QUANDO UM VÍRUS NOS FAZ OLHAR PARA O NOSSO UMBIGO

March 1, 2020

 

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O coronavírus (também conhecido como CONVID 19) tem reinventado um imaginário social. Olhando para os índices de morte em que o vírus foi o causador, alguns brasileiros estão comparando e percebendo que o país está vivendo epidemias sociais maiores do que a do CONVID 19.

 

Alguns internautas têm postado a comparação do índice de feminicidios, assim como dos assassinatos de jovens negros e da violência contra a população LGBT+. Também aparecem nos posts, o aumento de pessoas infectadas pelo vírus HIV e das mortes causadas pela dengue.

 

 Em resposta a essas postagens, algumas pessoas argumentam que acham injusto comparar a violência com um vírus que se transmite pelo ar. Ninguém escolhe ser infectado por um vírus, mas também ninguém escolhe ser alvejado por uma bala, ou ser morta pelo companheiro ou ainda levar porrada na rua só porque estava andando de mãos dadas com a pessoa amada.

 

Em todos esses casos o agente causador, diferente do vírus, tinha escolha de violentar ou não, e em muitos desses casos, assim como o do vírus que debilita, o resultado pode ser o mesmo: a morte. Logo, se no caso da epidemia de CONVID 19 é necessário o álcool em gel e evitar o contato com pessoas infectadas, qual é a solução para evitar a violência diária?

 

 Educação da população, a qual o governo atual tende ao máximo sucatear e a não incentivar. Educação que inclusive conseguiu decodificar o genoma do coronavírus por pesquisadoras de uma Universidade Federal, função que o governo federal deseja acabar assim como as instituições que fomentam a pesquisa.

 

Ao que tange a dengue, além da educação - as pessoas precisam saber como evitar a proliferação do mosquito-, a questão que perpassa pelo saneamento básico ainda precário, inclusive por conta da má urbanização, à exemplo das fortes chuvas que não tem para onde escoar.

 

Saúde pública também é a questão do vírus HIV. O incentivo ao uso de preservativos cada dia mais é necessário, tal como os programas de profilaxia pré-exposição e pós-exposição, ambos distribuídos pelo SUS, mas pouco conhecidos. Quanto a isso, as campanhas de conscientização e de prevenção dificilmente serão difundidas por agora, afinal, o próprio presidente Bolsonaro afirmou que os remédios para a manutenção da vida de pessoas que convivem na condição de soropositivo são um gasto para o Estado.

 

Essas reflexões evidenciam o quão é preocupante os problemas sociais e de saúde pública em que o Brasil está imerso. A própria questão da violência também é saúde pública, pensando no conceito ampliado de saúde, uma vez que o bem-estar é saúde. Porém, no país em que mais mata gente, seja pela violência ou pela miséria, dificilmente nos sentiremos bem, dificilmente seremos saudáveis.

 

Provavelmente o coronavírus irá passar, assim como aconteceu com outras epidemias. Muitas dessas doenças importadas geraram um terror social, quando na verdade o terror já estava instaurado, mas coberto por um véu de colonização. Afinal, todos os problemas apontados anteriormente atingem pessoas marginalizadas pela sociedade, seja pela a cor, pela orientação sexual, pela classe social.

 

Nossos problemas sociais não são gerados por alguém que viajou para a Europa e trouxe a doença do colonizador, como é o caso do coronavírus. Matéria que é até bonita de se ver no jornal do país colonizado, quando nos aceitamos como tal. Algo que fizeram com os povos indígenas e está sendo repetido no século XXI.

 

Nossos problemas são mais profundos, esses são frutos de nós mesmos, do nosso enraizamento em valores  racistas, machistas, homofóbicos, transfóbicos. Absorvemos os defeitos de nossos colonizadores e a maioria é insistente em manter esse patamar evolutivo, ou melhor, involuído. Caso não fosse, não teríamos esses índices gritantes de violência contra os grupos não hegemônicos.

 

A ideia aqui não é diminuir as consequências negativas que o coronavírus pode causar no Brasil, mas revelar que estamos em uma situação de antropofagia distópica, essa que consiste em absorver os defeitos do colonizador e juntar com os nossos, criando uma sociedade distópica. Nesse caso, o defeito não é o coronavírus, é o não se preocupar com os subalternizados e agir de maneira menor para com os problemas sociais que são oriundos do nosso próprio país.

 

 

Fonte da imagem: montagem Jacqueline Gama

 

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