• Alan Rangel

A rachadura no credo liberal

"A essência da filosofia liberal é a crença na dignidade do indivíduo, em sua liberdade de usar ao máximo suas capacidades e oportunidades de acordo com suas próprias escolhas, sujeito somente à obrigação de não interferir com a liberdade de outros indivíduos fazerem o mesmo”. (MILTON FRIEDMAN)



Para aceitarmos viver uns com os outros, de uma forma mais ou menos suportável, é preciso partilhar de alguma cosmovisão. Um superego compartilhado. Pra funcionar, é fundamental que ocorra sempre um trabalho de ritualização. Crença e ritual precisam ser bons companheiros. Se uma falha o outra cai. E quanto mais pessoas, em um determinado território, mais difícil é fortalecer e cristalizar a crença.


A crença liberal (política, moral, econômica) tem falhado século após século na encarnação de seus valores. Seja pela inabilidade das instituições no processo pedagógico, seja pela impossibilidade de cumprir as suas promessas, de uma sociedade mais livre, segura, eficiente, provedor de mais oportunidades, enaltecendo a autonomia e criatividade individual. A carne não incorporou o espírito santo liberal.


De acordo com Merquior (2014) [1], o pensamento liberal partilha de quatro pilares ou liberdades fundamentais: a) liberdade negativa, ausência de interferências arbitrárias; b) liberdade positiva, participação nos assuntos públicos; c) liberdade interior, de consciência e crenças e d) liberdade pessoal, o indivíduo na busca de autodesenvolvimento ou autoaperfeiçoamento.


Especificamente, a premissa moral/espiritual, parte da ideia de que os indivíduos são conscientes, donos de si, capazes de tomar as próprias decisões, serem seus próprios artificies. Não há ninguém que saiba julgar melhor as decisões do que o homo liberalis. Isso tem repercussão na política (governos limitados e instituições representativas), no estado de direito (ninguém está acima da lei e todos são iguais perante ela) e na economia (a grosso modo, todos são livres para empreender).


Ainda na elaboração do homo liberalis, deve ele fazer suas próprias escolhas, dar sentido à sua própria existência. A lição é simples: não se meter na vida dos outros! Não obrigar o outro a ser como você! Não se intrometer no projeto alheio! Não meter o nariz onde não é chamado! Não forçar ninguém a se casar! Não impor uma religião a outrem! A ideia básica é: qualquer pessoa pode ser quem bem quiser, desde que não atrapalhe o caminho do outro. Está aí, inclusive, a ideologia da meritocracia. “Você pode! Você consegue! Você é capaz! Você pode ser bom! Você precisa se esforçar! Você vai chegar lá!”. Mas isso tudo tem um custo a ser pago: a responsabilidade individual.


Se essa crença não funciona bem na vida prática, é porque as condições sociológicas (os contextos sociais de cada lugar) não garantem sua efetivação, ou, simplesmente, há uma incapacidade de incuti-la nas pessoas. Sem esse trabalho de efetivação de mudanças claras, o liberalismo e todas as suas variantes, na política, no direito, na cultura, na moral, na economia morre aos poucos. Se mais e mais pessoas perdem as esperanças no poder de confiança na cosmovisão liberal, é evidente, e não há segredo nisso, que outras crenças entrarão no jogo, oferecendo algo supostamente melhor.


Os primeiros contestadores o ideário liberal, em alguns aspectos, foram os conservadores moderados do século XVIII; depois os socialistas, no século XIX, apontando para os diversos problemas desse modelo político, econômico e cultural; por fim, os modelos nazi-fascistas e suas variantes, junto ao totalitarismo socialista do século XX. Todos aqui contestando o modelo liberal e suas rachaduras.


As sociedades modernas liberais vêm sofrendo vários sintomas a longo da sua história: egoísmo social, consumismo enlouquecedor, individualismo exacerbado, isolamento, apatia política, desemprego, mercantilização da vida, miséria social. Outras doutrinas tendem a ganhar força e aparecer prometendo uma vida muito melhor.


Livros, filmes, séries, propagandas ideológicas virtuais retratam outras narrativas mais convincentes e, supostamente, mais eficientes, num mundo pré e pós liberal, com ou sem capitalismo, com democracias alternativas ou antidemocráticas. Elas sugerem a uns uma vida mais vigorosa, aventureira, guerreira, desbravadora, hierárquica, religiosa; a outros uma vida mais solidária, comunitária, igualitária, não competitiva. Não necessariamente essas variações sejam contraditórias, pois podem até misturar-se. Mas todas elas são novas, velhas ou combinações de narrativas que se contrapõe a gramática liberal.


A extrema direita, atualmente, em voga e fervorosa, é exatamente a descrença na construção moderna-liberal, desse mundo que prometeu autonomia, felicidade, progresso social. Esses grupos estão descontentes, e olhando pelo retrovisor na esperança de dias melhores, pois anseiam por uma cosmovisão alternativa. Um exemplo são as pessoas que evocam uma suposta sociedade medievalista, às vezes muito mal compreendida, diga-se de passagem, mas que certamente incorpora o imaginário popular de um cenário desbravador, guerreiro, mágico etc. Também, muitos acreditam em lideranças populistas que prometem uma nova era. Ou a forte presença das religiões que contestam o estado de direito e da moral liberal.


Para entender esse movimento reacionário, reação ao modelo democrático e liberal, individualista em sua essência, é crucial questionar se de fato a ideologia soube instalar uma pedagogia liberal, e se foi competente em cumprir sua promessa ética, a saber: se os indivíduos tornaram-se realmente instruídos e capazes de seguirem seus próprios cursos, sem precisar do Estado, gurus ou pastores. E, na esfera econômica, se nas relações de troca no capitalismo houve um benefício mútuo; ou seja, se as associações livres e os resultados de ações não intencionais produziram o tão esperado equilíbrio social ou coletivo.


Alguns interrogações. 1 - Alcançamos uma junção de vida material e espiritual satisfatória comparada a outras sociedades? 2 - O estado foi capaz de propagar um ethos democrático-liberal fortalecendo a crença na coletividade? 3 - O chamado liberalismo social (promotora da igualdade de oportunidades) deu conta de resolver as falhas do liberalismo clássico? 4 - A junção de capitalismo e liberalismo democrático está com os dias contados com essa nova crise planetária?​


Leitores, se a crença falha é porque ela não ritualizou adequadamente. Simplesmente, a própria crença é também uma crença mal definida em sua origem. Talvez a casa sempre fosse de papel. Sendo liberal em vários aspectos da vida, acredito que devemos começar a pensar melhor sobre os sintomas atuais, e propor novas formas de aperfeiçoar a convivência. Não podemos ignorar o espírito do tempo.


Até a próxima!


['1] MERQUIOR, José Guilherme. O liberalismo - antigo e moderno. São Paulo: É Realizações, 2014.


Fonte da imagem: https://www.pensador.com/frase/MTU1NzQ5OA/

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