O SINTOMA DA INTOLERÂNCIA: A psicanálise como ferramenta das Ciências Humanas




A atmosfera liberal que atravessa nossa democracia, esse espaço onde experiências diferentes convivem lado a lado, assim como a vida é experimentada enquanto um traço singular, múltiplo e complexo, acaba sendo algo extremamente novo, uma raridade, ao menos quando se compara com os 200.000 anos que definem nossa espécie. Por conta de uma mancha de suspeita produzida por teóricos como Marx, Freud e Nietzsche, além de uma enxurrada de desconstrução, existencialismo, e tantas outras abordagens, acreditamos que a linguagem não tem nada de sólido, muito menos de correspondência, fazendo do significante uma carcaça vazia pairando dentro de um fluxo diferencial qualquer, em uma abordagem semiótica, ou, no máximo, sendo apenas um instrumento prático, frágil e provisório, como acontece em teorias pragmatistas. Aprendemos, portanto, que linguagem e mundo não se confundem, ou, como diria Foucault, aprendemos que as PALAVRAS e as COISAS perderam um vínculo substantivo, concreto, principalmente porque cada realidade tem seu próprio arranjo de significantes, seu próprio sistema semiótico. Parece maravilhoso esse mundo que acabei de descrever, esse espaço de contingências, escolhas, possibilidades, além de um campo com múltiplas aberturas, além de uma arena em que pessoas diferentes podem conviver em paz, não importa suas religiões, partidos, gêneros, etc. Claro que esse campo de possibilidades é incrível, e deve ser defendido a qualquer preço, mas esqueceram de falar do detalhe mais importante: Os custos. Os custos de entrar nesse espaço de contingência, os custos de acolher uma linguagem deflacionada (menos pretensiosa), como dizem os pragmatistas da virada linguística. Além do mais, esqueceram de que muitas pessoas lá fora, que nesse exato momento assistem seus programas de Tv no conforto de suas casas, ou preparam suas comidas em suas cozinhas, consideram essa atmosfera muito sufocante, com custos muito altos, assim como riscos intoleráveis.


Nesse universo de uma democracia liberal, aquele cravado em um horizonte de diversidade, a intolerância é apresentada como um problema de caráter, um desvio produzido por pessoas cruéis, em um sentido ético, ou, talvez, por pessoas ignorantes, em um sentido epistemológico. Mas e se a intolerância não for um problema de caráter (ético), muito menos de conhecimento (epistemológico), mas de corpo (estético)? Se a linguagem é usada em seu sentido ancestral (tautológico), e clássico, ou seja, como um prolongamento espontâneo do mundo lá fora, essa mesma linguagem vai ser levada muito a sério, não sendo uma simples carcaça semiótica, mas sim um traço ontológico, uma experiência espontânea e não reflexiva com o mundo ao redor. Nesse modelo, linguagem e mundo se confundem de uma forma bem intensa, indiferenciada. Portanto, questionar a linguagem de alguém, não seria apenas questionar uma simples interpretação de mundo, um arranjo provisório de significantes, mas sim o próprio mundo, o próprio universo que se organiza em torno do indivíduo.


No campo religioso, os evangélicos, de maneira geral, são vistos como intolerantes pela esquerda, como se não enxergassem o óbvio, como se não observassem o fato de que o mundo é contingente e cada um tem seu modo único de lidar com a realidade. Mas partindo da ideia de que a intolerância é um traço estético, envolvendo aqui o corpo, é possível também falar dela enquanto um SINTOMA. Isso significa que a intolerância não é um desvio de caráter, muito menos uma falta de conhecimento, mas mecanismo de defesa diante de um mundo incerto demais, instável demais. Segundo Žižek, se referindo aos fundamentalist