metafóricos identificáveis na obra.

Uma obra de arte é um texto a ser lido e interpretado. Quanto maior sensibilidade e repertório cultural nós temos, mais possibilidades de interpretação.

Para cristãos - católicos ou evangélicos -, como o deputado e o prefeito cariocas, autores da "denúncia" e pedido de censura, que só veem pecado associada a homossexualidade/transexualidade, à nudez e ao sexo, a simples associação a Deus ou a Maria já faz da obra herética e sacrílega, ou afronta à fé cristã. Mas para quem conhece e compreende a profundidade dos elementos simbólicos e um pouco das causas LGBT, presentes nesta obra de arte, ela passa a ser compreendida sim como uma "obra de arte" e um manifesto de crítica e denúncia, não ao cristianismo, mas à hipocrisia daqueles que usam o discurso cristão como ferramenta de ódio dirigida a LGBTs e portadores de HIV.

Trata-se de uma obra "bela", complexa em sua multiplicidade de sentidos e significados, que traz a condição humana, profana e sagrada, de gays, travestis, transexuais e transgêneros, que vivem a beleza da vida, da alegria e do sexo, ao mesmo tempo que sofrem, sob a sombra e o medo da morte, associados ao HIV/AIDS.

Não se trata de uma obra a ser censurada, mas lida, refletida, meditada e compreendida, para que nos tornemos pessoas melhores, mais "santas", menos preconceituosas, excludentes e intolerantes com as diferenças sexuais e de gênero.

Detalhe: a obra está sendo exposta no Centro Cultural Hélio Oiticica. Hélio Oiticica foi um artista brasileiro anarquista que em sua obra tratou do tema da condição marginal (daqueles que estão à margem do sistema). Nada mais natural do que, em um centro cultural que leva seu nome, se traga obras com temáticas "marginais", daqueles que estão à margem da sociedade, como a comunidade LGBT e os portadores de HIV.

 

* Formado em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia.

 

Fonte: https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2020/02/21/deputados-pedem-que-museu-censure-arte-mostrando-virgem-maria-nua-com-penis.htm

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