Representatividade, defectividade e conexão em Você Nem Imagina

May 7, 2020

 

  

 

 

“Uma coisa boa de ser diferente é que ninguém espera que você seja igual aos outros."

 

 

O longa americano Você Nem Imagina, que acaba de estrear na Netflix, pode, à primeira vista, parecer mais um clichê de comédia romântica fofa, das inúmeras que vem aparecendo para nos dar um respiro nesta quarentena.

 

Não que não seja um filme fofo, mas ele ultrapassa esse estereótipo, trazendo discussões mais profundas e fora da caixa dos romances tradicionais.

 

Penso que a indústria cinematográfica vem neste movimento há algum tempo, o que é bastante positivo.

Este já se torna o primeiro motivo para dedicar um tempo do  seus dias de isolamento à película.

 

Eu, particularmente, gosto bastante de filmes que salpicam citações e referências em sua trama. Acredito que isso faz os espectadores irem muito além daquela história, o que pode despertar sua curiosidade para tais obras. The half of it (nome original do filme) é permeado por elas do início ao fim.

 

 

Em sua abertura, traz uma pincelada de O Banquete, de Platão, abordando a visão deste em relação ao amor, através do discurso de Aristófanes, sobre os seres dotados de 4 mãos, 4 pernas, 2 rostos, tão plenos que: “Terrível era o seu poder e força, e os pensamentos de seus corações eram grandes, e eles atacaram os deuses”.

 

 

Assim, estes decidiram separá-los em duas metades, às quais ficariam vagando infelizes e incompletas, buscando a outra metade da sua alma, e a plenitude novamente. Nada mais é do que o mito da almas gêmeas, ainda tão presente na nossa cultura.

 

No entanto, a nossa narradora e protagonista, Ellie, conta esta passagem para, logo após, nos avisar de que “esta não é uma história de amor".

 

 

Realmente não o é! Pelo menos não uma convencional. Acredito ser uma história de amores. Principalmente o amor próprio, que vai sendo descoberto e entendido pela personagem principal ao longo do enredo.

 

Ellie é uma protagonista que personifica a diversidade e a representatividade no romance. A diretora Alice Wu deixa claro que quis mostrar esta referência da normalidade na diferença.

 

A garota é uma chino-americana, que se descobre homossexual. Ela se vê como diferente, estranha, em meio à “igualdade” do ensino médio e se coloca à parte.

 

Seu único contato com os outros - por ser muito inteligente -  é ser paga para fazer suas redações, com o intuito de ajudar nas contas da casa.

 

Esse sentimento de defectividade, faz com que Ellie tenha uma meta, junto com as que precisa cumprir no seu dia: “Afastar-se".

 

 

Wu coloca no exemplo de Ellie, com muita delicadeza, o aprendizado para o espectador de que toda essa diferença, é apenas o seu jeito de ser, como o de cada um de nós. E nisso está a nossa beleza.

 

A comparação e a tentativa de se adequar é algo extremamente cruel para o ser humano. Ninguém é comparável, somos singulares.

 

 

Enfim, a “Representatividade importa”! Quantos romances assistimos com esse viés? E melhor: Quantos romances com esse viés estão em um Top 10 de um streaming de alcance mundial?

 

Esse tipo de enfoque demonstra a quem também talvez tenha a sensação de ser diferente, ter um defeito, de que outras pessoas passam pelas mesmas coisas, normaliza a questão, atenua o sofrimento e cria aceitação.

 

 

O ponto de partida do enredo, vem através de Paul, um jogador de futebol americano que se apaixona pela garota popular da escola, Aster.

 

Diante disso, ele solicita que Ellie escreva cartas de amor para ela, como se fossem dele. À princípio, esta reluta, mas acaba sendo seduzida pelo jogo que se desenrola.

 

 

Um clássico Cyrano de Bergerac revisitado, pois a jovem que “se esconde atrás das palavras dos outros”, o Smith Corona, também acaba se enamorando pela mesma garota.

 

 

E, no entanto, não é só Ellie que se sente diferente. Aster, por estar em evidência social na escola, com um namorado perfeito, sente que não pode ser ela mesma, se igualando às outras da turma para obter esta aceitação: “Sou igual a muitas pessoas, o que faz de mim ninguém.”

 

 

Um outro tema que aparece no filme é o da conexão, que tem uma linha central no roteiro.

 

A protagonista de Wu perdeu a mãe jovem, vive com seu pai que passa por uma depressão contínua após a morte da mesma, e ela se fecha nesse mundo.

 

 

 

Ele só começa a se abrir quando Paul, aos poucos, ganha sua confiança e vai adentrando em quem vem a ser a verdadeira Ellie. A partir daí, nasce um amor de amizade, companheirismo, lealdade, lindo de se ver. Ao se abrir para o amigo, é que a "boneca russa das roupas" permite se conhecer a si mesma.

 

 

Sim, essa é uma história de amor, mas não um clichê, como já falei antes. Um amor próprio! A descoberta de se amar como você é e de perceber que podemos encontrar pessoas que também nos amem dessa forma, seja ele um amor romântico ou fraterno.

 

 

Se não nos abrirmos para essa conexão, dando uma “pincelada ousada", corremos o risco de nunca conseguirmos “um quadro ótimo”, nos contentando apenas com o “quadro bom".

 

Isso vale para os três personagens principais e para nossa vida.

 

E afinal, será que essa alma gêmea tão procurada não estará dentro de cada um, esperando para ser descoberta?

 

Referência:

 

PLATÃO. Banquete, Fédon, Sofista e Político. [Tradução José Cavalcante de Souza, Jorge Paleikat e João Cruz Costa] Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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