O filme "Cuties" e a sexualização infanto-juvenil


As redes sociais são pródigas em criar polêmica. Parece que o interesse em apontar o dedo e julgar é mais potente que a compreensão e a ponderação. Não quero aqui tentar esclarecer por qual razão isso vem acontecendo, mas expor a mais nova controvérsia: uma campanha de cancelamentos que atinge a plataforma streaming Netflix, por conta da exibição do filme francês “Cuties” (algo como “lindinhas”). Qual o motivo dessa vez para tanta celeuma?


A película aborda a socialização de uma garota chamada Amy, de 11 anos, com um grupo de colegas da escola que estão ensaiando para um concurso de dança. Ela pertence a uma família de imigrantes africanos, adeptos do islamismo, residentes em um conjunto habitacional bem humilde. A mãe vem sofrendo com o abandono do marido, enquanto Amy vai se aproximando das garotas dançarinas. As meninas vestem roupinhas bem justas, o que pode causar um desconforto ao espectador.


Com isso, a direção do longa está sendo acusada de sexualizar a infância, e por isso a onda de cancelamentos das assinaturas. #CancelNetflix, é uma das hashtags mais comentadas do momento. A Plataforma digital resolveu publicar um comunicado da diretora Maimouna Doucoré justificando que o filme procura exatamente chamar atenção para a hipersexualização de crianças.


O filme mostra um cenário comum: meninas na fase de transição entre a infância e adolescência curiosas sobre a sexualidade, reproduzindo comportamentos de pessoas mais velhas, se espelhando em artistas que ganham fama colocando os glúteos para rebolar. É uma fase abelhuda, buscando interesse em conhecer lados da vida que se inicia, ainda mais a protagonista, rodeada num ambiente conservador, com mãe solitária, um convite para fugir da realidade que a assombra.


A psicóloga Rosely Saião no artigo “Miniatura de Periguete”, aborda justamente a conexão das crianças com o universo sexual através da internet, muito mais “atentas e estimuladas a observar o que acontece à sua volta, mais sabidas e menos afeitas à obediência”. Muitos pais também não contribuem e não veem problemas na “periguetização” das meninas (no contexto da aparência, vestes curtas e diminutas). Muitas mães estariam vestindo suas filhas com esse look, sem atentar para as consequências que isso pode causar, pois encurta a infância, fazendo com que as variantes dessa fase se esvaiam com mais rapidez. Este é um lado a ser observado sim. Mas há outros pontos.


Já escrevi mais ou menos sobre esse assunto ao citar que as meninas muitas vezes estão envolvidas em brincadeiras onde o corpo está sempre remexendo: cantigas de roda – como “Sai Ó Piaba” – bambolê, e outros gestuais que apontam para o conhecimento do próprio corpo e seus limites físicos. A dança é um dos primeiros sinais de ação corpórea para pessoas na faixa etária até os onze anos. E é isso que temos que problematizar: a dança expõe o corpo e o sexualiza? Ou o que sexualiza é o olhar do adulto sobre esse corpo juvenil?


Em “Cuties”, as garotas estão preocupadas em dar o melhor de si em suas performances, e não em seduzir alguém. É possível ver inocência em algumas atitudes, porém, o filme tem o cuidado de não aprofundar a erotização no comportamento delas. As meninas que dançam uma “umbigada” (manifestação afro-brasileira, no qual a “pancada” entre os umbigos é marca registrada) estão reiterando algo que faz parte da nosso própria identidade, não necessariamente exercitando a arte de seduzir. Voltando ao longa-metragem francês, as roupinhas que causariam algum incomodo, são reproduções visuais, inspiradas em grandes “divas” de sucesso. É possível um cuidado maior em desfazer nessa molecada a impressão de que uma mulher só faz sucesso se manifestar uma exibição sugestiva.


Situação muito mais grave acontece nas favelas e comunidades carentes. Os jovens moradores desses locais crescem num ambiente insalubre, com casas amontoadas, ouvindo a cópula dos pais, irmãos, e vizinhos, o que facilita um aprendizado sexual distorcido, criando um imaginário muito mais danoso. São vários espectros a serem analisados. A sexualização infanto-juvenil existe, no entanto, um pouco de discernimento não faz mal a ninguém. É possível delimitar o que é autoconhecimento e limitações do próprio corpo e a sexualização provocada pelo olhar do adulto. Ao notar olhares mais maliciosos, as jovens tendem a compreender precocemente como se estabelecem os jogos sexuais. E aí está, a meu ver, o grande perigo.


FONTE:


https://exitoina.uol.com.br/noticias/tv-e-series/cresce-taxa-de-cancelamentos-da-netflix-apos-polemica-com-o-filme-cuties.phtml


https://www.omelete.com.br/netflix/cuties-diretora-depoimentos-polemica


http://jorgewerthein.blogspot.com/2012/10/rosely-sayao-miniatura-de-piriguete.html


https://www.soteroprosa.com/single-post/2017/10/06/Dan%C3%A7as-e-ritmos-Rebolados-desde-sempre








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