Uma réplica ao debate: O poço é pessimista ou não?

May 20, 2020

 

 

Gostaria de remeter a leitora para o vídeo no canal do Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=DvjoPNDQZLs&t=37s) que deu início a esse debate. Propondo uma síntese entre as três falas apresentadas no vídeo sobre a questão inicial: essência humana, problema histórico e o messianismo (a criança é uma utopia ou um delírio?).

 

Os elementos acima podem sugerir alternativas positivas? Acredito que sim e, por isso, alinho-me mais com uma das falas, a de Jacqueline Gama.

 

Quando assisti o Poço, pensei, “não, não vou ouvir a crítica ‘não tem nada demais’; tem mais coisa aí, não tem só o ‘óbvio!’” (palavra tão repetida em falas do filme). Minha sugestão, inclusive, é que o “óbvio” é quase que uma mensagem subliminar no filme – que te faz “ler” o filme como se isso fosse uma indicação de leitura, um índice que dá o sentido a ser buscado no filme (o que tem de óbvio a seguir?), pois, depois que assistimos, tudo se torna “óbvio” em nossa leitura.

 

Assisti uma segunda vez, quando o pessoal do Soteroprosa propôs um vídeo para comentar o filme. De fato, eu estava cético quanto ao que falar sobre o filme (medo de cair no “óbvio”). Foi então que, no passar do dia, refletindo, escrevendo, percebi outra possibilidade de interpretação: o messianismo do filme (óbvio) operaria um deslocamento na figura masculina do messias (que, na obviedade seria o papel do protagonista), para uma figura feminina, a da criança que aparece no final. Ora, ao pensar assim, o óbvio foi “chacoalhado” e o filme precisou ser “lido” noutra ótica.

 

Em uma cena do filme, a personagem Miharu aparece como uma mulher jovem, transgressora, que não segue o funcionamento do Poço, já que não fica no seu andar, segue por todos os andares a procura de algo ou alguém. O senhor que fala “óbvio” – e quem bem poderia representar “o velho”, o óbvio, a tradição -, Trimagasi, explica para o recém chegado – que pode representar “o novo”, a crítica à tradição -, Goreng, que ela procura O filho.

 

Mais tarde, uma funcionária da administração – que bem pode representar a ideologia política que mantém a ordem social - “esclarece” tudo: não há menores no poço, Miharu entrou “porque quis” – Miharu é a marginal ao sistema. Goreng, junto a Baharat, um novo aliado – que bem poderia representar não somente o marginal, mas o oprimido que acredita na salvação religiosa -, tentam mudar o poço – um comunista ateu e um homem de fé - ao tentar enviar uma mensagem para a “administração cega” que mantém a estrutura funcionando, fazem como Miharu, “transgridem” a ordem de ficar no seu andar e iniciam uma épica jornada contra tudo e todos, e, no final, encontram uma criança.

 

Ora, não havia criança, segundo a funcionária da administra. Em segundo lugar, se existia, era um menino, conforme Trimagasi (o velho), “nativo” do local que falava em nome da “subalterna” – mulher marginalizada, lutando contra estupros a cada andar, e contra a estrutura do Poço que, simplesmente, a consideram (o quê?) – a louca que está vivendo o que procurou. Mas era uma criança, uma menina (supostamente) que aparece. Ela é a mensagem, ao fim do filme, segundo o esquizofrênico que se tornou Goreng, tal qual o Dom Quixote de outrora e seus moinhos, bem como seu fiel escudeiro, aqui, Baharat [pista do diretor bem lembrada por Jaqueline no vídeo]. A menina é a mensagem para a estrutura (administração cega)

 

Mas por que ela seria a messias? Mais, o que isso significa? De um lado, Deus (Goreng) era um homem, um esquizofrênico que desaparece na escuridão do poço, mas que trouxe uma proposta de mudança [o que nega a tese da natureza humana imutável]; de outro lado, a messias [sem pai Divino algum), uma criança, é portadora do novo, como filha de um passado (da tradição), mas produtora de um futuro possível (o que vai de encontro com uma fusão entre a tese histórica e a possibilidade de mudança, negando uma essência humana condenada).

 

Resta, contudo, a questão da solidariedade espontânea. Só que não. O pessimismo do filme traz uma possibilidade de esperança para uma nova geração e, ao mesmo tempo, a condenação para a geração atual. Brindo, portanto, a essa proposta mais humilde, modesta: a solidariedade espontânea leva ao paradoxo de que mudamos a nós, não ao outro, porém, se a “sociedade” é a junção das partes, então, em certa medida, ela muda quando mudamos a nós mesmos [paradoxo]. A velocidade da mudança é que é modesta: o futuro será a continuidade na descontinuidade. O oposto acima, óbvio, é a mudança por imposição, por vias autoritárias (sejam elas de esquerda ou de direita, tenha-se ou não consciência disso). Daí a criança ser, ainda, uma messias, mas não uma redentora do pecado, dantes, o limiar do “alcance da promessa” (de uma promessa de incerteza, apenas de mudança).

 

 

Link da imagem: https://s.aficionados.com.br/imagens/o-poco-6_cke.jpg 

 

 

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