DARK: afinal, somos ou não somos donos/as do nosso destino?

June 10, 2020

 

 

 

Ei fera, esse texto é sobre o “livre arbítrio” versus “destino”. Uso o caso da série Dark para ilustrar o assunto e encerro aplicando o que foi discutido com o triste caso da morte do menino Miguel Otávio (5 anos), filho de Mirtes Renata, mulher preta, pobre e empregada doméstica.

 

Repetição: “as coisas sempre foram assim”

 

A ideia de círculo de tempo infinito, ou seja, a ideia de que as coisas se repetem eternamente, mesmo quando estamos tentando mudar o futuro ou o passado, é a chave pra entender a história da série Dark, mas também seu problema.

 

É a “chave” porque mostra que no presente estamos repetindo o passado incessantemente. Mas quando descobrimos isso e viajamos no tempo, então tentamos mudar o passado para que as coisas não se repitam do mesmo jeito.

 

É o “problema”, por outro lado, porque “esquece” de explicar o aspecto histórico-mundial. Dark parece “flutuar” em um mundo particular, fora das relações com outros lugares e eventos. Então, no caso de DARK, temos que presumir que o tempo é “local”: só a cidade da trama é que está presa na repetição temporal infinita (pensar nos “viajantes” e na “Sic Mundus Creatus Est”). Porém, são as ações “locais” – tudo que acontece na cidade – que afeta o mundo todo (ou não?).

 

Looping infinito: “somos ou não somos o resultado do passado?”

 

Nas Ciências Sociais contemporâneas, surgiram teorias sobre agência e ação em oposição às teorias clássicas, do século XIX e início do XX, que ficavam presas em explicações em que não se conseguia compreender adequadamente o papel individual das pessoas nos processos de mudança, sejam em ordens políticas, econômicas ou culturais (Max Weber, sociólogo clássico da “ação”, foi uma exceção).

 

Dark faz pensar na questão da ação e agência da seguinte maneira: estou preso por uma ordem de acontecimentos que se repete e nada posso fazer para mudá-la, pois tudo que faço já foi “tentado” no passado e em nada mudou (a próxima temporada parece que trará uma resposta para esse problema, conforme um diálogo que ocorreu nas cenas finais da segunda temporada (sem spoiler! Consegui!)).

 

“Somos corruptos por natureza e sempre iremos ser! Será?”

 

Como pensar na ideia de que existem temporalidades múltiplas (com a antropologia do tempo)? Bom, vejamos: você já ouviu quando as pessoas dizem – ou você mesmo! – que as “coisas sempre foram assim”, que “isso nunca vai mudar”, e “os seres humanos são corruptos por natureza”? Pois é... Elas têm, sim, um elemento comum: é a impressão de que nós somos “escravos” dos acontecimentos (que nem em Dark!). “Ora, tu é dono do teu destino ou escravo do acaso?”. Se você responde essa questão, você soluciona um dilema filosófico de mais de 2000 anos: livre arbítrio versus destino.

 

A religião cristã também lida com esse assunto: o Deus que eles e elas veneram te deu o livre-arbítrio, mas você sempre tá esperando que “Ele faça acontecer”, “graças a Deus”, “Deus proverá! Etc. (“Deus tá vendo o que você apagou” [Kkkk]). Já no taoísmo, você pode ser determinado pela natureza, mas tem, segundo algumas concepções, a chance de mudar e lutar contra a “ordem natural”[1]. Seja na religião, na filosofia grega ou na série Dark, de 2017 (1ª temporada): estamos discutindo o mesmo assunto – determinismo versus liberdade.

 

Mudando o passado: abaixo o racismo!

 

Dark ajuda a pensar na ideia de agência na medida em que mostra que nós, meros seres humanos individuais, podemos “assumir as rédeas” de nossa vida e promover mudanças que, é claro, têm início em nós mesmos. Juntamos, a partir do que acreditamos, a herança “do passado” que chega até nós social e culturalmente. A deputada estadual Gleide Ângelo (PSB), por exemplo, proporá um projeto de Lei que proíbe crianças de irem para elevadores sozinhas, já que o menino Miguel Otávio (5 anos), segundo investigação, morreu devido às ações da empregadora, Sari Corte Real, da mãe do menino, Mirtes Renata [2]. Podemos muito bem enxergar uma “repetição” e uma “herança” aí (em Sociais chamamos de “estrutura social”), mas ao olhar para a deputada, observamos que a sua ação visa mudar essa realidade, ao mesmo tempo em que podemos, de nossa parte, mudarmos ao combater e denunciar o racismo (esta herança colonial).

 

 

[1] Fonte: Jorge Palácios C. Perspectivas sobre la filosofía taoísta. Rev. de Filosofía. V. 61. 2005.

[2] Fonte: https://www.didigalvao.com.br/apos-morte-de-miguel-gleide-elabora-lei-que-proibe-uso-de-elevador-por-crianca-desacompanhada/

 

Fonte da imagem: https://static0.srcdn.com/wordpress/wp-content/uploads/2019/06/Netflix-Dark-Season-3.jpg

 

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