• autor convidado

E se deus tivesse instagram?

Conheça o projeto @desepensar



Por João Mendes*




O ato de humanizar Deus é digno de blasfêmia? Trazer o inalcançável ao chão, espelhar a face maravilhosa em traços imperfeitos, é digno de condenação? Afinal, se Deus é dito nossa imagem semelhança, por que alguns se dizem mais semelhantes que outros?

Uma outra questão... E se Deus tivesse um instagram, o que ele postaria?

Dessa mesma pergunta, surge o projeto intitulado “De se pensar”, desenvolvido pelo ator, professor e diretor teatral Eduardo Sena.





Estabelecido no instagram, o perfil proporciona o debate a partir de realizações cênicas. Dentro de cada monólogo exprimem-se os desabafos, as opiniões e suas vontades. Cada ator, transpondo suas mensagens através dessa personificação. Pode-se dizer que é a boca humana ganhando versos de santidade.


Cada dia, a imagem semelhança do criador se veste no corpo de um ator diferente. Assim, cada monólogo possui sua própria identidade cinematográfica, ritmo, edição, estética e linguagem. Cada dia, uma das mil faces de Deus ganha a tela.


Além do discurso ser o ponto forte, é possível criar discussões em cima do projeto. Ao assistir cada um dos vídeos, nota-se também a representatividade e os aspectos unicamente humanos de cada um dos autores. A imagem santificada, distante, torna-se agora palpável dentro dos “deslimites” cênicos que o teatro proporciona.


E, ao pensar no papel da arte, revela-se o potencial de atingir os deuses e transformá-los em humanos. Afinal, desde o teatro grego já podemos andar entre o conceito que estaria acima de nós.


A arte nos permite desumanizar a carne e humanizar os espíritos. Assim, quando questiono sobre o parecer da blasfêmia, também levanto outro ponto de reflexão. Então, é blasfêmia reconhecer tantos outros rostos na dita imagem semelhança do criador?





Cria-se o lugar onde habita a diversidade do fazer místico. Agora, todos homens, mulheres, crianças... Todas as feições fora dos conceitos padronizados segundo o catolicismo, podem se identificar na imagem refletida da santidade.


Não é sobre fé, não apenas. O projeto incita o questionamento acerca da representação divina e aqueles que podem portar sua mensagem de diferentes maneiras. Por isso, questiono outra vez: Uma criança que consiga enxergar Deus em si mesma, é blasfêmia?


A verdade é que a arte sempre encontra um jeito. Em tempos de pandemia, adaptar-se é a sobrevivência, transpor os limites dos palcos e criar. Nesse contexto, surge o projeto De se pensar, que além de nos entreter com performances artísticas e montagens cinematográficas dignas de aplauso, também nos faz questionar sobre o quão frágil é a dita imagem de Deus, para que não possamos reinventá-la ou sequer nos enxergar nela.


Afinal, o que importa é a mensagem ou o rosto que a entrega?



Perfil do projeto: https://www.instagram.com/desepensar/

Perfil do criador do projeto: https://www.instagram.com/negro.du/


* João Mendes. Escritor baiano. Estudante de cinema e teatro. Autor de "Aos trilhos que me atravessam".

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