• Gabriel Brito

O caso Alessandra Negrini



Alessandra Negrini tá “bombando” nas redes sociais. No carnaval, a atriz se “fantasiou” de índia. Rapidamente o nome da atriz teve um aumento repentino no número de pesquisas ligadas a ele no Google¹ no período do carnaval. O que diria um cientista social sobre o assunto?


Bom, a primeira coisa que devemos fazer é “nos afastar”, ver de fora, como qualquer cientista deve fazer com seu objeto de pesquisa. Um antropólogo diria que devemos nos familiarizar, mas manter a distância do grupo que estudamos. Ou seja: não tenho uma opinião formada sobre o assunto.


Em segundo lugar, coletemos dados. Vejo os seguintes discursos: de defensores da atriz, como a Guajajara, indígena “raiz” de um lado; e de algumas lideranças indígenas, “raízes” também, por outro lado, criticaram a atriz.


Bom, podemos falar de “lugar de fala”, né? As etnias indígenas podem falar, pois vivem a experiência indígena e o espaço de fala deve lhes ser garantido, conquistado – por isso não cabe a mim falar sobre o assunto no sentido de posicionamento de um jeito ou de outro (já temos nosso espaço de fala). Mas quando elas mesmas discordam, o que fazemos?


Então pensamos de outro modo: ao invés de analisar quem tem razão ou quem está certo, faremos outra pergunta: como os discursos qualificam, avaliam, julgam, escolhem seus princípios e valores?


Creio que esta pergunta adicional é mais útil para um cientista social – antropólogo principalmente -: pois a questão não é julgar as opiniões e as práticas. Em outras palavras: ao invés de analisar a posição de Negrini, analisamos a posição de quem está falando sobre ela.


Certa vez ouvi uma pessoa dizer como justificativa para criticar a atriz, que sempre vai ter gente que é de determinado grupo oprimido, mas pode defender o opressor. Verdade... Mas o que interessa é notar que quem diz isso já tem também sua opinião formada sobre Negrini e outros temas. Qual seria tal posição?


Na verdade não importa. A hipótese que resta é de que estar de um lado ou de outro da discussão significa se alimentar de informações e qualificá-las como apropriadas ou não; pertinentes ou não. Quer dizer: sempre encontramos exemplos e contra exemplos, mas nos alimentamos dos exemplos que vemos como regra geral e que nos satisfazem, pois confirmam nosso senso de certo ou errado, bom ou mau – bem e mal. Quando não, basta desqualificá-los, colocando-os na gaveta de “casos isolados”, desvio, exceções.


Enquanto cientista social, no exercício da profissão, enquanto pesquisador, vejo o caso de Negrini como uma oportunidade de conhecer melhor a sociedade em que vivemos. Mas existe também uma segunda questão neste caso, talvez mais teórica ainda, ligada ao interesse no conhecimento desse tipo de circunstância. Ao perceber que podemos nos alimentar dessas controvérsias, então, ao mesmo tempo, podemos redefinir a forma de abordagem para pesquisas, concentrando não na clássica pergunta sociológica de como a ordem social se torna possível, mas em compreender processos de mudança em ação.


No caso da Negrini, por exemplo, vemos grupos discordantes redefinindo posições e valores. Os resultados ou aonde isso vai levar não deve ser presumido. Somente os grupos nos mostrarão, pois são eles que estão produzindo as fronteiras sobre onde devemos nos posicionar (“se você concorda com Guajajara e Negrini, você não está do lado que defendemos! Agora se você discorda, temos um lugar para você aqui no nosso grupo”).


Não pretendo me alongar com outros casos, mas você já notou que ocorre o mesmo com diversos temas? Por exemplo, existem homens feministas? Depende do grupo que vai responder. Existe o debate sobre se mulheres trans devem fazer parte de lutas cuja vanguarda é puxada por mulheres que viveram como mulheres desde o nascimento. Em Recife, ano passado, uma feminista e blogueira foi impedida de realizar uma fala em um evento acadêmico por ser contra a presença de mulheres trans (“são homens ocupando o lugar de fala de mulheres” – era o boato que circulava). E o debate sobre cor de pele: é ou não é negro? Quem detém a palavra final? Tudo aqui dá no mesmo: existem grupos e grupos. As controvérsias nos permitem compreender esses grupos, suas práticas, seus valores e seus/suas simpatizantes.


No final, acho que o mais importante desta reflexão é para onde ela aponta: as pessoas estão se posicionando desse ou daquele jeito com base em seus princípios e julgamentos sobre bom ou mau/bem e mal. Por isso, o que observo são pessoas que não mudam e defendem posições até o fim. E o maior problema disso, penso eu, é que nos iludimos acreditando que somos formadores. As pessoas não são passivas: se um parente seu não assiste debates políticos nem lê livros de história, por exemplo, ele tem coisa muito mais interessante pra fazer, como falar mal do PT, do Lula e da Dilma e concordar com Bolsonaro quando ele quebra o decoro atacando uma jornalista mulher.


E você, por que está aqui? Encerro com uma questão linguística (pragmática): as expressões (palavras) sobre algo (corpo-conteúdo) não alteram “o conteúdo” previamente. As palavras mudam, os sentidos mudam, mas os corpos apenas são. Definir o que uma coisa É jamais depende da COISA EM SI. Por isso: falar sobre uma coisa de um jeito diz muito mais o que desejamos fazer com as coisas e com nós mesmos do que qualquer outra coisa. Afinal, os grupos que falam de Negrini – pró ou contra – simplesmente estão reforçando posições e demarcando fronteiras sobre posicionamentos políticos. Tenham ou não consciência disso.


Nota: Google Trends.

Fonte: https://www.instagram.com/p/B9POXzLJZKc/

19 visualizações

RECEBA AS NOVIDADES

        PARCEIROS

© 2020 por Soteroprosa | Design por Stephanie Nascimento. Implementação e suporte por Wix.com.