O quão próximos estamos da Utopia?

August 31, 2020

 

 

 A utopia, obra de 1516, de Thomas Morus, um relato de auto ficção, já que o autor aparece como ele mesmo ouvindo o relato de seu personagem viajante, Rafael Hitlodeu. Na obra, ficção e realidade se misturam também sobre a localização da ilha que possivelmente estaria nas Américas, não coincidentemente a Europa se lançara ao mar nesse período histórico e voltava com relatos de viagens, dentre eles, um dos mais famosos: A carta de Pero Vaz de Caminha.

 

Na carta de Caminha, é relatado um mundo totalmente diferente daquele europeu, inclusive com uma outra noção de vivência em comunidade e modos de bem viver. Porém, existiam nessas cartas de viagens (não apenas na de Pero Vaz) um imaginário do autor, as colocando em um patamar fora do real.

 

O viés ficcional estava presente nesses relatos, seja na implicação de metáforas para descrever objetos e animais que não os eram do cotidiano da Europa, ou, de fato, a descrição do povo originário como selvagens ou inocentes, fenômeno que ficou conhecido como o do bom selvagem. É nesse aspecto da ficção que os relatos de viagens dos tempos das grandes navegações – ditos não fictícios- se encontram com o relato realmente ficcional escrito por Morus na voz da personagem de Rafael Hitlodeu.

 

Ainda que tenha um viés extremamente cristão na obra de Morus, inclusive ele é um santo para a Igreja Católica, muitos dos seus ensinamentos ainda é caro para pensar no agora, dentre eles a relação da separação entre religião e estado, a relação com os bens ditos valiosos, a aposentadoria, a pena, a guerra, a arte.

 

"Também da relação Estado com a saúde pública, algo extremamente importante para o presente, principalmente no contexto da pandemia, Rafael diz: “Os provedores se ocupam em primeiro lugar com os doentes, os quais são tratados em hospitais públicos. [...] E podem ser isolados os que têm doença contagiosa. Esses hospitais são muito bem instalados, equipados de tudo que pode contribuir para uma cura.” (p.85)

 

Gostaria de ter lido esse trecho nos jornais ainda hoje, mas está registrado na fantasia escrita por um homem no começo do século XVI. Ele já falava em saúde pública. É necessário lembrar que o SUS, o nosso sistema de saúde vem sofrendo ataques no governo Bolsonaro ,e, que se agravaram no contexto de pandemia, no qual faltam leitos, medicamentos sedativos para a manutenção da vida dos internados em estado grave, além do endossamento de medidas que podem prejudicar a saúde dos indivíduos, como a abertura desenfreada de estabelecimentos e o uso de medicações não comprovadas, dentre elas, a cloroquina.

 

Diferente de Utopia, no Brasil, os provedores, ou seja, os governantes, dentre eles o próprio presidente, tem se comportado de maneira anti vida, anti saúde e anti população. Provocando mais necropolítica do que manutenção do bem viver.

 

Esse extermínio populacional também se aplica a aposentadoria., assunto bem comentado no ano de 2019, devido a reforma da previdência. Imprevisivelmente, Morus diz da importância do subsídio do Estado para quem já trabalhou para ele, assim como crítica os nobres que nada fazem para a comunidade:

 

“Não é injusto e ingrato o país que concede favores aos chamados nobres, aos ourives e às pessoas dessa espécie, que não fazem senão adular e servir os prazeres mais vãos, enquanto não há nenhuma generosidade para os agricultores, os carvoeiros, os pedreiros, os cocheiros, sem os quais um Estado não poderia subsistir? Ele exige destes, durante os seus mais belos anos, fadigas excessivas; depois, quando estão quebrantados pela idade e as doenças e privado de todo recurso, os recompensa indignamente deixando-os morrer de fome, esquecendo tudo o que recebeu deles.”  (p.151)

 

Nesse trecho especificamente, Morus comenta dos Estados fora de Utopia e infelizmente, alguns séculos depois a América não encontra sua Utopia e vive essa bajulação dos ricos por parte do Estado, no qual se concentra nos grandes empresários e banqueiros, abandonando o povo que todos os dias sai para produzir os bens que de fato fazem o país sobreviver.

 

Não vou aqui minimizar a exploração colonial para esse contexto latino americano, em especial brasileiro, algo promovido pelo genocídio e exploração europeia, porém também acho injusto culparmos apenas os fatos históricos pelo agora, já que é possível reinventar uma nova utopia e fazer a história no presente.

 

Essa ilha a ser inventada não pode ser igual a de Morus em que as mulheres precisem obedecer aos seus maridos e que exista um escravo do Estado, uma vez que esses dois elementos de exploração não cambem para o século XXI.

 

Entretanto, há muitas reflexões na obra de Morus que não se perdem no tempo, talvez porque a relação opressor e oprimido seja supersônica, ou, supersecular, atravessando as ondas da humanidade. Ou talvez seja uma questão de ética, e aí Morus traz a moral cristã como um princípio de vida, mas não se limita a ela para o bem estar e a comunhão de valores.

 

O que une as pessoas é muito maior, é um senso de comunidade, algo que os povos originários (voltando para as cartas) conseguiam e conseguem fazer muito bem, ainda que de modo diferente do Estado de Utopia e bem distante dos Estados ocidentais.

 

Talvez o Marxismo consiga se aproximar dessa ideia utopiana de Morus, entretanto, ainda para o agora cabem releituras dos escritos de Marx, uma vez que o próprio capitalismo como sistema se modificou e muito. Mas é na desigualdade (também assunto do Marxismo) que o jurista (Morus) privilegia suas reflexões ao propor O tratado da melhor forma de governo ou A utopia.

 

Morus escreveu A utopia sem saber do século XXI, do futuro improvável, isso é quase uma redundância, porque ninguém pode nos dizer do depois. Ele nos sussurra do passado uma esperança para o nosso futuro, porque mudaram as formas, mas não os conteúdos das opressões, das acumulações de bens e dos valores materiais sobre os morais.

 

Felizmente nem só de negativos o presente colheu do passado. Utopicamente nos restaram as obras que nos exprimem um pouco de esperança de frente ao futuro, um futuro que ainda está por vir ou que talvez permaneça no sonho literário de seu criador.

 

Referência:

A utopia ou O tratado da melhor forma de governo.[Por: Paulo Neves]. Porto Alegre: L&PM, 1997

Ilustração:

Allan Deas, retirada do site: <https://allandeas.com/utopia> 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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