Homens, bolas e Covid-19: do cotidiano à antropologia

May 12, 2020

 

 

 

Como pesquisador, antropólogo, e como alguém que participa da realidade que investiga, notei algo inquietante: pessoas de idade variável, mas em sua maioria jovens adultos, em um campinho. No local faltava uma importante “personagem” da “cena”: a bola. O “elenco”, como se diz, estava incompleto. Mas e o isolamento social devido à pandemia?

               

Ontem, dia 11 de maio de 2020, o aplicativo do Ministério da Saúde informava que eram 162.699 casos confirmados de Covid-19 no Brasil. Em Pernambuco eram 13.275, com 1047 óbitos. No dia 12, foram 173.126 casos confirmados (no mundo são 4.233.504)[1]. Ora, “falta a bola” para o jogo: mas não falta a Covid-19, certo? Errado. Como um pesquisador, eu deveria entrevistar essas pessoas. Mas passei, de máscara, e evitei a “aglomeração”, enquanto ouvia as especulações sobre “onde morava o ‘dono’ da bola”. Não havia pessoas que aparentavam, fisicamente, se enquadrar no que chamamos de “meninas, mulheres, moças, senhoras, senhoritas etc.” Havia somente um grupo de pessoas que falamos, em ciência, mas não somente, do “sexo masculino”.

               

O que chama minha atenção, claro, é esse fator: homens, não mulheres. Em segundo lugar, chama a atenção a falta de “cuidado” com a “saúde”. Isso é algo “histórico” ou “cultural”. Histórico traduz “continuidade de hábitos” e, neste caso, nocivos à saúde; “cultural” traduz “geográfico e frequente", pois podemos observar outros lugares e comprovar que outros homens, não mulheres, estão mantendo esses mesmos hábitos de falta de cuidado com a saúde (a sua e a dos outros e outras). Mas não significa que em outros lugares mulheres não estejam, também, furando o isolamento. Além disso, também observo mulheres, aqui, rompendo o isolamento. A questão é que, numericamente, são minoria. Em segundo lugar, estudar um local não autoriza a generalização segundo a qual “furar a quarentena seria um hábito majoritariamente de homens” (é pra isso que existe pesquisa quantitativa, com uso de estatística). Aliás, o risco de não aplicar métodos de pesquisa é cair no erro de achar que uma opinião ou impressão pessoal, “que nem a minha”, pode ser usada para falar de “todos os lugares” (em ciências sociais chamamos isso de “essencializar” ou achar que um hábito ou costume é “permanente” e invariável, neste caso, seria dizer que os homens não cuidam da saúde nunca e em lugar nenhum).

               

Outro elemento também importa, ao menos para minha pesquisa: observo o papel da comunicação, de um lado, e do vírus, do outro. Acredito que os jovens que observei “sabem muito bem o risco que correm”, assim como “o que querem acreditar”, ou “até onde aceitam o que o governo local e a grande mídia” ordenam que eles façam. E isso, é, de um ponto de vista antropológico, importante por nos mostrar que as pessoas “comuns” (não cientistas e agentes do Estado, ou da mídia), não são “somente” “vítimas” da “dominação” e do discurso político e ideológico.

               

Por outro lado, acredito que a realidade vivida pelas pessoas passa por duas situações. Na primeira, apenas comunicativa, as decisões refletem ao menos duas possibilidades: a de indiferença com o “sofrimento” alheio frequentemente noticiada; e, segundo, na descrença “ignorante”, mesmo – de simplesmente não acreditar no que “não vê”, tal como no ditado popular de os olhos não verem e o coração não sentir. A segunda situação, porém, tem sido percebida por outras pessoas também: quando alguém próximo a você falece com suspeitas; quando você mesma, por exemplo, vai dormir com dores nas costas, coriza e, “saravá”, com tosse e febre. A conclusão destas duas situações leva à hipótese de que a circulação de fake news e os posicionamentos de ceticismo e descrença (não indiferença) são predominantes no primeiro momento e, na medida em que não apenas a palavra “covid-19” circula, mas também os corpos tornados cadáveres e, portanto, o próprio vírus passa a habitar o nosso meio ambiente imediato, então tais posicionamentos diminuem quantitativamente.

               

Resultado: caso consigamos compreender esses comportamentos dos jovens jogadores de futebol e suas “bolas” mais importantes que a Covid-19 (e o sofrimento alheio), então, quem sabe, possamos entender melhor o que diabos tem acontecido com nossa própria gente, que desconfia das instituições (ciência, política, STF, congresso, meios de comunicação etc.) em primeiro lugar, e depois lamenta as consequências duras, que, neste caso, a pandemia de Covid-19 tem causado.

 

 

 

 

[1] Fonte: https://www.bing.com/covid/local/brazil?form=C19ANS

*Imagem: link acima.

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