• Carlos Henrique Cardoso

Acabou Chorare: uma homenagem a Moraes Moreira


Alô, alô pessoal do alo! Hoje a dica não é nenhum filme, série, ou livro, como muitos estão acostumados. O papo é sobre música, mais precisamente um álbum legendário lançado pelos lendários Novos Baianos. O grupo formado em Salvador, em 1969, partiu para o Rio de Janeiro firmar residência em um sítio na Zona Oeste da cidade. Foi lá a gestação do segundo LP da banda, o magistral “Acabou Chorare”, lançado em 1972. É considerado um dos melhores registros fonográficos já produzidos no país. Na fonte, deixo o link para a audição inteira desse discaço. Estava na hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.


Influenciados por João Gilberto, compuseram verdadeiras obras-primas, muitas delas iniciadas por um vigoroso violão. A começar do clássico “Brasil Pandeiro”, uma saudação ao mais tradicional dos nossos ritmos, o samba. Dando sequência, o instrumento aparece mais uma vez na interiorana “Preta Pretinha”, outro clássico. “Tinindo Trincando” é um rock que destaca bem a guitarra de Pepeu Gomes e a voz de Baby do Brasil (na época, Baby Consuelo). Em “Swing de Campo Grande”, lá estava mais uma vez o violão dando os primeiros acordes de um bom samba.


A quinta faixa é a embalada, apertada, acendida, e enfumaçada canção que dá nome ao disco. Tão deliciosa quanto despretensiosa, fala de uma abelha e um carneirinho – com seu “suave mé” – que perturbam o sono de toda a turma. Toda levada num violãozinho porreta, interpretada de maneira malemolente.


“Mistério do Planeta” tem um gostinho hippie, assim como “A Menina Dança”, com sua pegada bem setentista, com letra bem viajante. Ao que parece, fala da brincadeira de mexer a pupila – conhecida como “menina dos olhos” – pois “se você fecha o olho, a menina ainda dança”. O gostoso samba de um domingo ensolarado aparece em “Besta É Tu”, com um refrão pegajoso repetindo o título da canção, onde a morena do Rio é admirada e se derrete toda “só porque eu sou baiano”. Apesar de estarem sitiados na Cidade Maravilhosa, deram o recado sobre suas origens. A faixa final é a instrumental “Um Bilhete pra Didi” com um solinho matreiro de guitarra e uma pegada bem nordestina.


Nunca resenhei discos aqui no Soteroprosa, porém, fui impulsionado a fazê-lo. Sempre digo que homenagem se faz em vida. Nem sempre isso é possível. Preferia não ter escrito esse texto, ter resenhado esse maravilhoso álbum antes, ou em outra oportunidade. No entanto, o pombo correio que voou depressa, levando uma carta para meu amor, retornou trazendo no bico uma lamentável notícia: o falecimento de Antônio Carlos Moraes Pires, que pegou o Moreira não sei aonde, e aliou a um dos seus sobrenomes para se tornar um dos grandes talentos da música brasileira, líder do monumental grupo que lançou o registro que acabei de falar alguns parágrafos atrás, e compositor de todas as músicas (exceto “Brasil Pandeiro”). Muitos críticos musicais o colocam na linha de frente do cancioneiro baiano, junto a Dorival Caymmi, Gilberto Gil, e Caetano Veloso. Foi um divisor de águas do carnaval soteropolitano ao ser o pioneiro da vocalização no trio elétrico. E compôs grandessíssimos sucessos que alucinam a multidão. Descreveu o nascimento do trio elétrico a partir da apresentação da Orquestra de Frevos Vassourinha, em “Vassourinha Elétrica”. Falei para alguns amigos que a Bahia tem quatro hinos: O Hino ao 2 de Julho (oficial); O Hino ao Senhor do Bonfim; Hino do Esporte Clube Bahia (muita gente vai contestar esse, normal. Uma das versões desse hino foi imortalizado em versão frevo pelo próprio Moraes); e “Chame Gente”. Até quem não curte carnaval já se pegou cantando essa música alguma vez.


A morte de Moraes ocorreu durante um período difícil, onde o isolamento social não permitiu que se fizessem as devidas homenagens a sua importância. Nesse instante onde muitos estão sensíveis com a pandemia, sua partida foi ainda mais sentida. E tudo tende a demorar. Uma frase da música “Anda Nega” sintetiza esse momento: “os caminhos difíceis estão abertos”. Quando recebermos a mensagem de abolição deste problema e nos sentirmos livres novamente, quem vai cantar é a galera dessa cidade nação.


Moraes se foi, mas seu legado permanecerá. A música está de luto e muitos parceiros de som sofrem a dor do seu desaparecimento. Mas a vida continua e temos que dançar a dança. E a dor vai continuar balançando o chão da Praça, enchendo de alegria o Poeta. Seus admiradores vão continuar a tê-lo como referência, fazendo arte com pandeiro, matemática, e loucura.


Ide em paz, Moraes! Atravessando os Sete Mares e por todos os lugares!


Fonte:

https://www.youtube.com/watch?v=BoYP5oHMX9I


http://carnaval.salvador.ba.gov.br/o-carnaval/historia/






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