POR QUE FILMES DE ESQUERDA FRACASSAM TANTO?

June 11, 2020

 

 

Filmes com temáticas feministas, ou até LGBT+, ao menos no circuito popular, normalmente não são bem trabalhados, assim como não são bem recebidos. Mas por que? Se a luta no campo político é tão valida, e ganha tanta visibilidade, por que quando entram no circuito cinematográfico alguma coisa se perde pelo caminho? Claro existem casos óbvios de boicote e de pura intolerância por parte de grupos sexistas, racistas e homofóbicos, mas não podemos reduzir a performance de um filme dessa maneira, já que vários outros ingredientes contribuem nessa receita de bolo. Minha hipótese segue por um caminho estético, envolvendo os elementos internos da própria obra, ou seja, os contornos concretos que definem seu enredo e a própria Direção.

 

Filmes como Charlie's Angels, dirigido por Elizabeth Banks, a Capitã Marvel, dirigido por Anna Boden, ou até mesmo a readaptação do Caça Fantasmas (2016), dirigido por Paul Feig, foram completamente massacrados pela crítica e pelo público. Suas avaliações no site Rotten Tomatoes, um dos maiores sites de crítica cinematográfica do mundo, são as seguintes: Capitã Marvel (48%), Caça Fantasmas - Readaptação (50%) e Charlie’s Angels (50%). O que esses três filmes têm em comum? Além de fazerem parte de um circuito popular, sendo encontrados em qualquer shopping de sua cidade, os três mergulharam fundo no tema do feminismo, explorando vários detalhes desse universo. Ao lado de avaliações tão desanimadoras, principalmente dado o enorme orçamento envolvido nos bastidores, toneladas de comentários agressivos e misóginos foram vistos pelos quatro cantos da internet. Apesar da misoginia, elemento óbvio nessas manifestações de ódio, existe também um outro detalhe que pretendo explorar, um detalhe estético, digamos assim, algo que diz respeito à própria estrutura de como esses filmes foram produzidos. De maneira geral, existem três grandes falhas no momento em que a esquerda invade o circuito popular, envolvendo aqui a  produção de filmes, séries e programas de TV.

 

 

1- O PROBLEMA ESTÉTICO: As pautas de esquerda, normalmente, não são usadas como um elemento que potencializa a trama, mas ao contrário, sendo uma verdadeira matriz onde tudo é subordinado. Isso significa que ao invés do filme usar o feminismo como um ingrediente na construção da história, o que vemos é o filme sendo usado pelo feminismo. “Mas qual a diferença?”, pergunta você. Se o filme é usado apenas como pretexto, já que o protagonismo estaria na pauta política que ele traz, a consequência é meio óbvia: personagens sem profundidade, sendo apenas representações de grupos, e nada além. Cenários pobres e pouco desenvolvidos. E, principalmente, enredos previsíveis, sem qualquer originalidade ou ousadia. Em outras palavras, a política devora a estética, subordinando a arte dentro de uma matriz rígida de sentido. É claro que a política importa, e deve ser considerada, mas apenas apenas como um elemento adicional, como um traço espontâneo que incrementa a criatividade da trama, e não ao contrário. Quando Luchino Visconti dirigiu A Terra Treme, um dos filmes mais famosos do neorealismo italiano, sua pretensão política, ainda que óbvia, não sufocou os contornos estéticos da obra, servindo muito mais como complemento. Ou seja, o filme não foi um objeto dentro de uma postura política de esquerda, mas ao contrário. A postura política de esquerda foi um pretexto dentro do filme. Isso implica em personagens complexos, assim como um enredo cativante, mesmo quando traumático. Isso significa que a obra não é bidimensional, rasa, oca, abstrata, mas densa. É claro que Ntoni, um dos personagens centrais da trama, é um representante da classe trabalhadora, mas nem por isso ele perde sua personalidade, muito menos perde seus traços singulares e originais. Nós sabemos quem ele é, o que quer e o como ele é definido. Outros exemplos do neorealismo italiano, como Ladrões de Bicicleta (DeSica), Roma Cidade Aberta e Alemanha Ano Zero (Rosselini), Rocco e seus irmãos (Luchino Visconti), também seguem esse modelo, ao recusarem o canibalismo do universo estético, usando a política, ao contrário, como um ingrediente interessante e eficaz.

 

2- O PROBLEMA PRÁTICO: Os filmes de esquerda, ao menos aqueles do circuito popular, não entendem bem como a ideologia funciona. Eles esquecem de que a estrutura ideológica é melhor aplicada quando não é sentida, quando ela é sutil.  Esquecem, por exemplo, de que o segredo do machismo é seu caráter invisível, embutido, ou seja, a forma como oferece seus valores sem criar caricaturas ou outras formas de distorção. O problema dos filmes de esquerda no circuito popular é que eles são explícitos demais, óbvios demais, comunicando suas mensagens sem qualquer polimento ou cautela. O que não acontece, por exemplo, com filmes de esquerda em circuitos mais alternativos, aqueles que poderíamos chamar de Cult. Compare três filmes sobre racismo: Moonlight, dirigido por Barry Jenkins, e Corra e Nós, dirigidos por Jordan Peele. O que eles têm em comum? Todos usam a crítica do racismo como um elemento de construção do enredo, mas de forma completamente original, sutil, mas nem por isso menos impactante. A sutileza não retira do filme sua eficácia, muito pelo contrário. Normalmente filmes e séries muito grosseiros, e explícitos, acabam sendo completamente inúteis. No final das contas, apresentam apenas duas possíbilidades a) ou agradam aqueles que já defendem seus valores ou b) irritam aqueles que já discordam desses valores. Em outras palavras, essa forma sem polimento, bastante grosseira e amadora, não produz nenhuma consequência prática, nenhum tipo de transformação. O filme deixa o mundo como o encontrou, sem nada de novo, sem nenhuma novidade.

 

3- O PROBLEMA EMOCIONAL. A mensagem nos bastidores, por conta de sua falta de cautela (ponto 2), é quase sempre ressentida, agressiva. O filme não apenas se torna um pretexto dentro de um arranjo político de esquerda (ponto 1), mas se torna uma arma ressentida de diretoras ressentidas, como Elizabeth Banks (Charlie’s Angels). Ao ficar sabendo do fracasso do filme, a sua resposta foi simples e direta: “Homens não gostam de assistir filmes com mulheres protagonistas”. Claro que tem sentido essa frase, e concordo completamente, mas isso não justifica o fracasso do seu filme. Seus personagens principais foram simples representações vagas de um ideal de mulher, assim como seus personagens masculinos eram também representações, ou seja, figuras sem qualquer profundidade. O cenário, da mesma maneira, era apenas um simples pretexto, uma forma de justificar o conflito entre os dois tipos de representação (mulheres e homens). Ao invés de usar o feminismo como um elemento do filme, Elizabeth Banks usou o filme como um elemento do feminismo.

 

Os filmes de esquerda do circuito popular precisam aprender mais com seus contra-pontos no cenário mais alternativo. Precisam aprender que a estética não pode ser um simples objeto dentro de uma demanda maior. O feminismo é fundamental, sem dúvida, mas apenas enquanto um elemento na trama, um traço que realça o enredo, e não uma matriz rígida que organiza tudo ao redor. A estética não pode se subordinar à ética, já que são esferas diferentes. Ainda que dialoguem entre si, é necessário respeitar a autonomia que cada uma delas oferece. Se a esquerda invade o universo cinematográfico, ela precisa entender que esse espaço tem regras próprias e um ritmo próprio. É preciso ter humildade no processo, em especial quando fracassos ocorrem. Dizer que um filme falhou porque pessoas são machistas ou racistas, é reduzir mais uma vez o universo estético ao universo ético, reduzindo a arte à política, não reconhecendo, portanto, que essas duas esferas operam de formas diferentes, ainda que existam pontos de cruzamento. Claro que boicotes existem, além da misoginia de muitos idiotas lá fora, mas na maioria das vezes esse não é o critério de fracasso de certos filmes. Elizabeth Banks falhou não porque era mulher, mas porque foi uma péssima diretora, porque não trabalhou o feminismo da forma como deveria ser trabalhada. Sua falha não foi ética, mas estética, envolvendo o uso da linguagem cinematográfica de uma maneira superficial e até amadora.

 

Referência da Imagem:

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Movie_theater

 

 

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