Manguebeat: Onde estão os homens-caranguejos

 

Recife, cidade do mangue
Incrustada na lama dos manguezais
Onde estão os homens caranguejos
Minha corda costuma sair de andada
No meio das ruas e em cima das pontes

(“Antene-se”, Chico Science & Nação Zumbi)

 

 

Na escola aprendemos logo cedo a História do Brasil e ficamos sabendo que das Capitanias Hereditárias, apenas duas prosperaram: Pernambuco e São Vicente. A província nordestina passaria por poucas e boas naquele período colonial e posteriormente no Brasil Império. Suportou 24 anos de domínio holandês, provocando diversas insurreições para se livrar dos batavos. Foi pródigo em revoltas nativistas – revoluções políticas em contrariedade aos desmandos da Coroa Lusitana. Conjuração de Nosso Pai, Guerra dos Mascates, Conspiração dos Suassunas, Revolução Pernambucana, todas elas antes da conclamada Independência. Os pernambucanos questionaram a nova Constituição com a Confederação do Equador e anos depois sucedeu uma revolta partidária conhecida como Revolução Praieira. Haja rebelião.

 

O pernambucano cansou de se revoltar e resolveu agitar a cena cultural do estado. No século XIX, surgiria um ritmo musical bastante genuíno, o frevo, frenético e com passos difíceis e complexos. Isso sem contar com o Maracatu, uma manifestação percussiva de origem africana que balançava há muito tempo o solo da Zona da Mata regional. O famoso carnaval dessas terras gerou o fenômeno conhecido como “Galo da Madrugada” no fim da década de 1970. Haja cultura.

 

Pernambuco é revolucionário. Foi nesse ambiente efusivo que o horizonte inovador da revolução e da arte gerou o movimento musical Manguebeat. Em 1992, o jornalista e líder do Mundo Livre S/A, Fred Zero Quatro, lançou o manifesto “Caranguejos com Cérebro”. O texto é uma luxuosa explicação sobre o manguezal como ecossistema dos arredores de Recife, a capital como uma “Manguetown” com dificuldades sociais visíveis, e a necessidade de uma cena pop que conectasse o rico estuário vigente no mangue e a emergência de núcleos de produção na cidade, gerando um circuito de boas vibrações cujo símbolo seria uma antena parabólica fincada na lama. Na lama da Manguetown. Os mangueboys e manguegirls estariam inseridos nas sucessões de um panorama contemporâneo musical e artístico.

 

E assim vão surgindo nos idos dos anos 1990 uma série de bandas e grupos que batizaram a circulação de ideias e conceitos pelas margens do Capibaribe e Beberibe e sobrevoaram o estado. Apesar do destaque percussivo da Nação Zumbi e seu regente Chico Science, esse movimento musical contou com sonoridades plurais. Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Cascabulho, Jorge Cabeleira E O Dia Em Que Seremos Todos Inúteis, Sheik Tosado, foram algumas das primeiras bandas, vindos depois para composição desse panorama riquíssimo, Comadre Fulorzinha, Mombojó, Otto, Silvério Pessoa & Bate o Mancá, Siba e a Fuloresta, e tantos outros.

 

Chico Science & Nação Zumbi formou a linha de frente, retratando Recife, suas mazelas e a insurreição dos homens caranguejos saídos de um mangue antropomorfizado e produtivo, com um maracatu moderno e estilizado potente, vibrante, e genial. Passeou também pelo sertão pernambucano, evocando Lampião e seu banditismo, sua imagem e semelhança, nomeando seu bando, fazendo guitarras e tambores espalharem pela caatinga. O Mundo Livre S/A levou Jorge Benjor pra caminhar na praia de Boa Viagem e Olinda em seu disco “Samba Esquema Noise” (um trocadilho para o disco de Benjor “Samba Esquema Novo”, que já mencionava em uma de suas composições que o samba dele “é misto de maracatu”). Jorge Cabeleira colocou o triângulo pra ressoar em um rock “afrevoado”. Mestre Ambrósio e suas letras transbordando uma visão colonial em um Pernambuco mítico na tradição de nossa música. O Manguebeat ocorreu especialmente em um momento onde o rock doas anos 80 perdia terreno e os pernambucanos, em conjunto, trataram de colocar molho no cenário, territorializando o rock nordestino.

 

Mesmo com a morte precoce de Chico Science – aos 30 anos, num acidente automobilístico em Recife, no ano de 1997 – a cena continuou, embora não com a força impregnada por Science à frente da Nação Zumbi, que continua firme e fértil. O frescor do Manguebeat vai continuar ecoando: “Banditismo por uma questão de classe”, “Rios, Pontes e Overdrives”, “Sangue de Barro”, “Samba Makossa”, “Macô”, “Musa da Ilha Grande”, “Canudos”, “Vó Cabocla”, “Fuá na Casa de Cabral”, “Os Cabôco”, “Bossa Nostra”... Só resta falar pra vocês: antene-se!

 

Apesar de baiano, tô ligado na cena pernambucana, visse?

 

FONTE:

https://www.folhape.com.br/noticias/de-quantas-revoltas-e-feito-pernambuco/19976/#:~:text=Tamb%C3%A9m%20conhecida%20por%20Revolta%20contra,Olinda%2C%20ap%C3%B3s%20a%20invas%C3%A3o%20holandesa.

 

http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1308779-7085,00-LEIA+O+MANIFESTO+CARANGUEJOS+COM+CEREBRO.html

 

http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=266&Itemid=1#:~:text=O%20nome%20surgiu%20porque%20O,no%20bairro%20de%20S%C3%A3o%20Jos%C3%A9.

 

https://www.last.fm/pt/tag/manguebeat/artists

 

IMAGEM: Manguebizz.wordpress.com

 

 

 

 

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