• Gabriel Brito

Ser ou não gado? Eis a questão!




Fulano se sente livre e corajoso por se opor à grande mídia, à paranoia e à histeria diante da pandemia de Covid-19. Beltrano pega pesado com pessoas agredindo jornalistas e enfermeiras em defesa do Bolsonarismo. Uma coisa que não esquecemos é de nos posicionar!


Pois bem, agora vamos usar filosofia para “teorizar”, mas com o objetivo utilitário de questionar posicionamentos. Deleuze e Guatarri, de Mil Platôs, vol.2, afirmam que a linguagem transforma as pessoas (mas não “fisicamente”). Isto é: quando um juiz estabelece uma sentença, o, digamos com o Facebook, tem seu “status” atualizado para “culpado”. Essa mudança de status não é apenas na “linguagem” (o culpado vai cumprir uma pena!). Percebe-se, então, que a linguagem “participa” das “ações no mundo”, modificando o “status” das “relações” e, assim, gerando mudanças (agenciamentos).


Bom, em segundo lugar temos os agenciamentos corpóreos (físicos, mesmo) em que as pessoas são, de fato, transformadas. Deleuze e Guatarri não desenvolvem muito essa linha de raciocínio, mas eu ouso fazê-lo com minha etnografia da Covid-19 em Pernambuco. Mas vamos para um exemplo prático de novo, e real: Fulano corajoso que desafia a mídia, é contra o isolamento social, está lidando com o agenciamento 1, da linguagem, resistindo a um discurso que está sendo veiculado pela grande mídia e pela OMS. Porém, o agenciamento 2, o físico, refiro-me à circulação do vírus, está “mais lento”, chegando depois, em sua cidade, que a notícia sobre o vírus de Wuhan, na China. Eu diria: é fácil dizer “é uma gripezinha” “a distância”, quando apenas a linguagem está gerando as “palavras de ordem” e modelando “a sociedade” e “cultura do consumo e do entretenimento”, por exemplo.


No segundo exemplo, o de nosso Beltrano que pega pesado com pessoas violentas, digamos que ele seja a favor da Ciência (da Saúde) e da OMS, por tabela também da Globo, que carrega e gera as “palavras de ordem” em oposição à Ciência defendida pelo discurso oposto, isto é, a Econômica (ou parte dela). Beltrano se posicionou, defendeu a Razão científica (biomédica); Fulano também, mas defendeu a liberdade acima de tudo (inclusive dos outros!). Ora, mas se Deleuze e Guatarri estão certos, e eu concordo com eles conforme coleto dados de campo em minha pesquisa, vejo que no agenciamento 1, temos uma possibilidade de posicionamento dos corpos (Fulano e Beltrano) conforme as informações ordenam como os corpos devem se colocar “socialmente”; Fulano é contra a ordem do isolamento; Beltrano é a favor. No agenciamento 2, o físico, nem Beltrano nem Fulano se tornaram portadores do vírus, portanto, o agenciamento físico ainda não os afetou “pessoalmente”, mas isso pode acontecer (É esse tempo de “antes” e “depois” que pretendo investigar). Todavia, se ambos participam de agenciamentos que não iniciaram, mas que defendem, temos um problema central: da capacidade de ação, reflexão, crítica de Fulano e Beltrano e do papo sobre “Estrutura” dominante. E acho que aqui está faltando uma coisa que deixo pro final (valores).


Deleuze e Guatarri estão explicando a mudança do seguinte modo: Fulano e Beltrano são dois agentes: eles entram no movimento da linguagem e se posicionam. Porém, no caso da Covid-19, defendo a ideia que houve uma quebra da ordem social (na sociologia pragmática se chama momento crítico) e no “pós-marxismo” (a ordem social precisa ser suturada – ver Laclau e Mouffe): como se duas estradas fossem colocadas e Fulano e Beltrano escolhessem por qual delas querem seguir. A diferença de poder entre eles e a “estrutura” – na verdade nos agenciamentos e redes que chegaram linguisticamente até eles – é que eles não construíram as duas vias, mas decidiram segui-la. Só que, ao segui-las, eles levam adiante “a estrutura”, seja de governo, seja da OMS, eles “reterritorializam” as relações e posições sociais.


O problema do maniqueísmo (forças do bem contra o mal, como Xuxa contra o baixo astral), é que essa linguagem toda de Ciência versus Liberalismo se reduz a algo muito simples: a um debate sobre o bem e o mal; ou, no melhor dos casos, sobre um discurso sobre ciência e razão versus crença e irracionalidade ou emoções (tal como o sexismo sempre fez com relação ao homem ser “razão” e a mulher “emoção” e, portanto, irracionalidade).

Disse antes que falaria sobre o que falta nessa equação. Digo-vos: valores. Os exemplos acima, de Fulano e Beltrano, mostram a sociedade passando por uma crise e se “remontando”, reconfigurando. O que não aparece nesse cálculo é o SENTIDO¹ que está o tempo todo ao lado de cada um dos debatedores. O sentido que eles dão para as suas ações estabelece quais são os critérios de bom e mau com os quais eles querem viver. A grande questão é que esses critérios são relativos: o bom para Beltrano é a liberdade; o de Fulano é a solidariedade do isolamento. Além disso, esses critérios estão sendo defendidos diante de uma das maiores pandemias que esses continentes já sofreram! Ou seja: amanhã, ou um ano atrás, o gado era Fulano e sua irracionalidade, hoje o gado parece ser Beltrano, com medo dos lobos (a Covid-19), em seu cercado, pregando pela racionalidade em tempos de crise.


Posicionando-me, finalmente, digo-me “gado”: o bom Wilbur (filme, 2006, ver imagem), “um porco em tanto”, pronto pra ler durante a quarentena a “revolução dos bichos” e sonhar com um mundo sem pandemia e sem o outro que me atormenta, como morcegos no teto de meu quarto, fazendo-me sonhar que estou me sufocando. No entanto, jamais me esqueço dos bons e dos maus por trás de cada momento das transformações de escala ampla em que os povos vêm tendo que lidar. Davi Copenawa, escritor, xamã e líder Yanomami, já nos alertara em seu livro, sobre “a Queda do Céu”. Porém, os colonizadores cristãos e seus exércitos europeus, também, com seus velhos e novos testamentos! Ora, o que dizer então, sobre essa loucura de narrativas: o tempo entrou em crise, pois ele também existe como memória, como norma: estamos vivemos não uma crise do tempo, mas uma crise de tempos múltiplos cuja interface se deu pela pandemia de Covid-19. Disso eu não tenho dúvida. O resto é maniqueísmo disfarçado de evolucionismo e superioridade humana (em suas versões de direita, Fulano, e de esquerda, Beltrano). Novamente as bactérias e microorganismo surgem para redefinir os fluxos de seres e coisas, enquanto a humanidade se projeta para um futuro cujo maior fetiche tem sido, quase sempre, o amor pela tecnologia.


1: Baseio-me no livro de Bruno Latour (2019): Investigação sobre os modos de existência – uma antropologia dos modernos.

*: Fonte da imagem: https://www.clarovideo.com/brasil/vcard/homeuser/A-Menina-e-o-Porquinho/532417

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