Escute, Zé-Ninguém!

March 30, 2020

 

 

 

Oi, zé-ninguém! Falarei sobre você. Wilhelm Reich, psicanalista austríaco, fez uma anatomia da sua personalidade[1].

 

Seja homem ou mulher, saiba que és uma pessoa comum, mediana. Alguém incapaz de fazer autocrítica, pois odeia admitir fraquezas. Zé-ninguém, você não gosta ou tem medo de ser criticado; não tolera a contrariedade, fica todo nervoso quando está acuado. Começa a atacar a pessoa, em vez de usar argumentos racionais.

 

Zé-ninguém, você tem aversão a pensar de forma independente; tem pavor de pensar que você mesmo possa um dia ser diferente do que é agora. Se acha livre, mas no fundo é escravo. Não governa ou dirige sua própria vida. É um servidor incondicional da própria ignorância! Tem medo da profundidade! Ignora o fedor do subsolo da sua consciência.

 

Todos temos um zé-ninguém, uma sombra que nos acompanha! O homem e a mulher comum vivem dominados pelo zé-ninguém; jamais conseguem admitir medos interiores, e, em geral, projeta grandeza em outros espíritos. Zé-ninguém não gosta ou é incapaz de assumir responsabilidades perante a sociedade; terceiriza responsabilidades! Jamais pergunta se seus pensamentos estão certos ou errados. Não, ele ou ela sempre achará que está certo, insensível aos erros.

 

Zé-ninguém acredita que o mundo será melhor desde que tudo esteja configurado de acordo com suas crenças. Ele/ela é um fervoroso nacionalista, e segue apologistas chauvinistas que pregam grandeza nacional, interesse nacional, pátria superior, vontade ou voz povo e fala de cidadãos de bem.

 

Zé-ninguém despreza a si mesmo. Por quê? Não reconhece debilidades. Projeta gurus e redentores e ativa seu lado irracional, passional, com gritos de “hurra”, “mito”, “herói”, “salvador”.  Mas tem medo, foge de si mesmo. Zé-ninguém é uma pessoa doente, tem distúrbios psíquicos.

 

Zé-ninguém adora dizer como outros deveriam ser; é um moralista recalcado. Inveja-os e ataca-os por serem livres. No fundo gostaria fazer a mesma coisa, mas é covarde. Está preso a dogmas, e comportamentos repressores. A sua ideologia é o zé-ninguemismo.

 

Zé-ninguém só conversa com pessoas que dizem o que ele quer ouvir. Não acredita que criaturas próximas possam fazer coisas grandiosas, teorizar, pensar além da caixinha conveniente. Inveja aqueles que alcançaram sucesso. Sempre coloca defeitos neles; não admite a competência, o brilhantismo, a inteligência. Por não perceber algo grandioso no outro, zé-ninguém continua pequeno.  Ele adora diminuir a potência dos outros e acha que é feliz.

 

Zé-ninguém, escute! Estou falando com você. Por favor, seja você mesmo! Não o jornal que você lê, a propaganda tosca do dia a dia, a desopinião do vizinho, ou a bolha virtual ao qual está inserido.  São cantos da sereia calculado para atrair sua atenção! Não aja como gado ouvindo o berrante pastoral.  Zé-ninguém, leia mais, frequente bibliotecas, participe de palestras ou conferências, busque independência intelectual, diversifique suas bibliografias. Não veja um vídeo no youtube ou facebook e pague de grande visionário ou sabedor das letras, da arte, da filosofia, da ciência. Não saia por aí falando sobre tudo, vomitando besteiras. Admita não conhecer muitas coisas. Prefira o silêncio. Não seja um medíocre e leviano!  Não viva cercado de outros zés-ninguéns! Não seja um idiota útil!

 

“Troque suas ilusões por um pouco de verdade. Livre-se dos seus políticos e diplomatas. Tome seu destino nas próprias mãos e construa sua vida sobre rocha. Esqueça-se do seu vizinho e olhe para dentro de si” (REICH, 2007, p.71).

 

Novamente, escute-me, zé-ninguém, seja senhor/senhora de seus pensamentos. Você inventa bodes expiatórios, inimigos imaginários, porque acredita que todos os problemas do mundo são justificados por algum oponente externo. Não admite um mundo falho e imperfeito. Chamar alguém de comunista, fascista, esquerdopata, faz você sentir-se uma pessoa moralmente superior, porque no fundo sente-se inferior, e tem pouca consciência disso.

 

Falo com você, zé-ninguém. Sabe por que você é racista, homofóbico, machista, demofóbico, misógino? Porque a vida inteira foi atormentado pela falta de vigor; é um desgraçado, pequeno, fétido e mentalmente mutilado.  Tem uma vida extremamente rígida, controladora, sua existência é vazia. Sua mente é uma prisão de ventre.

 

Zé-ninguém, você troca a sua liberdade pelo autoritarismo; prefere a ordem, a autoridade, porque repudia e ojeriza quem é livre e autônomo. Incapacitado de autoanálise, persegue quem tem espírito libertário e criativo. Você é inábil para desenvolver-se, porque sempre se serviu do que o outro lhe entregou já pronto.  Põe a segurança acima da verdade. Qual verdade?  A de que não consegue encarar seus grilhões, seus demônios internos; incapaz de olhar-se diante do espelho e perceber sua pequenez. É hostil a si mesmo!!

 

Zé-ninguém, você não gosta da pluralidade. Seu mundo é rosa ou azul, mocinhos ou vilões. No seu ideário, todos deveriam ter a mesma religião, seguir os mesmos costumes, idolatrar um mesmo líder. Seu lema é: “Abaixo à diversidade!"

 

Zé-ninguém mulher, pare de reprimir a sexualidade das crianças e jovens, de negar-lhes uma educação adequada, para que possam aprender a lhe dar consigo mesmas sobre as reações do corpo e as relações amorosas. Sabe por que você faz isso? Porque sente-se feia, odiosa, mal-amada, amarga, reprimida sexualmente. Frustrou-se durante a vida! Foi maltratada! Quer ver os outros frustados. Você só é feliz na infelicidade alheia!  Tem fobia de qualquer expressão livre, viva e natural. Nega a força vital que corre em suas veias.

 

Zé-ninguém, você não aceitou os direitos civis, pois “ultraja a liberdade que lhe é conferida pelas instituições democráticas. Você faz o possível para destruir essas instituições em vez de lhes dar raízes firmes na sua vida cotidiana” (REICH, 2007, p.77).

 

Zé-ninguém, numa sociedade que preza pela liberdade de opinião, você confunde o direito de tal de liberdade de expressão e de crítica com o direito de cometer indiscrições e fazer piadas idiotas, babacas, ofensivas. Engrandece o politicamente incorreto, enaltece suas pobres verborragias. Sua natureza é realmente triste.

 

Zé-ninguém, você diz que todo mundo tem opinião, que pode falar qualquer tolice, mas esquece que a opinião precisa ser baseada em fatos e dados verídicos, afora isso são baboseiras e crendices estéreis. Hoje chamamos isso de pós verdade, ou simplesmente de enaltecimento da ignorância. Esteja onde estiver, na verdade, “você é um pobre diabo, cuja opinião não vale nada, que sequer tem opinião” (REICH, 2007, p. 87).

 

Mas não se desespere! Você pode tomar as rédeas e domar seu zé-ninguém.

 

 

 

[1] REICH, Wilhelm. Escute, Zé-Ninguém! Tradução de Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

Link da Imagem: https://twitter.com/EscutaZeNinguem

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