• Francisco Assis

MARCAS DO RACISMO




A morte violenta de Prince Jones marcou profundamente o seu amigo Ta-Nehisi Coates, assim como a morte de tantas outras pessoas negras. Essas tragédias o levaram a se posicionar criticamente em relação à maneira como a sociedade americana trata o corpo negro. A partir de suas impressões e da experiência acumulada ao longo de anos, Coates, que já escrevia livros e artigos referentes à condição do negro americano, decidiu escrever uma carta para o seu filho, com o intuito de que ele tivesse elementos para que pudesse elaborar por si mesmo uma compreensão sobre o que significa ser negro nos EUA. “Entre o Mundo e Eu” é um dos legados que Coates deixou para o filho, e o fez mesclando narrativa pessoal, história e reportagem. Mas afinal o que significa ser negro nos EUA para Coates? E em que medida suas reflexões podem contribuir para a discussão do enfrentamento e da superação do racismo no Brasil?


A vida de Coates, como a de toda a comunidade negra americana que reside, sobretudo, nos conjuntos habitacionais, foi marcada por uma violência que tem história: a escravidão. Essa herança perversa espraiou a sua lógica de extermínio do corpo negro mesmo depois de sua abolição e é esse o ponto de vista do jornalista ao compor a carta para o seu filho.


A principal preocupação de Ta-Nehisi Coates é evidenciar ao seu filho a crueza da vida do negro nos EUA, para que ele não se iluda com o que Coates denomina de “Sonho”. O sonho aqui não é apenas uma referência ao “sonho americano” que apresenta uma sociedade de consumo. Apesar de também estar ligado a este ideário, o “Sonho” para Coates representa a tentativa de reprodução de um comportamento de quem deseja fazer parte daquele contingente branco privilegiado constitutivo da sociedade estadunidense. Na sua perspectiva os “Sonhadores” desse “Sonho” pagam um preço caro por aceitarem viver uma ilusão. Antes é necessário manter a clareza da situação, pois “O vocabulário de nossa mídia está cheio de conceitos moralistas simplistas e superficiais, de grandes ideias e teorias sobre tudo. Mas algum tempo atrás rejeitei tudo que é mágico, em todas as suas formas” (COATES, 2015, p. 23). Esse discurso moralista é confrontado diretamente com a realidade dos acontecimentos racistas.


Esse olhar realista e físico (no sentido material) provém da constatação das inúmeras mortes de corpos negros causadas pela violência estatal corporificada pela polícia americana. São diversos os casos de morte de pessoas negras relatados por Coates e ele não esconde do filho o seu sentimento: “Eu lhe escrevo em seu 15º aniversário, porque este foi o ano em que você viu Eric Garner ser asfixiado até a morte por vender cigarros; porque você sabe agora que Renisha McBride foi morta a tiros por buscar ajuda, que John Crawford foi fuzilado enquanto fazia compras numa loja de departamentos. E você viu homens de uniforme passarem de carro e assassinarem Tamir Rice, uma criança de doze anos que eles deveriam proteger. E você viu homens com o mesmo uniforme espancarem Marlene Pinnock, avó de alguém, à beira de uma estrada. E você sabe agora, se não sabia antes, que os departamentos de polícia de seu país foram munidos de autoridade para destruir o seu corpo” (Ibid., p. 21). E antes que se atribua a violência a um subjetivismo individual, Coates acrescenta: “Os destruidores são apenas homens que fazem cumprir os caprichos de nosso país, interpretando corretamente sua herança e seu legado” (Idem, ibidem). Uma herança e um legado de escravização, de violência legitimada contra o corpo negro.


Ao longo da sua vida Coates se deparou com a realidade da violência das ruas, mas também com a ideologia proveniente do sistema educacional americano: “As ruas não foram meu único problema. Se as ruas algemaram minha perna direita, as escolas algemaram a esquerda. Se você não compreender as ruas, terá desistido do seu corpo agora. Mas se não compreender as escolas, desistirá do seu corpo depois” (Ibid., p. 35). Coates se questiona como ser duas vezes melhor em um cenário de completa desigualdade de oportunidades. “O que significava, como nos diziam os mais velhos, ‘crescer e ser alguém’?” (Idem, ibidem). Neste sentido o ato de questionar, de refletir, ensinado por sua avó, surge como elemento essencial, segundo relata, para que pudesse continuamente indagar de maneira mais refinada não apenas o que estava ao seu redor, mas acima de tudo, a si mesmo.


Neste cenário realista descrito por Ta-Nehisi Coates, se poderia questionar se existe uma saída para os negros americanos, assim como para toda a comunidade negra em outros países, vítimas do racismo. Coates não se apega ao “Sonho” e nem a um otimismo exagerado, mas a uma descrição dos acontecimentos tal como um jornalista o faria. Porém, como pai e homem negro preocupado com a vida do seu filho, apresenta a importância de se ter uma perspectiva local diferente daquela vivida nos guetos. A abertura para um horizonte além daquele confinado ao gueto foi um dos aspectos mais importantes para que ele começasse a compreender que havia outras maneiras de viver, que havia outras possibilidades. Outro ponto não menos importante está na necessidade de uma atuação conjunta por parte da comunidade negra, como se tem visto nos recentes protestos nos EUA.[i] Essas duas significativas características atuam como modelo para as comunidades negras de outros países, tal como o Brasil.


“Entre o Mundo e Eu” tornou-se uma referência na sociedade americana no debate sobre o enfrentamento e superação do racismo, dividindo opiniões. Chegou ao ponto de ser aludido no filme “The Equalizer 2” (“O Protetor 2”), produzido pela Sony Pictures e dirigido por Antoine Fuqua, em uma cena em que Robert McCall (Denzel Washington) empresta o livro “Between the World and Me” (“Entre o Mundo e Eu”) para o jovem Miles (Ashton Sanders) como condição para que ele o leia e o acordo entre ambos possa ser consolidado.


Uma leitura que provavelmente gerará algum nível de desconforto no leitor, mas que poderá impeli-lo a questionar muito do que se tem dito sobre o racismo que permeia a sociedade e qual o papel do sujeito diante dessa lógica perversa.


Link da imagem:

https://www.americanas.com.br/produto/125532748/livro-entre-o-mundo-e-eu?WT.srch=1&acc=e789ea56094489dffd798f86ff51c7a9&epar=bp_pl_00_go_liv_todas_geral_gmv&gclid=EAIaIQobChMI5J2OhOu56wIVkAuRCh1CiATkEAQYAyABEgK9-PD_BwE&i=5bad9b13eec3dfb1f84afeba&o=56e3fa18eec3dfb1f87832ac&opn=YSMESP&sellerid=55789390000899



Referência Bibliográfica



COATES, Ta-Nehisi. Entre o Mundo e Eu. (Tradução: Paulo Geiger). Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.





[i] “Entre o Mundo e Eu” foi publicado em 2015, portanto, antes dos protestos atuais que têm levado um contingente expressivo de pessoas às ruas, assumindo um papel vital na luta contra o racismo nos EUA.

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