• Jacqueline Gama

ORGULHO LGBTQIA+


Um corpo LGBTQIA+* sempre será um corpo transcendente, entretanto, nem todos são iguais. Cada um desses corpos são vistos de maneiras diferentes e uns são mais marginalizados do que outros tanto fora quanto dentro dessa dita comunidade colorida, alegre e feliz. Inclusive a palavra gay um dia já significou alegria, simplesmente.


Em muitos momentos a representação do movimento e a luta LGBTQIA+ só se resumiram aos homens homossexuais padrão, esses ainda são os mais vistos na mídia. Homens cis gays, brancos, magros ou malhados, os quais performam uma masculinidade esperada para um homem, o tal do “pode ser gay, mas tem que ser discreto”. Quando existe um traço de feminilidade, esse homem gay cis, branco, é o melhor amigo da protagonista que entende de roupas e maquiagens, um estereótipo do gay engraçado que a maioria das mulheres héteros cis querem ter ao lado, um estereótipo tolerado.


A bicha preta quase não é representada se não por produtos independentes ou de circuitos paralelos, algumas felizmente tiveram visibilidade, a exemplo do filme Moonlight (2016, dir. Barry Jenkins) que ganhou o Oscar de melhor filme em 2017. Outro que foge dessa estética e ficou conhecido foi Rafiki (2019, dir. Wanuri Kahiu), uma produção nigeriana dirigida por uma mulher, a qual concorreu a palma de ouro. Em tela, as protagonistas são duas mulheres lésbicas negras.


Porém, filmes como esses são extremamente raros de serem produzidos e quase nunca (para não dizer nunca) são difundidos na mídia de massa. Na verdade, produções de e com pessoas LGBTQIA+ são raras, principalmente aquelas que fogem do padrão branco, classe-média performando um corpo padronizado e um padrão de masculinidade ou feminilidade conforme o gênero, ou seja, não dando margem a outras formas não binárias de ser e de existir.


Também, as histórias normalmente quando não são escritas por LGBTQIA+ apresentam-se como narrativas trágicas. Os filmes, as novelas, os seriados que possuem uma personagem desse construto, principalmente quando não são produções exclusivamente do segmento, sempre acabam em tragédias ou reduzindo a personagem a sua vivência como esse corpo que afeta e tem afetos fora da norma. Reduzindo a subjetividade a apenas ser LGBTQIA+ e nada mais.


As representação dos corpos LGBTQIA+, seja no mundo real ou nas múltiplas linguagens, ainda não deixam de adentrar a um fetichismo da sexualidade e da identidade de gênero por quem não pertence a esses construtos e aí eu reitero que a comunidade ( ou o que se diz ser uma) não está isenta dessa culpa de discriminar mais uns corpos do que outros, por mais que todos sofram algum preconceito em certa medida.


Um exemplo são os homens gays dentro do padrão que renegam as bichas afeminadas, ou as mulheres lésbicas que não aceitam as butchs (mulheres que não se encaixam em uma construção de feminilidade). Sem falar ainda de bissexuais que são vistos como indecisos, tendo sua sexualidade renegada a partir do relacionamento em que estão vivendo. Homens podem ser chamados de gays enrustidos e mulheres podem ser assediadas por homens heterossexuais que tem o desejo de fazerem ménage com duas mulheres, sem contar outras formas de abuso que esses corpos são submetidos como a ideia de promiscuidade, essa que é um estigma da comunidade LGBT como um todo.


Na liquidez de gênero, os corpos trans são os mais renegados e não são legitimados como são, principalmente pelos corpos cisgêneros de dentro ou de fora da comunidade LGBTQIA+, inclusive muitas pessoas trans dizem que são elas por elas já que não veem apoio de outras siglas do alfabeto LGBTQIA+. Essa renegação desses corpos é de uma extrema falta de empatia. Volto para uma questão histórica. As mulheres trans e travestis foram as que mais lutaram pelos direitos dos gays.


Pensando em Stonewall, quanto a rebelião que ocorreu no bar homônimo no bairro de Greenwich Village em Nova York, no dia 28 de junho de 1969, depois de policiais fazerem uma batida com a intensão de reprimir a comunidade LGBT e prender homens vestidos de mulheres. Foram esses corpos transcendentes que se mobilizaram para jogar tijolos e outros objetos nos policiais e tornar a gay liberation possível. Dois nomes importantes desse movimento de ativismo potente foram as travestis: Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, a segunda encontrada morta no Rio Hudson, até hoje não se sabe se ela foi assassinada ou não, para conhecer detalhes da história indico o documentário A morte e vida de Marsha P. Johnson ( 2017, dir. David France).


O que esse movimento pelos direitos civis das pessoas LGBTQIA+ nos lembra é que os corpos mais marginalizados da sigla são os que mais lutam pelos direitos do todo e não o gay rico que vive em uma cobertura e toma uns bons drinques. Mas aquele corpo preto, afeminado (quando se trata de homens cis) ou masculinizado (quando se trata de mulheres cis) ou trans, que moram em uma periferia e enfrenta o machismo, a homofobia, a transfobia, o racismo, com pouco ou nenhum recurso. Ou seja, o debate não pode ser fechado na sexualidade ou no gênero, atravessa raça e classe. Nesse sentido, é preciso que a interseccionalidade seja mais do que um segmento, mas uma forma de vivenciar, no próprio movimento LGBTQIA+ e fora dele.


Claro que é importante ter orgulho de ser o que é e valorizar aqueles que vieram antes, mas também é necessário vigiar e continuar lutando pelos LGBTQIA+ uma vez que Direitos são resultados de lutas civis e podem ser retirados por governos fascistas. Então sim, o casamento homossexual é legitimo no Brasil, mas ainda não é em muitos países. Pessoas LGBT já podem doar sangue no Brasil, mas isso só foi possível devido a uma pandemia que diminuiu os estoques do banco de sangue. Então nada vem de graça e tudo isso é fruto de demandas sociais e união dos construtos.


Outra questão importante foi a retirada da homossexualidade e da transexualidade do CID, ou seja, não são mais classificadas como doenças, a primeira desde a década de 1990, a segunda desde 2019. Ambas recentes. Entretanto, nem tudo são flores. O Brasil é um dos países que mais mata mulheres trans e que mais violenta pessoas LGBTQIA+, portanto, a luta ainda não acabou para os mais marginalizados. Quanto mais o corpo for transcendente mais ele deve ser protegido, principalmente pelos seus.


LGBTQIA+ uni-vos. Ressalto, no entanto, que a luta também depende das pessoas heterossexuais e cisgêneras, corpos de onde vem as maiores opressões. Ainda tem muita luta pela frente e uma delas é a criminalização da homofobia e da transfobia, sem contar o Direito a educação sexual nas escolas, o qual não se resume a pauta LGBTQIA+, inclusive é errôneo esse pensamento. No entanto, se faz extremamente necessário ensinar o respeito a essas diferenças de gêneros e sexualidades. A receita para combater o ódio a combinação de respeito e amor.

*LGBTQIA+ é a sigla ampliada de LGBT, a qual engloba: lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queers, intersexuais, assexuais e o + representando outras dissidências de gênero e sexualidades que as outras letras não conseguem abarcar.

Capa: https://poenaroda.com.br/wp-content/uploads/2018/06/destaque_nova_bandeira_lgbt.jpg

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