• Francisco Assis

Freud, por que a guerra?



Em 1931 o Comitê Permanente para a Literatura e as Artes da Liga das Nações instruiu o Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual para que promovesse trocas de correspondências entre intelectuais de prestígio sobre temas destinados a servir aos interesses comuns à Liga das Nações e à vida intelectual. Um dos primeiros a ser selecionado pelo Instituto foi Albert Einstein, a quem foi dado o direito de escolher para quem dirigiria a sua missiva. Einstein sugeriu o nome de Freud e então o Instituto convidou o psicanalista que prontamente aceitou o convite. A carta endereçada a Freud solicitava-lhe que respondesse sobre uma questão que lhe parecia a mais urgente que a civilização tem de enfrentar: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?”.[i] Qual foi a resposta de Freud? Será que a sua resposta traz alguma contribuição para pensar o Brasil de hoje?


Freud começa dizendo da sua surpresa sobre o tema proposto por Einstein, acreditava que a escolha seria por um tema que ambos conhecessem e que se pudesse a partir daí estabelecer um diálogo entre ambos. Contudo, aceitou o desafio de responder-lhe dizendo que na missiva do seu interlocutor já havia sido expresso quase tudo sobre o tema. Em sua carta, Einstein faz uma relação entre o direito e o poder, Freud, para elaborar a sua resposta, propõe que a relação seja outra: entre o direito e a violência.


Em princípio para Freud os conflitos de interesse são resolvidos, de modo geral, mediante o emprego da violência, assim como no reino animal, com a diferença de que entre os seres humanos há conflitos de opinião que requerem outra forma de enfrentamento. Freud faz aqui a sua primeira alusão (indireta) quanto ao uso da razão para a resolução de conflitos, algo que só fica claro no decorrer do texto. Mas como fazer o caminho da violência para o direito?


Para Freud a “violência é derrotada pela união, o poder daqueles unidos passa a representar o direito, em oposição à violência de um indivíduo. Vemos que o direito é o poder de uma comunidade.”[ii] No Brasil, os movimentos pró-democracia têm assumido esse papel, as torcidas organizadas têm agido de modo unificado para enfrentar o autoritarismo representativo do Presidente da República. No entanto, poderia se argumentar que mesmo estes movimentos agem violentamente. Na sua resposta a Einstein, Freud reconhece a violência proveniente da união daqueles que representam o direito. Referindo-se ao poder da comunidade, diz: “É ainda violência, pronta a se voltar contra todo indivíduo que a ela se oponha; trabalha com idênticos meios, persegue os mesmos fins.”[iii] Então o que diferencia um do outro? “A diferença está em que não é mais a violência de um só indivíduo que se impõe, mas da comunidade.”[iv] Ademais essa união deveria perdurar e não simplesmente enfrentar o inimigo e depois se dissolver, mas permanecer firme.


À primeira vista pode parecer que Freud estaria legitimando a violência em si, mas a questão é outra: a sobrevivência dos indivíduos contra um poder maior só é possível, aos olhos de Freud, através da união desses indivíduos que, por sua vez, agirão violentamente contra a violência do opressor. Na medida em que essa união for estabelecida e tornar-se duradoura, havendo o reconhecimento de uma comunidade de interesses, se produzirá vínculos afetivos entre os seus membros. Os vínculos afetivos são elementos importantes para a durabilidade da união. Todavia, não se deve tirar conclusões apressadas de Freud, é recomendável acompanhar atentamente o seu raciocínio.


Ao continuar a sua carta-resposta Freud sustenta que “semelhante estado de repouso é concebível apenas teoricamente, na realidade as coisas se complicam pelo fato de que desde o princípio a comunidade abrange elementos de poder desigual [...]”.[v] E quais seriam esses elementos? “[...] homens e mulheres, pais e filhos e, em consequência de guerras e conquistas, vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos.”[vi] Para o psicanalista, portanto, em um cenário pós-conflito haveria reiteradamente novos conflitos decorrentes da desigualdade presente entre os diversos poderes internos da comunidade. Como resolver este problema?


Freud não acreditava em uma união idílica entre os seres humanos, para ele isso era impossível, apesar de que via nos afetos, nas necessidades e nos interesses em comum o favorecimento para resolução de problemas. Para ele uma segura prevenção da guerra seria possível “se os homens se unirem na instituição de um poder central, ao qual seja transferida a decisão em todos os conflitos de interesses.”[vii] Aqui Freud estaria muito mais perto dos contratualistas do que dos comunistas, aos quais já havia direcionado críticas pontuais.[viii]


Freud chama a atenção para algo que Einstein escreveu em sua correspondência e sobre o qual ele concorda: o instinto de ódio e destruição presente no ser humano, que em ultima instância é a “pulsão de morte”. Provavelmente este era o motivo pelo qual ele não acreditava em uma sociedade onde os conflitos não existissem. A este instinto Freud opunha o instinto que tende a conservar e unir (“pulsão de vida”). Ambos os instintos fariam parte do ser humano e seriam apenas uma transfiguração teórica da oposição entre amor e ódio. Mas dificilmente uma ação seria proveniente de um único instinto, mas de ambos: Eros e destruição.[ix] Sobre este último, Freud afirma: “Especulando livremente, chegamos à concepção de que esse instinto age no interior de cada ser vivo e se empenha em levá-lo à desintegração, em fazer a vida retroceder ao estado de matéria inanimada.”[x] Dito isto, conclui que não é possível abolir as tendências agressivas do ser humano.


É possível que até o momento se faça uma leitura de Freud como um pessimista, porém isso seria um equívoco. Mas de que forma então se pode enfrentar essa realidade? Nas palavras dele: “Se a disposição para a guerra é uma decorrência do instinto de destruição, então será natural recorrer, contra ela, ao antagonista desse instinto, a Eros. Tudo que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeito contrário à guerra.”[xi] E aqui surgirá claramente a razão como condição ideal para gerar uma união completa e resistente entre os indivíduos, mesmo que porventura houvesse a renúncia às ligações emocionais entre eles. Assim, o amor (Eros) e a razão surgem como elementos imprescindíveis para Freud na construção de uma sociedade mais estável.


Mas para que tanto esforço em evitar a guerra, para que se indignar contra ela, se ao que parece faz parte da natureza? Freud apresenta uma primeira resposta aludindo ao direito à vida, à conservação da esperança, ao tratamento digno do ser humano e a preservação da cultura em toda a sua extensão. No entanto, surge uma segunda resposta que se sobrepõe a anterior: “[...] acho que o motivo principal de nos indignarmos com a guerra é que não podemos deixar de fazê-lo. Somos pacifistas porque temos razões orgânicas para sê-lo.”[xii] Ou seja, a despeito da pulsão de morte, o ser humano deseja acima de tudo viver.


A carta termina com uma apologia da cultura, mais precisamente da evolução cultural. Freud constata que as mudanças psíquicas decorrentes do processo cultural são notórias e inequívocas porque deslocam os objetivos instintuais e restringem os impulsos instintuais.


As maiores contribuições presentes na carta de Freud a Einstein em relação a pensar o Brasil e os conflitos de hoje estão na valorização dos laços afetivos e no uso da razão na maneira pela qual a sociedade se une contra o autoritarismo e na construção do pós-autoritarismo.


Freud apresenta a violência como meio necessário de luta contra a violência do autoritarismo, mas por outro lado evidencia a inevitabilidade dos laços afetivos a partir da união das pessoas, da necessidade do uso da razão e da intensificação do processo cultural como elementos que consolidam uma sociedade voltada muito mais para a pulsão de vida do que para a pulsão de morte.


Estar atento a essas características descritas por Freud pode auxiliar no desenvolvimento de estratégias na luta pró-democracia no Brasil, evitando que se aja impulsivamente, alheio à razão e guiado por um instinto destrutivo que leve a um ciclo repetitivo de violência e desestruturação social.


Referências Bibliográficas


EINSTEIN, A. “Por que a guerra?”. In: FREUD, S. Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise e Outros Trabalhos (1932-1936)”. (Tradução: Jayme Salomão). Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Obras psicológicas completas de Sigmund Freud – Vol. XXII).


FREUD, S. “Por que a guerra? (Carta a Einstein, 1932)”. In: O Mal-Estar na Civilização e Novas Conferências Introdutórias à Psicanálise e Outros Textos (1930-1936). (Tradução: Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Obras completas – Vol. 12).




Link da imagem: https://mdtraining.com.br/por-que-a-guerra-um-dialogo-entre-freud-e-einstein/





[i] EINSTEIN, 1996, p. 205.


[ii] FREUD, 2010, p. 420.


[iii] Ibid., p. 421.


[iv] Idem, ibidem.


[v] Ibid., p. 422.


[vi] Idem, ibidem.


[vii] Ibid., p. 424.


[viii] Em “O mal-estar na civilização”, diz Freud: “Não é de minha alçada a crítica econômica do sistema comunista, não tenho como investigar se a abolição da propriedade privada é pertinente e vantajosa. Mas posso ver que o seu pressuposto psicológico é uma ilusão insustentável. Suprimindo a propriedade privada, subtraímos ao gosto humano pela agressão um dos seus instrumentos, sem dúvida poderoso, e certamente não o mais poderoso. Mas nada mudamos no que toca às diferenças de poder e de influência que a agressividade usa ou abusa para os seus propósitos, e tampouco na sua natureza.” (Op. cit., p. 79).


[ix] Eros tal como no “Banquete” de Platão, diz Freud.


[x] Ibid., p. 428.


[xi] Ibid., p. 430.


[xii] Ibid., p. 433.

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