POR QUE FILÓSOFOS E PSICANALISTAS ODEIAM O FILME MATRIX?

March 12, 2020

 

 

 

 

 

Depois de uma experiência libertadora nos últimos anos, uma mistura de meditação e boas ações, além de uma dieta equilibrada, o mundo parece diferente aos olhos de Túlio. A realidade que era tão confiável, cheia de vínculos sólidos entre familiares e amigos, perdeu sua consistência, sendo agora uma grande farsa descortinada. Felizmente, no fundo dessa série de ilusões temos a preciosa verdade, o mundo que tentaram ocultar, mas que aparece com toda força nos bastidores da nossa experiência.

 

Claro que essa breve passagem foi inventada por mim, mas alguma coisa nela tem um cheiro familiar, não é mesmo? A ideia de que o mundo acessado pelos meus olhos, ou por minhas mãos, nada mais é do que um Show de Truman, uma farsa bem construída, é um tipo de história antiga e previsível. Alguns rastros desse modelo devem ter, no mínimo, uns 2000 anos, como é possível perceber logo nas primeiras linhas do Mito da caverna de Platão, ou no próprio cristianismo e seus textos sagrados, ou até mesmo em histórias mais recentes como Matrix, o Filme. Existe uma tendência em acreditar nesse tipo de narrativa, como acontece também, por exemplo, com teorias da conspiração, onde o mundo é dividido em dois grandes polos (o Verdadeiro x o Falso). Existe algo de atraente na crença de que vivemos num universo ficcional (de superfície), enquanto a realidade brilha do outro lado da cerca, escondida dos olhos do sujeito comum e iludido. O objetivo desse ensaio, contudo, não é descontruir essa imagem de mundo, como muitos já fizeram antes, mas inverter seus termos, colocando todos de cabeça para baixo, ao seguir assim um percurso mais radical, complexo, assim como é esperado da filosofia ou da psicanálise.

 

É óbvio que você já teve ter assistido o filme Matrix, não é mesmo? Mas se, por acaso, nunca assistiu antes, não se preocupe, porque a narrativa de fundo é mais previsível do que você pensa. A história gira em torno do personagem Thomas Anderson, um programador de computadores que vive uma vida comum, sem muita surpresa, ou algo do tipo, até que um belo dia descobre que sua realidade é uma grande ilusão comandada por uma série de máquinas que se alimentam da energia de humanos. Além dessa descoberta assustadora, Anderson também percebe que ele é o protagonista de uma guerra decisiva entre humanos e máquinas, sendo o escolhido (chamado de Neo), aquele que deve liderar a batalha contra as forças sombrias. Ou seja, por trás da realidade cotidiana chata e sem sentido de Anderson, com um emprego sem graça, sem muita novidade ou energia, existe um verdadeiro mundo onde a raça humana foi colonizada por robôs. Ao menos essa é a leitura padrão. Mas e se for possível arriscar um pouco mais, indo além dessa leitura simplificada, quase infantil? Seguindo um percurso psicanalítico, na fronteira da própria filosofia, não vamos simplesmente criticar o filme Matrix, mas inverter sua ordem, colocando tudo de cabeça para baixo, saindo assim  de uma leitura comum. Em termos de um marxismo clássico, ortodoxo, o mundo de Mr. Anderson é a tão fomosa ideologia, enquanto o mundo distópico fora da Matrix é a verdadeira realidade. Mas e se for o contrário? E se o mundo épico fora da matrix for um reflexo de uma estrutura ideológica, enquanto o mundo cotidiano, chato, e sem um sentido de partida, for a dimensão mais próxima da realidade?

 

A ilusão de que existe algo fora da esfera contingente da linguagem, alguma coisa concreta que podemos alcançar, ao menos quando um método especial é usado, como o científico, religioso ou artistico, acaba sendo uma miragem produzida por essa mesma cadeia de significantes que chamamos de linguagem, principalmente quando o cotidiano é rasgado por um abismo insistente, repleto de problemas, frustrações e dúvidas. Thomas Anderson, através de um passe de mágica cheio de conveniência, é transportado direto a um mundo onde sua vida não apenas tem sentido, como acaba também ganhando contornos épicos, já que ele agora é o protagonista de uma nobre batalha entre bem e mal. Ou seja, Anderson escapa de uma realidade complexa, chata, repetitiva, e sem um sentido claro, e mergulha direto em um universo onde ele é o escolhido (o Neo), onde uma nobre batalha espera pela sua sabedoria e liderança.  Não seria esse o fundamento de toda forma ideológica, ou seja, a crença de que não apenas existe algo fora do pacote frágil de signos e experiências que chamamos de linguagem, mas que esse ALGO também apresenta contornos claros, além de incluir a mim mesmo como uma espécie de peça chave. Talvez a crítica da ideologia, e a busca por uma saída confortável, seja também uma ideologia. Talvez a fuga da alienação seja uma forma elevada e vaidosa de alienação. Em outras palavras, ao invés de ser alienado em um mundo em que não tenho papel, onde sou excluído o tempo todo, agora sou alienado em um mundo onde eu sou o escolhido, onde uma batalha nobre me aguarda e espera por minha sabedoria fundamental.

 

Meu vínculo com o mundo, e com as pessoas ao meu redor, jamais é direto, espontâneo, verdadeiro. Eu não entro em contato direto com seu corpo, como se fosse um pedaço de matéria concreta e descentrada, mas sempre mediado por um pacote de significantes, por uma linguagem. Se você pensa que a realidade virtual é coisa de computador ou internet, ou mesmo reflexo de um mundo contemporâneo e sua atmosfera binária, então você precisa repensar tudo de novo. Toda realidade já é virtual. Todos vivem em um espaço de ficção, já que não entro em contato com outros de forma direta... na verdade,  nem sequer tenho acesso a mim mesmo de forma direta, espontânea. Vamos ao exemplo: Imagine que alguém, talvez um pervertido qualquer, tenha  instalado uma câmera no banheiro de sua universidade e acabou de postar um vídeo seu tendo a pior diarreia de toda a sua vida. Imagine que esse alguém registrou todos os detalhes constrangedores desse episódio escatológico. Qual a sua reação? Provavelmente vergonha.  Mas pense um pouco... não faz sentido!! Afinal, ela é uma reação fisiológica comum, uma circustância presente na vida de qualquer criatura com um cu bem desenvolvido. Ou seja, qual o motivo da vergonha? Esse sentimento apenas surge porque a imagem que eu tenho de mim mesmo, costurada por uma cadeia de significantes, foi comprometida por um certo excesso, por algo mais REAL, transbordante. Se eu fosse a pessoa que eu mostro ser, se a minha linguagem fosse compatível com o excesso do meu corpo, a vergonha seria uma reação incompreensível.

 

No cotidiano, o Outro jamais entra em contato comigo diretamente, jamais acessa a verdade de mim mesmo, mas sempre uma simples imagem, uma simplificação, ou seja, ele entra em contato com a parte virtual de quem eu sou, aquela parcela inscrita na linguagem e em suas conveniências. A diarreia, nesse caso, compromete esse virtual, manchando seus contornos, ao mesmo tempo que prejudica o OLHAR do Outro sobre mim. Claro que esse exemplo escatológico é apenas um dentre milhões que poderiam reforçar meu argumento chave de que não apenas toda realidade é fundada em uma rede virtual de interações, como precisamos que seja assim, caso contrário nenhum vínculo seria produzido. Não posso criar vínculos sendo um corpo descentrado e transbordante. A criação de laços, não importa quais sejam, depende da miragem de um EU estável, consistente e confiável, o que pede por uma atmosfera virtual que garanta toda essa sólida conveniência. Em outras palavras, a possibilidade de um mundo fora da linguagem não apenas é algo impossível, como indesejável, já que tornaria a vida em comum um sonho distante. Fora da Matrix não existe um mundo épico, uma luta entre bem e mal onde você é o protagonista... o mundo fora da Matrix pode acabar sendo apenas uma outra Matrix mais conveniente e mais confortável. Talvez o mundo do aqui e do agora, cheio de altos e baixos, falhas e incoerências, seja o mais próximo que temos de um possível mundo REAL.

 

 

 

REFERÊNCIA DA IMAGEM:

 

https://www.empireonline.com/movies/news/wachowskis-said-working-new-matrix-project/

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