Ai,ai,tem feitiço tem! O erotismo na música brasileira.

 

 

Muita gente reclama das baixarias contidas nas músicas atuais, geralmente escutadas nas alturas. Provavelmente o barulho é mais angustiante, porém, sempre sobra uma crítica horrorizada ao teor infame das letras. Mas isso é algo contemporâneo? O poeta baiano Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”, já dava a deixa de que não há nada de novo no fronte: “de dois ff se compõe essa cidade a meu ver: um é furtar, outro foder”. Podemos até dizer que Gregório não era só indecente, mas a questão aqui não é essa. O palavreado chulo, o duplo sentido, a picardia e o escracho sempre nos rondaram. Esse artigo será mais um mostruário que uma análise elaborada.

 

Vamos fazer um recorte a partir da primeira década do século XX, quando a Casa Edison, no Rio de Janeiro, lançou os primeiros LP’s. O intérprete Mario Pinheiro dava o tom do esculacho, com composições tais quais “Pela Porta de Detrás” e “Boceta de Rapé”, gravadas entre 1905 e 1908. A primeira canção fala da relação de algumas pessoas. Em certa altura ele fala de “um velho valente e capaz”

 

 

De fazer-me em mil pedaços

De evitar nossos abraços

Pela porta de detrás

 

 

A segunda, fala de um recipiente onde uma senhora guarda seu rapé. No entanto, é nítido o vitupério com o órgão sexual feminino.

 

 

A coisa nesse mundo por qual tenho mais xodó

É tomar uma pitada...Daonde, seu compadre? Ora, ora ora

Da boceta de vovó!

Quando tiro assim com o dedo

Da boceta de vovó

Fico triste, fico mudo

Fico mesmo que faz dó

Quando aparece raspada

Ahahahahaha...o que aparece raspada, seu compadre?

A boceta de vovó!

 

 

Pra terem uma ideia, não encontrei entre as letras de Mário Pinheiro nenhuma dessas duas. Tive que transcrever, com alguma sofreguidão, essas passagens (a qualidade da produção deixa a desejar). Presumo algum tipo de censura. Agora imaginem esse palavreado todo na boca de algum pagodeiro...

 

Os versos daquela época continuaram em polvorosa. Chiquinha Gonzaga gravou em 1908 uma cançoneta chamada “Corta Jaca”. A produção é instrumental, mas o “corta jaca” se tornou uma dança pra lá de sensual, assim como o Maxixe, um ritmo sincopado bem lascivo. Surgiu uma letra louvando o ato de “cortar jaca”, uma travessura que abarca a todas classes sociais e faixas etárias. Todo mundo “cortando jaca”.

 

 

Neste mundo de misérias
Quem impera
É quem é mais folgazão
É quem sabe cortar jaca
Nos requebros
De suprema, perfeição, perfeição

Ai, ai, como é bom dançar, ai!
Corta-jaca assim, assim, assim
Mexe com o pé!
Ai, ai, tem feitiço tem, ai!
Corta meu benzinho assim, assim!

Esta dança é buliçosa
Tão dengosa
Que todos querem dançar
Não há ricas baronesas
Nem marquesas
Que não saibam requebrar, requebrar

Este passo tem feitiço
Tal ouriço
Faz qualquer homem coió
Não há velho carrancudo
Nem sisudo
Que não caia em trololó, trololó

 

 

A jaca simboliza uma vulva (precisaria mesmo dizer?). A faca... vocês sabem o que é. E se imaginarmos a mímica manual de alguém cortando uma jaca, fica evidente o gestual de uma cópula.


 

Francisco Alves, o “Rei Da Voz”, famoso por suas lindas interpretações, gravou uma canção, em 1928, que também não aparece no seu repertório em sites especializados. “Lulu, acende a luz”, é um hilário conto de uma mulher inocente que havia sido noiva de “um preto autêntico”, mas se casou com o tal Lulu do título. Na noite de núpcias, quando ele apagou a luz, a mulher passou a murmurar e “soluçar devagarinho” o que o deixou desentendido. Após nove meses, a mulher pare – para a surpresa de Lulu – “um negrinho”. Daí ele percebe que a culpa foi dele, pois a moça o havia prevenido. E o refrão é cantado com a voz de Alves cheia de dengo.

 

 

Lulu... acende a luz, Biju

Assim depressa, ô cruz

Não quero esse “brinquedo”

Que escuridão, Jesus!

Lulu...eu tenho medo

Acende a luz!

 

 

Os reverenciados artistas da MPB e do Rock também não deixaram barato, entretanto, tinham malícia suficiente pra coisa passar despercebida. Rita Lee, sempre atrevida, também colocou tempero no descaramento. Muitas de suas músicas são brindes e odes ao coito. A música “Flagra” mostra uma sutileza genial.

 

 

No escurinho do cinema

Chupando drops de anis

Longe de qualquer problema

Perto de um final feliz

 

 

O drops de anis tem formato cilíndrico (fálico)... Pra quem está com tal doce na boca, o que seria um “final feliz”?????

 

A Legião Urbana também teria deixado uma mensagem velada na música “Daniel na Cova dos Leões”, que trataria de sexo oral, segundo algumas línguas.

 

 

Aquele gosto amargo do seu corpo

Ficou na minha boca por mais tempo

De amargo então, salgado ficou doce...

 

 

Cada qual no seu quadrado artístico, nosso rico cancioneiro continua sempre aprontando muitas e boas. O forró, com seu bate-coxa, arrematou muitos versos de duplo sentido. Genival Lacerda, Clemilda (“ele só vive batendo em Tonheta, batendo em Tonheta, batendo em Tonheta...”) e Sandro Becker foram alguns dos artistas que botaram todo mundo pra dançar, rir e se excitar ao mesmo tempo. Esse último gravou a impagável “Tico-Tico”, um gato que tinha um grande defeito: não parava de miar.

 

 

Tico mia na sala

Tico mia no chão

Tico mia no tapete

Tico mia no fogão

Tico mia no almoço

Tico mia no jantar

Tico mia no quarto

Toda hora sem parar

 

 

O pagode da Bahia também teve das suas. “Toma Vara” (“toma vara, toma vara, bem devagarinho / Toma vara, toma vara pra pegar peixinho”) e “Melô do Picolé” (“Vem chupar que tá durinho, vem chupar que é bom  / vem, vem, vem tá geladinho”) foram algumas que muita gente torceu o nariz. Mas foi o funk carioca que revolucionou. Não pelo duplo sentido de sempre, mas no escracho explicito. Com esse ritmo, as mulheres ganharam voz ativa na arte de esculhambar, colocando o sexo feminino na linha de frente do esculacho com nomes como Valeska Popozuda, Deise Tigrona, e Tati Quebra-Barraco que cantou a jocosa “Fogão Dako”.

 

 

Entrei numa loja

Estava em liquidação

Queima de estoque

Fogão na promoção

Escolhi da marca Dako

Porque Dako é bom!

Dako é bom

Dako é bom

Dako é bom

Calma, minha gente

É só a marca do fogão!

 

 

Não preciso nem dizer que a palavra “Dako”, na música, tem a pronúncia com a segunda sílaba bem acentuada...

 

 

Importante dizer que essas canções seguem uma linhagem da irreverência, de expressão de sentimentos e sentidos que seguem o fluxo do estardalhaço. A arte cede espaço a diversas manifestações, nenhuma novidade nisso, cada um passando seu recado de acordo com suas capacidades. Acontece que costumamos glorificar o passado, como se o presente não tivesse nenhuma ligação com o pretérito, ou não beba de sua fonte constantemente. Talvez as primeiras canções registradas no início do século passado caiam na denominação do “cult”, assim como as composições de talentos reconhecidos. A nostalgia sempre vem à baila quando queremos exorcizar um presente que consideramos indigno. Do “Corta Jaca” ao Arrocha ou funk, a balbúrdia tem seu lugar. O espaço está garantido. A luxúria está no ar.

 

 

FONTE:

 

http://dicionariompb.com.br/corta-jaca/dados-artisticos

 

IMAGEM: Facebook.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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