Crônica do desmundo, da desmorte e de uma quarentena (ou Edgard Allan Poe contra o demônio ético)

 

 

Os dias parecem perdidos num inesgotável vórtice. Durmo e acordo sob uma tristeza que encapota o mundo. Às duas e quarenta da madrugada de uma quarta-feira bem adomingada, após sair do banheiro, dou de frente com o diabo sentado ali no sofá da sala. Não é medo o que me toma de súbito, mas dúvida. Aquela figura grisalha e sem luz sentada à minha frente é opaca demais para me convencer de que estou morto e que o jeito a mim reservado de saber do fim das eras veio sob a narrativa de uma pandemia que tornou a todos prisioneiros em suas próprias casas à espera da hora de serem infectados. A espera da morte acaba doendo em meu peito com mais intensidade que a possibilidade de descobrir que já parti dessa para melhor.

 

Paro ereto bem ali de frente para aquele Lúcifer desidratado. Sensação estranha! Parece que ele está constrangido por fazer seu papel de dar as boas-vindas a seu mundo a mais uma alma. Esqueçam o inferno! Criatura como aquela estaria fadada a morar no limbo, no vale das aflições, terra de gritantes “quases”, areias movediças que não matam, embora sufoquem com letargia e sem a menor pressa. A penumbra era seu habitat, e parece que ele está sem saber como me dizer que já é chegada a hora de ser o meu também. É estranho, pois nunca ouvi falar de demônio ético e piedoso. De injustiçado, até já, mas de piedoso...

 

Enquanto eu o observo, ele permanece ali parado a me observar de volta e sem dizer sequer um monossílabo, com aquele olhar a se mover como quem dança em pensamento uma dança fantasiosa, um reflexo do ritmo da grande dança das estrelas, dos astros, sendo velocidade e harmonia, sendo luz fria, desalmada, espremida no limite entre universos, aberta ao multiverso, relida em multiversos, cantada a partir dos acordes de um olhar vago e sem muita energia, sem alarde, presença que constrange ao se enraizar. Tento um diálogo, mas ele segue na dele.

 

Mas é verdade que tem olhares que, mesmo distantes, falam perto do nosso peito. E o olhar do anjo caído, no meu sofá, tão abatido, fez com que eu recordasse de quando em sonho vi o mundo depois do mundo por mais de mil vezes. Deus e o diabo eram, nesses seonhos, muitos, eram seres difusos e que bebiam taças de bourbon em mesas vizinhas e, naquelas manhãs, mas em suas casas, café preto colombiano sem açúcar. E eles importavam e exportavam, ditavam as regras da política mundial e faziam de simples mortais, como eu, cobaias de seus fármacos. Mas ali, inerte sobre o sofá, o tinhoso estava condenado a fraquejar diante da missão de trazer um recado doutro lugar, direto do desmundo, não do inferno, definitivamente.

 

E quem sou eu na fila do pão comprado após algumas pessoas respeitarem a distância de dois metros umas das outras, enquanto outras, não? Logo eu, que sempre fui tão cético, a mim é dado poder ver quando já não estou mais aqui para sentir na pele. Não, eu me recuso a acreditar! Ora, se Paul McCartney, meu beatle favorito e o mais vivo de todos, o próprio símbolo do eterno retorno do alvorecer das eras nos versos de Live and let die, se até ele está andando e irradiando luz por aí após a replicação ad infinitum da teoria por trás da placa IF1967, do lado de lá da Abbey Road, por que eu vou acreditar que o coisa ruim iria se dar o trabalho de vir pessoalmente me dar um recado, ainda mais nessas condições de espírito em que ele se encontra?

 

Então tarde, já bem tarde, no alvorecer que parecia vazio de vida, descubro, já sem susto, que ali estava mais um corpo, mais uma vítima da Covid-19, sem coragem de me dizer que já vejo tudo do lado de lá. E, como ele continua a ser ele mesmo após tanto morrer, segue eticamente ali sentado com os olhos meio abertos, segue em silêncio, enquanto eu prefiro voltar aos versos de Edgard Allan Poe, desconsiderar a missão de um demônio tão incompetente e seguir a vida

 

Resolvo, enfim, ignorar àquele visitante pitoresco. Com isso, sua opacidade vai crescendo até o ponto de ele sumir. Logo após, antes de mergulhar nas páginas do mestre dos contos de horror, sigo até a varanda e de lá vejo a chuva que cai forte. Cinco e cinquenta e um da manhã. Debaixo dos pingos, tudo parece voltar ao que era antes, inclusive o inferno, que, assim como observado por Sartre décadas atrás, continua a ser os outros, hoje, especificamente, alguns bêbados que correm por toda a extensão da rua lá embaixo, indiferentes aos dias de sombra que vêm se vestindo com um manto pesado e cinzento, mesmo quando o sol cumpre seu papel, isto é, mesmo quando as nuvens não embolam o seu meio de campo. Como se absolutamente nada de doloroso houvesse se abatido sobre a humanidade, esses ébrios, que certamente nunca refletem sobre ela, humanidade, correm parecendo dançar sobre o gelo e cantam como se estivessem num filme dos anos dourados de Hollywood, mas com um pouco menos de glamour, é verdade.

 

REFERÊNCIA DA IMAGEM:

 

https://jornaldebrasilia.com.br/cidades/chuvas-fortes-e-rajadas-de-ventos-deixam-brasilienses-em-alerta/

 

 

 

 

Compartilhar
Please reload

RECEBA AS NOVIDADES

        PARCEIROS

© 2019 por Soteroprosa | Design por Stephanie Nascimento. Implementação e suporte por Wix.com.