O Estado contra Billie Holiday. O que isso tem a ver conosco?

 

Lendo o livro “Na Fissura”, de Johann Hari, deparei-me com uma história mirabolante. A política de combate às drogas chegou a um limite absurdo ao perseguir uma das cantoras mais admiradas da música mundial, Billie Holiday, conseguindo destruir sua carreira. Durante a narrativa, fui percebendo várias conexões com nosso momento atual e nossas escolhas. E como algumas atitudes são normalizadas por parte da sociedade, cega por mudanças imediatas, passando a respeitar indivíduos que não merecem a mínima atenção.

 

A obra em questão trata das ações que perpetraram um combate desmedido contra as drogas e seus usuários. Tudo teria se iniciado no início do século XX, quando medicamentos derivados do ópio eram vendidos nas farmácias dos EUA. Morfina, heroína, e maconha eram legalizados. Porém, uma lei de 1914 proibiu o comércio desses produtos, que passariam a ser receitados por médicos apenas, para quem precisasse. Com a crise econômica gerada pela Quebra da Bolsa de Nova York, um policial que chefiava o Departamentos de Narcóticos começou a ganhar notoriedade. Harry Anslinger declarou guerra ao consumo e tráfico de drogas quando assumiu o posto em 1930, baseando-se em manchetes de jornais que noticiavam surtos e crises de indivíduos que consumiam drogas e praticavam crimes. Utilizando essas reportagens, manobrou a opinião pública a seu favor para decretar a extinção total de entorpecentes. Sua determinação vibrante foi vista com simpatia por grande parcela da população, fragilizada pela tensão da época e reagindo positivamente a pessoas que expressavam disposição para lidar com os malefícios sociais. Principalmente quando a investida mirou basicamente em duas comunidades: dos negros e mexicanos.

 

Anslinger perseguiu os médicos que chamavam atenção dele para algumas distorções na sua visão dos efeitos de algumas substâncias como a maconha. Suas declarações marcantes conquistavam apoio e seu departamento passou a concentrar grandes recursos para a batalha contra os entorpecentes. Assim, partia ao encalço dos indivíduos mais vulneráveis. Os artistas de jazz principalmente.

Anslinger odiava o jazz, gênero cujos músicos de maior destaque eram afro-americanos e notórios consumidores de diversas drogas. Muitos foram detidos, mas não entregavam ninguém, nem fornecedores. Não obtendo sucesso nessa empreitada, passou a perseguir a maior voz do estilo musical daquele período: Billie Holiday.

 

O que essa artista viveu está mais para um roteiro de um filme de terror. Foi estuprada aos 10 anos e mesmo assim foi condenada a passar um período em um reformatório, pois a justiça entendeu que ela tentou “enganar” o estuprador. Constantemente castigada pelas freiras do local, fugiu. Se prostituiu aos 14 anos, sendo presa mais uma vez. Ao sair, passou a consumir drogas. Casou-se com o seu cafetão, que espancava e roubava o dinheiro que ela ganhava com frequência. Passou a cantar nos cabarés, quando sua voz impressionava os clientes. Surgia a grande diva do jazz.

Sua treta com Anslinger teve início quando ela passou a cantar “Strange Fruit”, que continha o seguinte trecho:

 

“As árvores do Sul produzem estranhos frutos

Folhas com sangue, raízes com sangue”

 

Naquela época, os hotéis não aceitavam que se cantasse versos tratando de uma crua realidade, apenas canções de amor. O trecho em questão refere-se ao linchamento e enforcamentos de negros nas árvores, muito comum nos estados segregacionistas e racistas do Sul dos EUA. Holiday foi proibida de entoar essa canção, mas desrespeitou e seguiu interpretando, gerando a revolta de Anslinger.

 

O policial contratou um negro para seguir e prender Holiday, o que ele detestava. Anslinger afirmava que as drogas deixavam os negros alvoroçados em se relacionar com mulheres brancas, considerado “um perigo” e dizia que jamais em seu departamento um negro chefiaria uma equipe de brancos. O policial negro chamava-se Jimmy Fletcher, que achava que os negros que consumiam drogas se vitimizavam, ou seja, ele era uma espécie de Sérgio Camargo – atual presidente da Fundação Palmares – daqueles tempos. Após ser presa novamente, resolveu denunciar o marido que a espancava. Dizem os amigos, que várias vezes ela subiu no palco toda enfaixada, com costelas quebradas após levar uma surra do companheiro. Com isso, Louis Mckay, o marido, se aproximou de Anslinger e firmou um trato para entregá-la por posse ilegal de drogas. Foi condenada a um ano de prisão e perdeu a licença para cantar em bares e hotéis.

 

Liberada, resolveu largar as drogas, mas Anslinger continuou no seu encalço. Designou o agente George White para segui-la. White foi considerado sádico através de um psicoteste, o que ajudou a subir na carreira. Ele teria dito, cinicamente: “onde mais um garoto norte-americano viril como eu poderia mentir, roubar, estuprar, e saquear com a sansão e benção do Todo Poderoso? No Departamento de Narcóticos, claro!”. Ele era conhecido por drogar mulheres que não o queriam, só pra ver se o efeito da droga mudaria algo. Naquela época, uma declaração dessa passava, visto que o fim das drogas justificava qualquer meio ou afrimação absurda.

 

Holiday acabou sendo presa em um hotel da California por White pela enésima vez. Liberada, passou mal e foi internada em um hospital de Nova York. Anslinger enviou uma equipe que alegou que ela estava com uma quantidade de heroína na enfermaria, deixando dois policiais na porta do quarto, enquanto ela ficava algemada na cama. Com sérios problemas de saúde (cirrose hepática, problemas cardíacos e respiratórios, úlcera nas pernas) foi tratada com metadona, mas pelo visto, os policiais conseguiram retirar essa medicação. Seu toca-discos, presentes, e roupas, foram confiscadas pelos agentes. Faleceu aos 44 anos, pobre e desamparada, nesse mesmo local. Anslinger ficou à frente do Departamento de Narcóticos até 1962 quando foi demitido pelo presidente Kennedy, mas seu ideal para exterminar os entorpecentes foi retomado por Ronald Reagan.

 

A chamada guerra às drogas foi reconhecida como um fracasso por líderes mundiais que a endossaram, como Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso. Só fez reforçar o tráfico e seu poder frente aos desmandos e corrupção dos atores políticos. Mesmo assim, estamos em uma era em que acredita-se no total ataque às organizações criminosas com força máxima policial. Porém, como Hari destaca em seu livro, as medidas políticas contra as drogas visam apenas mirar nas minorias. As drogas é apenas pretexto. O sistema almeja diferenciar o usuário e se beneficiar dos ganhos adquiridos pela proibição. Judy Garland, famosa cantora e usuária de drogas, foi tratada por Anslinger com total respeito quando foi denunciada. Ele também deixou de prender uma moça que pertencia a uma família importante, justamente para não “desmoralizar os pais dela”. Fica claro que atacar as minorias que utilizam a droga é um meio de controle social das mesmas.

 

E o que isso tem a ver com nossa realidade? Passamos por um momento de crise econômica que parece ter invertido os direcionamentos morais e demos respaldo a políticos que praguejavam as maiores atrocidades, numa total inversão de valores, elevando figuras públicas que há anos foram escanteadas por suas falas grosseiras. Assim, a política foi rebaixada a combater a corrupção e um político com um currículo eficiente era aquele que não roubava nem tinha se metido em falcatruas governamentais. Pastores evangélicos e policiais de várias patentes foram eleitos com suas ideias de severo ataque ao crime, com planos de segurança pública estonteantes, e atacando minorias. Um homem que se declarou homofóbico e que admirava a tortura tornou-se exemplo de pessoa e viram nele o pacificador que transformaria o clima de conflitos ideológicos em um ambiente de paz e prosperidade! Mesmo com declarações racistas e perseguições a respeitáveis profissionais de saúde, Harry Anslinger só ganhava simpatizantes, pois “colocava no lugar” as minorias étnicas que continuam vivendo as agruras que Billie Holiday sofreu em vida. E mesmo dando as costas para uma pandemia seríssima, a figura pública do atual presidente continua em alta. Segundo pesquisa DataFolha, 83% dos seus eleitores dizem não estarem nem um pouco arrependidos de terem votado nele. São ciclos temporais que mostram que ter a língua solta, falando absurdos e tomando atitudes ilegais, é uma virtude e algo a ser considerado símbolo de esperança.

 

Pouquíssimas pessoas conhecem Harry Anslinger. Já Billie Holiday e sua música continuam influenciando artistas ao redor do Globo e inspira gerações. Uma jovem inglesa a tinha como referência, mostrando um talento acima da média. Pena que essa moça sucumbiu às drogas ainda mais cedo que Holiday. Era Amy Winehouse. Mas isso é uma outra história.

 

FONTES:

 

- HARI, Johann. Na Fissura: uma história do fracasso no combate às drogas. Companhia das Letras, 2018.

 

 -https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/09/datafolha-17percent-se-dizem-arrependidos-de-votar-em-bolsonaro-83percent-nao.ghtml

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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