Homenagem a Castro Alves

July 6, 2020

 

 


06 de julho de 1871, morre o poeta baiano Castro Alves. Deixarei um importantíssimo poema, O Livro e a América, no livro Espumas Flutuantes, escrito em 1870, como uma reflexão para olharmos o presente. Castro Alves é também o símbolo do Soteroprosa. Eis a pequena homenagem.

 

O conhecimento é a porta de entrada a um novo mundo! Por quê não? Por que não deve ser cultivado? Porque, sem dúvida, somos seres movidos por algo. O novo pode ser algo que sempre esteve à nossa volta, mas nunca observamos com atenção. É salutar não termos medo da entrega, desbravando a paralisia que nos impede de mover o espírito. Se sofreremos? Talvez. Mas a vida também não é isso? Não é que seja fácil. Sempre há algum prejuízo, alguma perda. Mas não vale a pena abrir mão de um pouco de certeza por uma "pílulazinha" de insegurança? Não precisa ser abrupto, leitores! Cada um tem seu tempo. E o tempo, ah!, o tempo pode nos desvelar  ou revelar tanta coisa! 

 

Os livros podem ser grandes companheiros. Grandes amigos. Guias que abrem portas. Não tenhamos receio! Não tenhamos! Nunca é tarde! Mas há de ter coragem, força interior, impulso. Desejo inconsciente? Deliberação? Não sabemos. Só sabemos o que sabemos. E o que podemos fazer disso?

 

Castro Alves alegrava-se com o marchar do progresso humano. O progresso material e espiritual. Foi um filho do século XIX, o posterior Século das Luzes! Lutou pela liberdade. Lutou pelo esclarecimento. Foi um defensor do Abolicionismo. Lutou pela independência individual, pelo sentimento de liberdade. Abriu as portas ao realismo, sem nunca ter abandonado o romantismo, seu romantismo mais visceral.

 

Mesmo que os desdobramentos do século subsequente tenha mostrado que alguns "progressos" podem também levar a enormes retrocessos, com muita dor e sangramento, não podemos deixar de saudar o esforço que esse grande poeta fez pela liberdade. Sim, sim, há sempre algo que se perde e se ganha pela liberdade como um todo.

 

Mas é bom ter referências. Sem elas, ficamos totalmente à deriva. E nunca estivemos preparados para estarmos totalmente à deriva. Podemos encontrar nos grandes mestres, conhecidos ou não pelo grande público, os mesmos dilemas que estamos atravessando em nosso tempo ou em nossas vidas. Abrir um boa poesia, uma boa literatura, é uma troca de experiência que pode mudar tudo, seja num pequeno incômodo ou mesmo num vendaval.

 

A seguir, Castro Alves.

 

O Livro e a América


AO GRÊMIO LITERÁRIO


Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços

Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".


Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes putrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.


Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... O grande Deus!
As cataratas — p'ra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos... co'os firmamentos!!!
E Deus responde — "Marchar!"


"Marchar!... Mas como?... Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteons?...
Marchar cota espada de Roma
— Leoa de raiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo...
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?...


"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!'


Filhos do sec'lo das luzes!
 

Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!...


Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...


Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.


Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...


Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...

Luz! pois, no vale e na serra...
Que,se a luz rola na terra,

Deus colhe gênios no céu! . .

 

 

Link completo da obra: http://docente.ifrn.edu.br/paulomartins/classicos-da-literatura-brasileira-e-portuguesa/espumas-flutuantes-de-castro-alves.-pdf/view

 

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