• Sarah Ferraz

Blackbird e o lugar de empatia


"Blackbird singing in the dead of the night Take these broken wings and learn to fly All your life You were only waiting for this moment to arise.”

“Pássaro negro cantando na calada da noite Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar Durante sua vida toda Você só estava esperando este momento para decolar.”

Ultimamente nossos dias foram marcados por acontecimentos trágicos e de cunho racista. Isso acontece diariamente em muitos pontos do globo, mas tomou uma visibilidade maior com a morte de George Floyd nos Estados Unidos.


Começaram a ser enxergados com mais notoriedade os outros e outras Floyds, a exemplo do menino Miguel, aqui no Brasil. E um movimento antirracista vem tomando conta das redes sociais.


Em meio a tudo isso, escolhi falar de música, já que esta transpõe tantas barreiras. Mas o que a música tem a ver com a intolerância racial, racismo estrutural?


Calma! Não estou querendo alienar ninguém, leitor, pelo contrário. Prossiga no texto e entenderá.


Não sabia se seria a pessoa mais indicada para falar sobre racismo, portadora de uma pele branca, que nunca sofreu olhadelas ou desconfianças, e muito menos sentiu o preconceito. E confesso que titubeei em escrever sobre o assunto.


“Definitivamente não é meu lugar de fala (como dizem)” – pensei. Isto porque, apesar de ter genes negros e indígenas em meu DNA, meu fenótipo não os transparece.


Todavia, aprendi durante estes dias, ao ler sobre como ser antirracista, que dizer que “Não é meu lugar de fala" só perpetua um pensamento de “Não vou meter meu bedelho porque não sou negra!” e perde-se a oportunidade de abordar mais o tema e se posicionar.


Além disso, os últimos fatos me tocaram como ser humano, como familiar, como amiga, como mãe, como psicóloga, então acho que o coração pode me dar esse pequeníssimo lugar de escrita.


E o resolvi fazer através das palavras de um grande ídolo meu: Sir Paul McCartney.


Uma música feita por um branco, para falar sobre racismo?! Sim.


As palavras que iniciaram meu ensaio fazem parte da letra de uma música escrita pelo integrante dos Beatles. É uma canção belíssima, que sempre mexeu bastante comigo. Uma das minhas favoritas, de uma banda favorita.


A letra fala de superação em meio às adversidades, de resiliência, de liberdade.


Mas o que muita gente não sabe é que McCartney não a escreveu pensando em um pássaro ou em pessoas em geral, como pode parecer. Quem está por trás do personagem principal, do Blackbird/melro - espécie de ave norte-americana - é a imagem uma mulher negra.


Na época em que a canção tomou forma, em 1968, a luta pelos direitos civis estavam em ebulição nos EUA e, inclusive há rumores que Paul a tenha finalizado após a morte de Martin Luther King, em 4 de abril do mesmo ano.


“Como é muito frequente em minhas canções, existiu uma coisa mais velada, figurativa. Então, em vez de eu dizer exatamente sobre uma mulher negra vivendo em Little Rock e ser muito específico sobre isso, essa mulher se tornou um pássaro, simbólica. Para que assim, você possa aplicar isso à uma situação específica”. Relatou o músico em uma entrevista.


Claro que no imaginário de cada um, as palavras trazem à tona essa superação individual de uma crise, de seguir em frente, etc, mas houve um desejo antirracista nas entrelinhas, vindo de um britânico caucasiano.


“Aqueles dias foram dias de luta pelos direitos civis, e que todos nós somos imensamente preocupados”, disse Paul. “Então, essa foi uma música realmente para a mulher que experimentava todos esses problemas nos Estados Unidos. Eu pensei: ‘Deixe-me encorajá-los a continuar tentando, e manter a sua fé, pois há esperança.”


Indo mais à fundo, descobri que Blackbird foi, mais especificamente, inspirada pelo grupo chamado de Little Rock Nine, formado por nove crianças negras que, em 1957, foram matriculadas na escola Little Rock Central High School (que até então só recebia alunos brancos), marcando o início do ingresso de negros na instituição, e do fim da segregação racial.


Uma realidade um pouco distante para nós, mas que ainda hoje ocorre ao nosso lado, mesmo que de forma velada, maquiada de aceitação e igualdade, diria. A segregação ainda existe e muito.


Os Beatles sempre mostraram seu apoio ao movimento pelos direitos civis dos EUA, e chegaram a se recusar a tocar em frente de plateias segregadas.


Numa outra entrevista ao jornal britânico Daily Mail, o músico confidenciou que percebeu que era racista quando mais jovem:"Quando eu era criança, você era racista sem saber. Era apenas algo normal usar certas palavras que você não usaria hoje”.


McCartney nasceu em 1942, na cidade de Liverpool. Nessa época, a Inglaterra era quase inteiramente branca. Apenas no final da década, o país começou a receber imigrantes da Índia e Paquistão.


Ele conta que não percebeu que um certo vocabulário não deveria ser usado, mas que, conforme foi crescendo, foi se dando conta do teor ofensivo que carregava.


Esse era o contexto do cantor em meados do século passado, mas continua se assemelhando ao que vivemos por aqui, quando por exemplo ouvimos ou falamos: “uma mulher negra bonita" ou “isso está denegrindo minha imagem", ou ainda, “Não sou suas negas".


Um detalhe importante a se acrescentar sobre a simbologia da letra é que melro (tradução da palavra blackbird) era um termo usado para se referir, pejorativamente, às pessoas de origem africana desde a época dos escravos.


De pejorativo, tornou-se lírico, suave, corajoso e reconhecido mundialmente.


É triste o que estamos passando e se você parar pra pensar, sempre foi, mas não estava no seu foco.


Enxergar com mais nitidez o problema, pode ser revoltante e mobilizador,mas é importante para fazer algo que leve à mudança. Acreditar que o racismo é algo imutável é o primeiro passo para que ele nunca termine.


Assim como, dizer que não é seu lugar de fala, é ser mais um contribuindo para que ele perdure.


Não compactuar com piadinhas racistas entre amigos e família; explicar a quem ainda usa termos desnecessários e pejorativos o caráter ofensivos destes; questionar as poucas vagas para profissionais negros em empresas.


Estes são exemplos de comportamentos antirracistas que podemos emitir e multiplicar.


Afinal, se Paul - branco europeu - teve lugar de fala e atingiu a tantos com suas palavras, eu, você e qualquer outra pessoa que não seja negra, também pode se apropriar desse lugar e espalhar nos espaços que ocupa um olhar antirracista.


Aliás, a expressão “lugar de fala” poderia ser substituída por “lugar de empatia”, e tenho dito!



Referências:

https://thebeatlepedia.wordpress.com/2014/03/12/a-historia-da-cancao-blackbird/

https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2016/05/04/paul-mccartney-conhece-mulheres-que-inspiraram-blackbird/

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