• Gabriel Brito

Lugar de fala, gotas e paradigmas*




Por que brancos/brancas precisam tanto falar sobre “pretos/pretas”? Por outro lado, seria o termo/conceito/dispositivo/máquina “lugar de fala” um bom exemplo pra falar sobre uma ciência de pretos e pretas e, portanto, de um novo paradigma em ciências humanas que tanto desconcerta pessoas brancas?


Vamos lembrar de um exemplo entre brancos, pra não cometer um recente erro¹: o filósofo francês Jacque Derrida, “pai” do termo/máquina “desconstrução”, em um livro sobre outro “branco”, Sigmund Freud, dizia: “seria a psicanálise uma ciência judaica?²”


Ora! O que estamos dizendo aqui? Na filosofia da ciência existia uma abordagem francesa, crítica, de base marxista, mas uma também francesa, porém, “burguesa”. O que estava em jogo, repito, era novamente a relação entre a experiência e a prática científica (fenomenologia), com os fatores externos, “sociais”, econômicos, políticos por trás dessa prática.


O que choca “brancos” é a incapacidade de não poder mais “falar sobre” o outro – ao menos não mais quando temos “lugar de fala” circulando com seu longo apito. Há uma incomensurabilidade entre duas comunidades, a de brancos e a de pretos. E o que está em jogo é a autoridade da fala, não apenas “o lugar”. O que está em questão é quem pode falar sobre o quê?


Certa química e filósofa da ciência, uma belga, Isabele Stenger, chama de crítica feminista radical à racionalidade científica um movimento contrário ao relativismo sociológico que “falava em nome de todas as ciências”, mas sem criticá-las ou denunciar os “fatores externos” (masculinidade) de políticas-científicas que mantinham as desigualdades, por exemplo.


Ora, a grande questão é que, até os 1990, seja no “velho” ou no “novo” mundo (pra europeus), o conteúdo do conhecimento científico não importava muito para a crítica radical, contanto que fosse útil para denunciar as opressões.


Não é o mesmo hoje?


A proposta, aqui, não é, de modo algum, opor uma coisa à outra, mas demonstrar, inspirado na Stengers³, e em Bruno Latour, brancos, que uma coisa não se reduz a outra, mas podem sim, serem úteis uma à outra.


O elogio, aqui, é à crítica à comunidade científica branca que sempre falou dos corpos pretos e fez ciência de brancos racistas, mas não apenas!, e que, agora, bem poderia ser solidária sobre o que a comunidade científica preta vem defendendo e lutando para construir.


Existem tantos temas de pesquisa e coisas pra se fazer e pesquisar. “Êta mundo bom!” Diz a novela de época da Globo que hoje quer derrubar Bolsonaro, mas antes Lula e Dilma: êta mídia esperta, uai!


Mas a mídia não se reduz à política; nem a política à ciência: mas elas podem dialogar: Bolsonaro-Cloroquina-EmissoraX; Mandeta-OMS-Globo-isolamento social.


Com lugar de fala não é diferente. Quem mobiliza quem para fazer política e ciência? Disso não se tem mais pra onde ir – já sabemos dos interesses. A realidade é mais complexa que isso? Mas é claro! E é esse elemento incógnito que choca brancos incomodados e pretos e pretas determinados/as. Mas a realidade escapa a eles/elas e a mim também[4].


Lembremos de Dark (série de brancos alemã/es), salvo engano falando de Issac Newotn (outro branco): “o que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano”.


*: link da imagem: https://gshow.globo.com/novelas/eta-mundo-bom/noticia/eta-mundo-bom-relembre-os-locais-onde-foram-gravadas-cenas-da-novela.ghtml


1: Refiro-me à controvérsia iniciada por Lilia Schwarcz contra Byoncé.

2: Ver Derrida, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Relume Damará, 2001.

3: Ver: STENGERS, Isabelle. A invenção das ciências modernas. Editora 34, 2002.

4: Termo recorrente no jargão “pinhoneano” (Thiago Pinho).

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