A SOMBRA DO VAZIO QUE HÁ EM MIM

July 31, 2020

 

 

 

A perda de um objeto de desejo, no sentido psicanalítico, gera, por vezes, uma dor psíquica profunda.[i] Segue a esta perda um período não determinável em que o indivíduo sofre em decorrência desse abandono. O luto representa esse momento doloroso pelo qual o ser humano vivência após a perda desse objeto. Mas se este instante vir a tornar-se um vazio existencial de autorrecriminação, já não será mais do luto que se trata, mas da melancolia. São esses dois momentos da existência humana que Freud analisou em “Luto e Melancolia”.[ii] Publicado em 1917, “Luto e Melancolia” trouxe um novo sentido na compreensão do sofrimento psíquico decorrente da perda do objeto de desejo.

 

O luto e a melancolia possuem características semelhantes, mas o segundo não decorre necessariamente do primeiro, ou seja, uma pessoa pode estar em um estado melancólico sem que tenha havido luto. Segundo Freud: “O luto, via de regra, é a reação à perda de uma pessoa querida ou de uma abstração que esteja no lugar dela, como a pátria, a liberdade, um ideal etc.”[iii] Portanto, o luto, diferentemente da melancolia, não é um estado patológico.

 

No luto, o princípio de realidade remete ao fato de que “o objeto amado já não existe mais e decreta a exigência de que toda a libido seja retirada de suas ligações com esse objeto.”[iv] A libido que foi retirada do objeto perdido retorna para o Eu, volta para o próprio indivíduo que havia investido a sua libido naquele objeto. Esse transitar da libido do objeto para o Eu aparece claramente no conto “Eleonora”, de Edgar Allan Poe. Nessa história, contada em primeira pessoa, o narrador relata ter se apaixonado por sua prima e ambos viveram essa paixão com intensidade até que a sua amada, objeto do seu desejo, morre. Durante muito tempo ele sentiu a sua perda e como havia lhe prometido em seu leito de morte nunca mais voltar a amar outra mulher, permaneceu fiel a esse juramente até conhecer “Ermengarde, radiante serafim!”.[v] Eles se casam e agora ele se sente liberto para seguir com o novo amor. Ele passou pelo luto – pela dor da perda da mulher amada –, a sua libido foi retirada da memória de Eleonora, trazida de volta ao seu Eu e reinvestida no novo objeto de desejo, Ermengarde.

 

Na melancolia Freud constata que ela também pode ser o resultado da perda do objeto amado, todavia, há casos em que a perda não é real, mas ideal. Suponha-se que alguém esteja sofrendo com o término de um relacionamento, mas que não tenha havido a morte do objeto de desejo, logo, não foi uma perda real (morte), mas uma perda ideal. Freud ainda acrescenta que, na esteira da perda ideal, aquele que padece no sofrimento melancólico pode não conseguir diferenciar de modo claro o que perdeu. Ao que incluiu: “Esse também poderia ser o caso de quando o doente sabe qual é a perda que ocasionou a melancolia, na medida em que ele, na verdade, sabe ‘quem’, mas não sabe ‘o que’ perdeu nele.”[vi] Isso o levou a concluir que a melancolia se liga a algo que foi subtraído da consciência, isto é, algo que passou a fazer parte do inconsciente; contrário do luto, no qual nada há no inconsciente que se relacione com a perda.

 

Há na melancolia outro aspecto que a diferencia do luto que é o rebaixamento na autoestima do Eu: “O doente descreve o seu Eu indigno, incapaz e moralmente desprezível; ele se recrimina, insulta-se e espera ser rejeitado e castigado.”[vii] Essa autorrecriminação no melancólico não consiste, alerta Freud, na atitude daquele que tem um sentimento de culpa e que faz contrição. Falta ao melancólico a vergonha em se expor no seu ato de autopunição. Nesse processo Freud observou que era comum que as inúmeras autoacusações do melancólico se adequassem relativamente pouco ao próprio analisante, mas estavam muitas vezes direcionadas para as pessoas que o analisante “ama, amou ou devia amar”.[viii]

 

As recriminações dirigidas, em princípio, ao próprio Eu, são na verdade voltadas para o objeto perdido.[ix] A libido que estava investida nesse objeto, ao retornar para o Eu, não é reinvestida em outro objeto de desejo, mas serve, na melancolia, para fazer uma identificação do Eu com o objeto abandonado: “A sombra do objeto caiu sobre o Eu [...]”.[x] Essa famosa frase de Freud revela que o Eu e o objeto perdido se tornaram idênticos na psique do melancólico. Assim, “a perda do objeto se transformou em uma perda do Eu, e o conflito entre o Eu e a pessoa amada, em uma cisão entre a crítica do Eu [Ichkritik] e o Eu modificado pela identificação.”[xi] Freud responde então à questão sobre “o que” foi perdido: perdeu-se o Eu. Desta identificação narcísica entre o Eu e o objeto perdido, a ligação amorosa, apesar do conflito do Eu com a pessoa amada, permanece, o que ocasiona uma série de problemas para o sujeito.

 

Apesar de a melancolia ter como fator considerável a perda por morte, ela pode ser ocasionada por outras situações que podem ir além dessa perda – como ofensas, desprezo e decepção – que manifestem uma oposição entre amor e ódio ou que reforcem essa oposição. Freud denomina de “ambivalência” a oscilação entre o amor e o ódio que há pelos semelhantes, e esta, por sua vez, remete à maneira como a imagem do Eu, que é a imagem também dos semelhantes, é tratada.[xii] Se, por um lado, o amor resiste à desconexão da libido com o objeto de desejo, por outro lado, o ódio insiste em desfazer essa conexão.

 

Um ponto relevante desse conflito notado por Freud é que através do mecanismo de identificação do Eu com o objeto perdido e da autopunição nos melancólicos, foi possível a ele explicar, nessa atitude sádica, a tendência ao suicídio que se faz presente na melancolia. Haveria assim um modelo sádico de satisfação pulsional na melancolia que poderia levar ao suicídio aquela que dela padece.

 

Ao final de “Luto e Melancolia”, Freud faz uma analogia entre oposições: de um lado, a melancolia, enquanto estado patológico de empobrecimento do Eu, e de outro a mania, em que o Eu desconhece o que foi superado e sobre “o que” trinfou no estado de ânimo elevado, a exemplo da embriaguez alcoólica. Entretanto, na mania, o Eu supera a perda do objeto e toda a libido retorna para o Eu, que agora está avidamente voltado para a busca de novos investimentos de objeto. Essa relação entre a melancolia e a mania foi mantida admitidamente inconclusiva por Freud.

 

Assim, “Luto e Melancolia” apresenta uma compreensão do sofrimento proveniente da perda do objeto de desejo, abrindo para diversas outras questões psicanalíticas, que podem auxiliar no manejo clínico para que haja a superação das dores que essa perda ou o abandono possam trazer, na tentativa de, junto ao analisante, fazer vir à tona uma luz que se projete na sombra do vazio que em seu ser se hospedou.

 

 

Link da imagem: https://www.megacurioso.com.br/fenomenos-inexplicaveis/39064-voce-ja-ouviu-falar-das-sombras-sinistras-que-aterrorizam-algumas-pessoas-.htm

 

 

Referências Bibliográficas

 

FREUD, Sigmund. “Luto e melancolia”. In: FREUD, S. Neurose, Psicose, Perversão. (Tradução: Maria Rita Salzano Moraes). Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. (Obras Incompletas de Sigmund Freud – 5).

 

POE, Edgar Allan. “Eleonora”. In: POE, Edgar A.  Edgar Allan Poe: medo clássico: coletânea inédita de contos do autor. (Tradução: Marcia Heloisa Amarante Gonçalves). Rio de Janeiro: Darkside Books, 2017.

 

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. (Tradução: Vera Ribeiro e Lucy Magalhães). Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

 

 

 

Notas 

 

[i] Por “objeto de desejo” entenda-se algo ou alguém a que a libido (pulsão) está direcionada (investida).

 

[ii] Muito embora a perda de um ente querido cause sofrimento psíquico, a maneira como este afeto se manifesta está associado ao modo pelo qual determinada cultura o compreende. Em algumas tribos indígenas, por exemplo, os mortos são tratados de modo profundamente distinto da maneira como os “ocidentais” tratam. Vide a palestra “A morte como ritual”, do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em <https://www.youtube.com/watch?v=LW0ojNmrF68>.

 

[iii] FREUD, 2019, p. 100.

 

[iv] Ibid., p. 101. Segundo Elisabeth Roudinesco, Freud retomou o termo libido “para designar a manifestação da pulsão sexual na vida psíquica e, por extensão, a sexualidade humana em geral e a infantil em particular [...]”. (ROUDINESCO, 1998, p. 471).

 

[v] POE, 2017, p. 269. A superação do luto, segundo a visão freudiana, fica nítida nessa passagem do conto de Edgar Allan Poe; o exato momento em que o narrador reinveste a sua libido em um novo objeto de desejo: “De repente, as manifestações cessaram; o mundo escureceu diante de meus olhos e fiquei perplexo perante os pensamentos que me consumiam; pois, vinda de uma terra distante e desconhecida para a alegre corte do rei a quem eu servia, surgiu uma donzela cuja beleza levou meu coração infiel a capitular de imediato – diante dela me prostrei sem protesto, na adoração mais ardente e abjeta.” (Ibid., p. 269).

 

[vi] FREUD, 2019, p. 102.

 

[vii] Idem, ibidem.

 

[viii] Ibid., p. 105.

 

[ix] “A mulher que, em voz alta, lamenta que seu marido esteja ligado a uma mulher tão incapaz quer, na verdade, queixar-se [anklagen] da incapacidade do marido, não importa em que sentido esta possa ser entendida.” (Ibid., p. 106).

 

[x] Ibid., p. 107.

 

[xi] Idem, ibidem.

 

[xii] Essa relação é mais detidamente analisada por Freud quando ele aborda em outros textos a neurose obsessiva.

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